O sapateiro e a poeta
*Por Artigas Osores
(Para minha querida poeta e amiga Cristina Diaz)
Eu tinha entre oito e dez anos quando as letras me adotaram para me proteger da pobreza, para me levar a viver em um mundo que, embora eu suspeitasse de antemão que era fantasia, desejava que esse mundo de ingenuidade e alegria fosse verdade.
Na volta da minha casa, em uma garagem escura e úmida, vivia Alfredo "o caolho" Camino, um sapateiro solitário e pobre que gostava de dançar tangos.
Em sua oficina de conserto de sapatos, ele também fazia troca e venda de revistas usadas. Nas vezes em que eu ganhava uns vinténs fazendo favores aos vizinhos, eu os gastava alugando revistas para lê-las ali, sentado no meio-fio da rua Giménez, lendo o que me afastava daquela realidade de casa pobre, roupas gastas e pão escasso.
E nas vezes em que não tinha moeda alguma, eu ia revistar as edições para ver se tinham chegado algumas "novas" que eu ainda não tivesse lido.
Então eu as separava e as colocava debaixo de todo o monte, para que ninguém as encontrasse e eu pudesse alugá-las quando os vizinhos me dessem novamente alguns vinténs por fazer algum favor.
O sapateiro, que enxergava com um olho só, fingia que não via enquanto passava cola ou martelava com paciência a cabeça dos pequenos pregos para consertar a meia-sola de um sapato velho.
Aí ele me mandava com um punhado de moedas para comprar meio quilo de carne para cozido no açougue do Polero, que ficava na esquina.
Quando eu voltava, ele me dizia para escolher duas revistas para ler, como forma de pagamento pelo favor.
Esse foi o começo do meu amor pelas letras, o escape perfeito de uma realidade de miséria que me doía e à qual eu não queria pertencer.
Todos os vizinhos notavam a minha admiração pela leitura e comentavam com a minha mãe, que, sendo semianalfabeta, sorria com orgulho e inocência, talvez imaginando que o meu destino seria diferente do dela.
E em uma tarde de verão, quando fui à casa do meu amigo José Rial para chamá-lo para ver a enchente que já chegava à esquina do Praga, sua mãe, María Paula, disse que tinha um presente para eu dar à minha mãe, mas que só me daria depois que eu lanchasse com a família ao redor da mesa.
Depois de recolher as xícaras, o pão e os doces que acompanharam o café com leite, ela foi até o quarto e, ao voltar, me entregou uma folha e disse que aquele era o presente dela, e que, quando eu chegasse em casa, que lesse para a minha mãe.
Na folha havia um poema autoral dedicado à minha mãe, um poema que reivindicava a terra dos ricos, a farinha da semente do trigo, para exigir em suas estrofes o pão fumegante saído do forno, posto com dignidade na mesa dos pobres.
Se reconheço que foi o sapateiro Alfredo Camino quem me fez encontrar nas letras a minha paixão pela leitura, jamais esquecerei Maria Paula Caminada, a poeta esquecida do meu povoado, que foi quem despertou em mim o amor pela literatura e pela poesia.
Por isso, cada vez que pego um livro nas mãos para ler e fugir de certa forma da realidade, deixando-me levar a um mundo que considero justo, agradeço ao sapateiro pobre que vivia em uma garagem pequena, escura e úmida.
E cada vez que me ponho a escrever com um lápis, no computador ou no celular, com minhas letras tortas e órfãs dos meus relatos simples, lembro-me sempre com carinho da poeta que me ensinou a reivindicar a terra dos ricos, a farinha da semente do trigo e a exigir o pão fumegante recém-saído do forno, posto com dignidade na mesa dos pobres.
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