Murmúrios do Morro Santana
O meu lugar preferido nessas terras inóspitas do sul é uma grande
clareira aberta a partir de uma pedra apontada para o noroeste, de onde se pode
ver o pôr do sol desta imensa bacia d’água que os índios chamam Guaíba.
Para além do grande rio e desta bela vista, que se tornou o meu local
preferido neste morro, posso vislumbrar um imenso verde das copas das árvores
espalhadas por todos os lados.
Depois da lida
diária, contemplo o cair da tarde sentado nesta pedra, acompanhando os diversos
tons dourados e, às vezes, avermelhados que despontam no horizonte e se
refletem no Guaíba.
É divino!
Deus é tão grande e magnífico e esta visão me faz sentir o tamanho de
sua providência. Muitas vezes duvido de sua existência, porque as coisas são
tão difíceis de se crer vendo tanta maldade, injustiça e cobiça neste mundo.
Porém, ao ver um cenário como este, volta-me a certeza.
Então, procuro me
acalmar, porque o silêncio daqui e as distâncias de tudo às vezes parece que
vão me enlouquecer.
O cheiro do capim que sinto neste momento ao escrever estas palavras
lembra-me o de minha terra natal. Uma emoção profunda enche-me o peito.
Tenho dormido algumas noites sob esta pedra porque o nosso acampamento
fica um pouco mais distante, ainda não possui estabelecimentos suficientes e
não convém voltar para lá à noite. Por aqui sempre podemos sofrer algum tipo de
ataque indígena ou de animais silvestres. Hoje faz calor, o que me convida a
dormir observando as estrelas, embora muito se escute em Sorocaba sobre o frio
que faz nestas terras.
À noite, o barulho do vento na copa das árvores lembra o mar. Quem
escuta este som de olhos fechados até pode pensar que está nas cercanias de uma
praia qualquer. Mas não. Por aqui só verde, mato alto e uma quantidade imensa
de árvores.
Há apenas dois meses que chegamos neste grande continente de São Pedro
do Rio Grande do Sul, para onde vim compor as tropas do fidalgo Jerônimo de
Ornelas, um português da ilha da Madeira que recebeu esta sesmaria de Dom Luís
Mascarenhas, um nobre português a serviço del rey nesta colônia ultramar.
Fui recrutado por Jerônimo de Ornelas num encontro de tropeiros em
Guaratinguetá. Afeiçoei-me aos demais peões e negros que a compõe e lancei-me
nesta aventura pela glória da obra de Deus e de Portugal.
Apesar do receio, não me arrependo de ter vindo, porque o advento destas
terras desconhecidas na minha vida também me trouxe de presente ela!
Olhando do alto desta pedra para tal paisagem posso sentir uma força que
não sei bem definir o que é, mas sei que pulsa, que atrai e que promete algo
grandioso.
22 dias de novembro de 1740, Passo do Dornelles.
Nosso acampamento está erguido.
No centro fica a casa grande de Jerônimo de Ornelas, onde ele mora com a
família e os criados mais íntimos.
Suas paredes são de pedra, muito bem encaixadas, cruzadas por grandes
vigas de carvalho retiradas da mata do sopé do morro. O telhado é feito com
folhas trançadas, entrecortadas por capim seco amarrado e costurado pelas
hábeis mãos de Genésio, um dos peões que nos acompanha, que já cumpriu o ofício
de alfaiate em Guaratinguetá e Sorocaba.
A senzala se encontra logo abaixo da casa grande, numa espécie de porão,
embora dois negros durmam agrilhoados no estábulo, junto conosco, para vigiar
os cavalos e as mulas. O estábulo se encontra à direita da casa grande, em
direção à entrada da fazenda.
A casa grande, o acampamento do entorno e o estábulo foram erguidos
pelos 8 negros de posse de Ornelas, dentre os quais está o negro Custódio, a
quem me afeiçoei pessoalmente. Neste esforço espantoso, contamos com o apoio de
mais 7 negros da Estância Grande, cedidos temporariamente pelo seu
proprietário, além da concessão das pedras, madeiras, carroças, cavalos, cordas
e pregos. Nós demoramos cerca de 2 meses para finalizar tudo. Durante estes
dias, por entre o canto dos passarinhos e das cigarras, tornou-se sinfonia
diária o barulho dos serrotes e dos martelos.
Já estabelecemos também uma rocinha, onde plantamos os mantimentos
necessários para a vida em fazenda. Até que floresça, buscamos na Estância
Grande tudo o que precisamos para sobreviver, desde a farinha de mandioca até o
feijão, a carne, a banha, as laranjas e as bananas. Jerônimo de Ornellas
acredita que no final deste ano já estaremos usufruindo de nossa própria lavoura.
