James Hillman e a reconciliação dos opostos
*Por André Castro
A seguir, apresento trechos do terceiro capítulo do livro “Senex e Puer”, de James Hillman.
O texto foi apresentado pela primeira vez no encontro de Eranos, em 1967.
*Por James Hillman
Cap. 3 — POLARIDADES EM PSICOLOGIA ANALÍTICA
[...] A natureza da polaridade e os tipos de polaridades têm ocupado, desde o início, as conferências Eranos. Nós podemos, assim, dispensar uma preparação filosófica para um exame das polaridades em nosso campo.
A psicologia analítica, enquanto campo estruturado, baseia-se em descrições polares. A vida e o pensamento de Jung utilizam mais a polaridade do que de qualquer outra visão psicológica importante.
(Jung fez, claro, uso de outros modelos exploratórios da estrutura psíquica, tais como a Schichtentheorie [teoria das camadas] e um esquema hierárquico quando descreve os níveis da psique[...] Cada um desses modelos é, porém, uma metáfora para a captura da incontrolável natureza das realidades psíquicas.)
Desses modelos, o que ele mais favoreceu foi o das oposições polares. O modelo polar é básico em todas as suas principais ideias psicológicas. Deixe-nos relembrá-las resumidamente:
1. A psique é primariamente dividida em consciência e inconsciente, sendo a relação entre eles compensatória.
2. A energia da psique flui entre dois pólos, os quais podem ser genericamente qualificados por opostos.
3. As atitudes da psique (introversão e extroversão) e as quatro funções psicológicas [pensamento e sentimento, intuição e sensação] são descritas em pares de opostos.
4. O padrão instintivo de comportamento e a imagem arquetípica são extremidades polares de um espectro contínuo.
5. Existe uma recorrência de temas de polaridades tais como: logos e eros, amor e poder, ego e sombra, espírito e natureza, sexualidade e religião, racional e irracional, individual e coletivo, continente e conteúdo, bem como as noções de dois tipos de pontos de vista, o da primeira metade e o da segunda metade da vida, ‘les extrèmes se touchent’ [os extremos se encostam] etc.
6. Polaridade é fundamental para os escritos de Jung sobre a prática como uma dialética e nos seus escritos autobiográficos como, por exemplo, personalidade número um e personalidade número dois.
7. Finalmente, o grande tema dos seus últimos anos: a polaridade masculino-feminino e a sua união nas várias formas alquímicas.
Dentro disso tudo, para a psicologia os pólos primários são consciência e inconsciente[...] Entretanto, esta polaridade primária é dada apenas como um potencial dentro do arquétipo, o qual, teoricamente, não está dissociado em pólos. O arquétipo per se é ambivalente e paradoxal, abarcando ambos, espírito e natureza, psique e matéria, consciência e inconsciente; nele, o sim e o não são um só. Não há dia nem noite, melhor dizendo, há um contínuo alvorecer.
A inerente oposição no interior do arquétipo dissocia-se em pólos quando ele é penetrado pela consciência do ego. O dia rompe-se com o ego [the day breaks with the ego]; a noite é deixada para trás. Nossa consciência habitual diurna apreende apenas uma parte e faz dela um pólo [a clássica unilateralidade da consciência egóica]. Para a psicologia, as bases ontológicas da polaridade encontram-se na consciência do ego; a qualidade da polaridade que se estende da conflituosa antítese até a harmoniosa cooperação, depende, sobretudo, da relação psicológica entre consciência do ego e o inconsciente.
Para toda porção de luz que fixamos fora da ambivalência arquetípica, iluminando com a vela de nosso ego um brilhante círculo de conhecimento, nós também obscurecemos o restante da sala. No mesmo momento em que acendemos a vela, criamos a "escuridão externa", como se a luz fosse um roubo da penumbra da alvorada e do crepúsculo, da paradoxal luz arquetípica. A consciência e o inconsciente são criados dentro de uma polaridade no mesmo momento em que os originais estados crepusculares; e estão sendo continuamente criados ao mesmo tempo.
