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Agradecimento aos meus dentes

Os escritores do tempo de agora fazem os mais diferentes agradecimentos na abertura de seus livros. Há os que se curvam aos reis pelo soldo que os mantém no ócio. Os que reconhecem a importância de suas esposas por lhe trazerem vinho nas noites frias e os que louvam o deus de Abraão, Isaque e Jacó pela criação do mundo, sem o qual, reconhecem mui sensatamente, não teriam muito do que falar. Eu, porém, como estou a escrever uma carta e não um livro, agradeço apenas a esta dúzia de marfins amarelados que ainda se prendem à minha gengiva, feitos para sorrir às senhoras, arrancar as rolhas das garrafas, morder os inimigos e rasgar a carne, de modo que, sem eles, não procriaríamos, não beberíamos, lutaríamos pior e morreríamos de fome. Aos dentes, fiéis companheiros, devo minha demora nessa mundo, pois bem penso que a vida é tão somente um susto entre o nascer e o morrer, e, às vezes, para alargar o caminho entre o berço e a cova, vale mais o afiado canino que a aguda filosofia. *** Isso é ...

As murgas uruguaias e os cidadãos-artistas

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*Por Lucas Berton Quem tem o poder da palavra, da imagem e do som, tem a seu dispor a invenção de dogmas religiosos, políticos, econômicos, sociais... e, também, dogmas da arte e da cultura. Nestes, os seres humanos são divididos em artistas e não artistas, como se fossem divididos em nobres e plebeus. O poder da palavra é tão grande que pode criar o contradogma, que, mesmo sendo contra, pode ser dogma. É dever do cidadão-artista analisar e desmistificar todos os dogmas. Já que estamos condenados à criatividade, no presente estudando o passado, devemos inventar o futuro sem esperar por ele. Um futuro sem dogmas... É dever de todo cidadão-artista, usando os mesmos canais de opressão, mas com o sinal trocado — palavra, imagem, som —, destruir os dogmas da arte e da cultura mostrando que todos os seres humanos são artistas de todas as artes, cada um do seu jeito. São produtores de cultura e não apenas boquiabertos consumidores da cultura alheia! Não temos que ser melhores que ninguém: tem...

Do nome deste blog

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Batizar este blog foi difícil. Depois de meses de debates, sugestões e testes, o nome surgiu de um encontro entre as "Folhas de relva", de Walt Withman, e "Vozes da Selva", de Horácio Quiroga. A escrita que pretendemos dar vida nestas postagens é selvagem como a natureza, mas também tranquila e reflexiva como um samadhi: isto é, um estado de consciência que expressa a união entre a consciência individual e universal. A nossa sociedade vive uma crise generalizada. A cegueira voluntária e providencial toma conta da maioria dos seres humanos, nos colocando numa condição de um breu típico das noites da selva quiroguiana. Numa noite assim, o fugaz lume de um fósforo não tem outra utilidade senão a de tornar mais compacta a escuridão vertiginosa, que provoca a perda de equilíbrio. Os fósforos não podem nos ajudar a enfrentar esta noite arcaica, que se torna mais espessa e vertiginosa. Nos guiaremos não por luzes efêmeras, mas pelas vozes da relva, que indicarão caminhos e...

James Hillman e a reconciliação dos opostos

*Por  André Castro           A seguir, a presento  trechos do terceiro capítulo do livro “Senex e Puer”, de James Hillman.           O texto foi apresentado pela primeira vez no encontro de Eranos, em 1967.

"Metade", Oswaldo Montenegro

"Que a força do medo que tenho não me impeça de ver o que anseio que a morte de tudo em que acredito não me tape os ouvidos e a boca pois metade de mim é o que eu grito a outra metade é silêncio Que a música que ouço ao longe seja linda ainda que tristeza que a mulher que amo seja pra sempre amada mesmo que distante pois metade de mim é partida a outra metade é saudade. Quer as palavras que falo não sejam ouvidas como prece nem repetidas com fervor apenas respeitadas como a única coisa que resta a um homem inundado de sentimentos pois metade de mim é o que ouço a outra metade é o que calo Que a minha vontade de ir embora se transforme na calma e paz que mereço que a tensão que me corrói por dentro seja um dia recompensada porque metade de mim é o que penso a outra metade um vulcão." Oswaldo Montenegro

Manifesto das intencionalidades

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A nossa sociedade vive numa crise generalizada. Ela se desumaniza e transforma em mercadoria tudo o que toca. Até mesmo a "arte", como a música e o cinema comercial — só para citarmos algumas — e a ciência — como a psicologia e a economia —, nos rebaixa e nos asfixia, ao invés de nos emancipar. Poucos são os meios de comunicação livres pra pensarmos e emanciparmos a coletividade — e a individualidade sadia dentro desta. Muita gente boa escreve, milita, pensa ou sente sozinho. Queremos fazer tudo isso juntos e estabelecermos pontes. Nos procurar e nos ouvir mais. Que a diversidade humana se expresse nesse novo blog, já que ela é o tesouro da "unidade humana", bem como o próprio tesouro da "unidade humana" é a sua diversidade. Que toda essa diversidade aprenda a dialogar e a construir junto, num novo tipo de equilíbrio que não é expressado pela direita política, tampouco pela maior parte da "esquerda", que é tacanha e limitada na sua forma de agir,...