Quando a fome é muy grande e a escassez nos desgraça, adentramos a mata
e caçamos aracuã, ave que abunda por estas bandas; ou, então, colhemos butiá,
araçá e ameixas.
Negro Custódio e eu passamos horas conversando e trocando impressões
desta que é uma terra nova e inóspita para nós dois. Posso dizer que é quem me
restou como confessor, tanto quanto as linhas que escrevo nesses papéis velhos
para mim mesmo.
A ele abro quase tudo o que sinto e vejo. E acredito que ele faça o
mesmo comigo.
Negro Custódio não sabe ler, mas já fala muito bem o português. Veio com
a família de Angola, de quem foi separado e revendido a um mercador de
escravos do Recife. Começou trabalhando num Engenho velho, mas como este teve a
desventura de falir, foi revendido pelo seu senhor a um proprietário de terras
das minas gerais para quitar dívidas. Este proprietário, por razões não
conhecidas, provavelmente dívidas, concedeu sua posse a um tropeiro, que o
levou para ser revendido na capitania de São Paulo.
Jerônimo de Ornelas o comprou no mercado de escravos de Guaratinguetá e
o levou para Sorocaba, onde nos conhecemos. Desde lá somos companheiros, mas
foi somente na grande caminhada para o sul que nos tornamos realmente
confidentes e íntimos.
Como não sabe ler e não é cristão, negro Custódio não pode entender
todos os dramas que afligem minha alma, mas é somente com ele que posso
conversar e desabafar sempre que temos um descanso.
O considero confiável. Nada do que lhe digo é repassado aos outros
escravos, nem mesmo ao seu mais próximo companheiro, que é o negro Alípio, seu
companheiro de jornada desde as minas gerais. Quando da nossa chegada nestas
terras, negro Alípio foi trocado por Jerônimo de Ornellas com Francisco
Carvalho da Cunha, o proprietário da Estância Grande, por meia dúzia de cabeças
de gado.
De todas as quase 45 almas que vivem no acampamento de Jerônimo de
Ornelas neste morro, ele é o único que sabe de minha paixão secreta e de como o
desejo arde em meu peito, atormenta a minha alma e retira o meu sono.
17 dias de janeiro de 1741, Passo do Dornelles.
Chegou o inverno!
Por estas bandas faz muito frio!
Nunca vivi um inverno como esse em Sorocaba. Como se passa frio por
aqui, mal dá pra pensar.
No alto deste morro, em meio à mata, tudo fica úmido, cercado por
nuvens, chovendo seguidamente e ventando bastante. Anoitece cedo, fazendo o dia
mais curto. Por esta razão, tenho visitado pouco a grande pedra com vista para
o Guaíba. Ultimamente só o vejo entre o cumprimento de uma atividade ou outra,
quando vou pitar com negro Custódio. Daqui da fazenda a vista do rio é parcial
porque está eclipsada por outros morros.
Não me adaptei bem a este frio. É torturante e penetra profundamente nos
ossos. O chiar do vento nos dias de tempestade é apavorante.
Fiquei muito tempo sem escrever aqui porque me faltava tinta e papel.
Estas impressões ficaram entaladas na minha garganta e martelando na minha
cabeça.
Só consegui tinta, tinteiro e papel quando negro Custódio e eu
finalmente conseguimos a autorização de Jerônimo de Ornelas pra ir pelo caminho
dos escravos, em meio à mata fechada, até a Estância Grande, de Francisco
Carvalho da Cunha, que está contruíndo um pequeno vilarejo nas suas terras e
erguendo uma capela para Nossa Senhora da Conceição.
Tivemos a bênção de ver suas primeiras pedras serem colocadas e ajudar a
carregá-las das carroças até o terreno.
Além da tinta preta e papel, conseguimos tabaco, um pouquinho de cachaça
e uma bugrinha, com quem me distraí um pouco do serviço pesado da fazenda e,
principalmente, esquecer um pouco de Rita. Negro Custódio também se engraçou
com uma negra que trabalha para Francisco Carvalho.
Nestes dias de inverno anoitece cedo e infelizmente é preciso retomar o
caminho de volta para a fazenda o quanto antes.
6 dias de junho de 1741, Passo do Dornelles.
Hoje eu a vi, finalmente!
Depois de muitas semanas sem sequer chegar perto dela e sentir o seu
perfume. Que grande alegria e convulsão ela causa na minha vida!
Com a desculpa de servir o seu irmão José Raimundo com um naco de carne,
cheguei discretamente tão próximo de seu alvo pescoço que pude sentir o cheiro
bom de fêmea. Sei que ela estremeceu também.
Eu senti! Eu pude ver!