O processo de criação da consciência, portanto, também cria inconsciência, ou como disse Jung quando lançou essa embaraçosa verdade aqui em Eranos: "Assim nós chegamos à paradoxal conclusão de que não há conteúdo consciente que não seja, de um outro modo, inconsciente. Talvez, também, não haja psiquismo inconsciente que não seja, ao mesmo tempo, consciente."
Não podemos falar, portanto, de um processo evolutivo de luz emergindo da escuridão, uma extensão da luz às custas da escuridão. A luz não é roubada do escuro[...] Apague a vela e o crepúsculo desponta novamente nas margens externas da sala, na qual havia antes apenas impenetráveis recessos da sombra.
Em outras palavras, para a psicologia o fenômeno da polaridade não é arquetipicamente primário, mas uma consequência da afinidade do ego pela luz, da mesma forma que o termo 'polaridade' entrou para a linguagem ocidental com o ego cartesiano e o Iluminismo[...]
A consciência e o inconsciente requerem outras metáforas, especialmente aquelas de valor. Assim, nós achamos que o básico sim e não como valores positivo e negativo, em todas as suas formas, interferem e complicam uma simples polaridade coexistente. O próprio Deus, em seu primeiro julgamento de valor do universo, declara a luz como boa e, chamando-a Dia e separando-a da escuridão da Noite, deixa implícito que esta última é ruim.
Desse modo estão os sinais mais e menos atrelados aos pólos primários de consciência e inconsciente. Assim, o mundo humano inicia quando valores do sentimento somam complexidade à percepção, e nós sentimos as polaridades e reconhecemos a escolha moral.* Quando falamos de consciência, ainda tendemos a dizer boa ou má consciência, atribuindo, no mesmo momento, o sinal oposto ao inconsciente. Esta tendência opera em todos os pares de opostos[...]
*[É nítida a conexão, aqui, com as ideias de Krishnamurti — que o meu amigo, parceiro do blog, Lucas Berton, anda estudando.]
Desse modo, também o assim chamado ponto de vista objetivo do observador consciente está, na verdade, dentro do mesmo arquétipo embora situado em um de seus pólos. Não é a mais penetrante revelação do senex negativo aquela vinda de seu próprio filho? Não é a maior crítica objetiva ao puer negativo o seu próprio pai?*
*[Nessa época, Hillman queria proteger o pólo do arquétipo "puer" que entendia permanecer na SOMBRA dos junguianos conservadores. Hillman acreditava que a ascensão do puer na modernidade era um fenômeno espiritual que estava sendo patologizado pelos junguianos clássicos. A seguir cito Hillman comentando essa questão:
"Quando eu ouvi Von Franz atacando o 'Puer Aeternus' em suas palestras nos anos 50 e Esther Harding criticando a inércia a favor do herói matador de dragões de modo tão moralístico e Eric Neumann falando e falando sobre a “Grande Mãe” até você se sentir engolido por tudo aquilo, outras palestrantes agredindo Freud e toda aquela atmosfera de professores elogiando a terra, a tradição e a introversão, eu me senti insultado. Eu era o Puer, eu vim de Atlantic City, New Jersey, onde terra não há mais. Todo este moralismo era ofensivo a uma vida que eu conheci anteriormente na índia, em Paris, Dublin e entre todo o tipo de pessoas extraordinárias."
Para continuar essa investigação vale a pena conferir as críticas que David Tacey lança ao seu colega e amigo (Hillman) por mais de 30 anos. Na revista revisada por pares "Analytical Psychology", Tacey publicou uma crítica de Hillman em duas partes em 2014. Na Parte II dessa crítica, Tacey foca no padrão do puer e na adoção do puer por Hillman.]
Todavia, embora as polaridades possam se dividir em contradições e até lutarem umas contra as outras como em todos os combates clássicos puer-senex, elas podem também ser reaproximadas. Essa reconciliação que visa curar uma divisão fundamental (para a qual a unilateralidade neurótica é apenas uma apelação) é o trabalho principal da análise, e pesquisar a natureza dessas divisões e suas curas foi a principal preocupação de Jung em suas investigações da coniunctio alquímica e da renovação do Rei. Para nós, esta manhã, a tentativa de reconciliação irá pelo caminho de retorno à condição original do arquétipo, antes dele ter sido quebrado em partes e se virado contra si mesmo.