Sou correspondido e negro Custódio também acha que sim. Ele reparou nos
olhares. O próprio Jerônimo de Ornelas percebeu alguma coisa e franzia o cenho
sempre que chegava próximo a ela. Tomava um ar taciturno, bebia um gole de
vinho, que é servido somente para a sua família, resmungava algo no ouvido da
mulher e depois voltava a mastigar a carne fumegante que estava no seu prato.
De tempos em tempos, quando o sol brilha e se forma um esplendoroso céu
azul sob as copas das árvores, Jerônimo e a esposa, Lucrécia Lemes Barbosa,
mandam os negros colocarem a mesa na rua para o almoço.
Se monta uma mesa e é servido feijoada e churrasco. Os próprios negros
são autorizados a se achegarem um pouquinho mais para lagartear ao sol, como
dizem por aqui. Os peões, como eu e Genésio, também se aprochegam.
Mesmo as filhas são autorizadas a sair da casa grande e a sentar junto
aos pais. Nesse momento posso contemplar Rita, a minha Rita, com quem sonho
desde a partida de Sorocaba!
Hoje ela estava usando um vestido de renda, bem simples, mas que deixava
aparecer um de seus ombros, por onde escorria uma de suas madeixas
encaracoladas. Estava sentada entre a irmã, Antônia, e a mãe.
Eu a olhei com um desejo tão ardente que mal pude disfarçar. Meu sexo
ficou latejante e o coração palpitando em descompasso.
Certamente Rita reparou os meus olhares indiscretos, que ardiam em
brasa. Não conseguia me conter. Quanto mais a olhava, mais ela remexia os
ombros, para que o vestido descesse um pouco mais. Sentia ímpetos de levantar e
ir até ela, mas não tive oportunidade, nem coragem.
A mãe, de forma discreta, falou-lhe algo ao pé do ouvido. Então, Rita
baixava os olhos, mas assim que dona Lucrécia afrouxava a vigilância, voltava a
se exibir graciosamente, como que querendo ser notada.
Negro Custódio se ajuntou ao meu lado e falou que alguns peões e as
escravas estavam percebendo a ousadia dos nossos olhares, principalmente a sua
mucama. Isso inflamou ainda mais o meu desejo.
Muitas vezes pensei em pedir minhas contas e abandonar a fazenda de
Jerônimo de Ornelas, porque sinto que este isolamento em cima de um morro
inóspito não é vida pra mim, que gosto da pulsação urbana, dos bailes noturnos,
com suas poesias, alegrias e tristezas. Aqui a vida é dura e o desprezo dos
fidalgos, grande. Gostaria, talvez, de tentar a sorte em São Paulo, nas minas
gerais ou no Rio de Janeiro, conviver com pessoas que conheci nos círculos
literários que frequentei em Sorocaba, ou, na pior das hipóteses, me
estabelecer como comerciante. Mas os olhares de Rita, como o deste dia
inesquecível, me prendem aqui com grilhões de ferro fincados na terra e não
consigo dar um passo sequer para longe dela.
Sei que ela me quer, como eu a quero.
Isso é uma questão de tempo, como é questão de tempo o Sol e a Lua se
encontrarem em um eclipse.
10 dias de setembro de 1741, Passo do Dornelles.
Às vezes os dias demoram a passar nesta fazenda isolada do mundo.
Fico horas e dias ouvindo o vento, esperando a chuva ou o sol, escutando
e contando causos junto aos escravos e peões; ou, então, aguardando a chegada
de novas tropas que vem das bandas de São Paulo com boas novas ou com algum
carregamento. Por vezes, ficamos com receio de sofrer algum tipo de ataque de
índios ou de bandoleiros castelhanos. As notícias sobre isso se espalham em
cada contato com tropeiros e peões de outras estâncias.
Aprendi a apreciar o mate, que é um produto nativo desta região e
produzido por quase todos os estancieiros daqui e do lado castelhano também.
Sempre que voltamos da Estância Grande, trazemos muitos sacos de erva mate que
são estocados no depósito da casa grande.
Inicialmente estranhei, mas parece que o gosto amargo com a água quente
vai nos adaptando à amargura da vida e fazendo ela ficar mais branda.
De fronte ao estábulo, costumo matear e prosear com os companheiros ou
mesmo sozinho, na minha pedra solitária, lá para cima, de onde posso vistoriar
o Guaíba. Ganhei uma cuia muy linda de um tropeiro que estava de passagem pela
Estância Grande e fiz uma bomba com uma ponta de taquara. Parece haver uma
força que faz o tempo se tornar mais tolerável quando estamos mateando.