Insisto que não podemos subestimar a importância dessa reconciliação. Isso merece todo esforço, não pelo sucesso ou pela cura que pode trazer, mas porque cada esforço nos faz cônscios da divisão e, desse modo, inicia-se a cura. A divisão em polaridades, mutuamente indiferentes ou repugnantes, lacera a alma em partes. A alma, ela mesma, encontra-se em meio a toda sorte de oposições como o "terceiro fator". Ela tem sempre existido a meio caminho entre o céu e o inferno, o espírito e a carne, o interior e o exterior, o individual e o coletivo – ou, dizendo de outra forma, essas oposições têm estado amalgamadas dentro de suas insondáveis extensões.
Da lira de Heráclito* ao espectro de Jung, a alma sustenta as polaridades em harmonia. Ela é a conexão psíquica. Porém agora, tendo o ego substituído a alma como centro da personalidade consciente, torna-se impossível sustentar a tensão. Com seu racionalismo disjuntivo ele produz divisões onde a alma dá sentimentos de conexão e unidades míticas.
*[Refere-se ao fragmento 48 de Heráclito: "Do arco [biós] o nome é vida [bíos] e a obra é morte." Madeira tensionada de uma lira produz tanto a música quanto, sendo um arco-e-flecha, a morte. Na imagem da madeira tensionada o encontro das polaridades.]
Assim, a alma vem definhando; seu sofrimento e doença refletem a condição dilacerada do arquétipo dividido, condição essa que a alma, por natureza, tem capacidade para re-ligar assim que seja permitido, pelo indivíduo, que ela retorne de seu exílio no inconsciente para seu lugar original como centro das polaridades.
Como um primeiro sinal dessa re-união podemos esperar uma nova experiência de ambivalência. A psicologia confere usualmente à ambivalência um julgamento pejorativo. Ela se encontra associada à esquizofrenia. Assim como o termo ‘estado crepuscular’, a ‘ambivalência’ tende a ser reservada apenas para uma situação de falência do ego. Mas a ambivalência é natural, como uma necessária concomitância para a ambiguidade da totalidade psíquica cuja luz encontra-se em um estado crepuscular. Nem a ambivalência, nem a consciência crepuscular são per se condições patológicas embora, como qualquer coisa psicológica, elas possam estar presentes em formas patológicas.
Estar na ambivalência é estar onde estão o sim e o não, a luz e a escuridão, a ação correta e o erro, estritamente juntos e difíceis de distinguir. A psicologia normalmente tenta ir de encontro a essa condição através da reafirmação da consciência por decisão e diferenciação: solidificação e fortalecimento do ego; opor-se à mistura de sentimentos e à tênue luz indistinta da primeira fase da vida ou da velhice.
Porém, a ambivalência, melhor do que ser superada dessa forma, pode ser desenvolvida dentro de seus próprios princípios. Ela é um caminho em si. Assim como há um caminho de decisão, há também um caminho de ambivalência; e este caminho pode abarcar o arquétipo em sua totalidade, conduzindo-o para baixo até o nível psicóide.
A ambivalência, melhor que ser corrigida, pode ser encorajada através de um movimento de rodear os eternos e profundos paradoxos e símbolos, os quais sempre infundem sentimentos ambivalentes que dificultam a claridade e a assertividade[...]
Para curar, a ambivalência remove o olho com o qual nós podemos perceber o paradoxo. Enquanto postura, a ambivalência nos localiza dentro da realidade simbólica onde percebemos ambas as faces simultaneamente, até existirem como duas realidades simultaneamente. O que não está dividido não precisa ser rejuntado; assim, indo pelo caminho da ambivalência, circunscreve-se os esforços de ‘coniunctio’ do ego porque através da postura ambivalente já se está em ‘coniunctio’ como a tensão dos opostos.
Esse caminho trabalha com a totalidade não pelas metades, mas através da totalidade desde o princípio. O caminho é lento, a ação é dificultada, é um tatear bobamente na meia-luz e no simbólico. O caminho encontra eco em muitas frases conhecidas de Lao Tzu mas, especialmente naquela que diz: ‘suavizar a luz, tornar-se um com o empoeirado mundo.’"
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