Porém, o mais triste disso tudo é que passo muitos dias sem poder vê-la
porque ela não sai de casa. Como Jerônimo de Ornelas e sua família me consideram
gente sem linhagem e valor, só posso ver Rita quando algum motivo a tira de
dentro da casa grande. O sentimento de possuir muita fazenda cria, comumente,
nos homens ricos e poderosos, desprezo pela gente mais pobre; e, por isso, às
vezes, Deus manda algo ruim para que parem de crescer em soberba. Não desejo
isso a Ornelas, embora muitas vezes ele me olhe com inegável desprezo que chego
a desejar-lhe o mal.
Isto tudo aflige e tortura a minha alma e a minha carne.
A verdade é que sinto falta de mulher e sequer posso chegar perto de
Rita. Em Sorocaba era mais simples conseguir satisfazer estas necessidades.
Aqui a restrição é extrema, a não ser as poucas escravas, que totalizam
5, com as quais não possuo grande afinidade e desejo. Mesmo que sentisse, não
poderia deixar de arranjar problemas com o negro Custódio, de quem prezo a
confiança, e o próprio Jerônimo de Ornellas, que provavelmente também faz suas
estripulias.
Passo do Dornelles, 23 de outubro de 1741.
Ó morro da grande Lua
Ó morro do grande Sol
Ó morro de grandes belezas
Onde se dão incontáveis encontros da natureza
Quisera eu pudesse cantar-te em versos para o mundo
Tuas belezas não são fáceis, nem banais
Mas todas elas tocam-me o fundo da alma
Há uma violência subjacente na força dos teus ventos
e uma rudeza pujante na tua vegetação
Tuas dimensões gigantes lembra-nos como somos pequenos e passageiros
n’esta terra
e através destas infinitas nuvens alvas a providência divina berra
Este majestoso espelho d’água reflete o teu passado, teu presente e o
teu futuro
Desenterrando o obscuro percurso da seiva da vida por debaixo de tuas
terras e pedras
É este o caminho por onde transparece em forma de erupção ctônica o
glorioso destino que o Criador te reservou
Serás fortaleza, baluarte e meio da Sua grande obra
Amém!
11 dias de dezembro de 1742, Passo do Dornelles.
Ontem de madrugada sofremos um terrível ataque indígena!
O dia tinha sido de trabalho pesado porque fomos obrigados a descer duas
vezes até a Estância Grande pelo caminho dos escravos para buscar mantimentos
permutados com Francisco Carvalho da Cunha. Subir e descer duas vezes é muito
cansativo. Tenho a certeza de que ouvi o crepitar de alguém nos seguindo e, por
Deus, senti uma intuição de que estávamos sendo observados. Negro Custódio
desconfiou e também notou algo estranho.
Chegamos, descarregamos as encomendas e ficamos pitando, mateando e
proseando no estábulo até altas horas da madrugada.
Quando todos da fazenda já dormiam profundamente e os grilos cantavam,
só eu e negro Custódio ainda pitávamos sossegados na entrada do estábulo.
Parecia que seria mais uma noite tranquila e silenciosa como todas as outras.
Não sabemos exatamente em que altura da noite duas flechas de fogo
atingiram a parede do estábulo e um grupo de índios invadiu a estância,
gritando, fazendo sons apavorantes, quebrando cercas, portas, janelas e ateando
fogo em tudo que pudessem. Talvez uns quinze ou vinte.
Nem tivemos tempo de tocar o sino de emergência que fica próximo da
entrada da casa grande, porque dois índios atiraram flechas num dos escravos
que estava agrilhoado no estábulo e outro o desgraçou com uma lança. A gritaria
final deste negro serviu de alerta para toda a estância. Genésio também foi
atingido no braço e na perna e não resistiu aos ferimentos. Saíram da casa
grande José Raimundo e o genro de Jerônimo de Ornelas em roupas de dormir com
armas em riste.
Eu fui buscar o facão nas minhas trouxas. Nesse meio tempo ouvi dois
disparos. Quando cheguei tinham acertado dois índios, sendo que um deles já
estava morto, mas o outro ainda agonizava porque o tinham atingido de raspão na
cabeça, onde podíamos vislumbrar um talho. Os demais índios tinham fugido.
Negro Custódio estava caído atrás da porteira do estábulo, agarrado ao seu
grilhão. Não teve tempo nem de pensar. Um escravo e um peão foram mortos.
José Raimundo terminou o serviço com uma espada e justiçou o índio
agonizante sob os olhos da peonada e dos escravos, enquanto outros tentavam
apagar o princípio de fogo do estábulo e na parte baixa do telhado da casa
grande. Toda a estância ficou receosa de que um novo ataque pudesse ocorrer
depois desse dia, ao ponto de Jerônimo de Ornelas ordenar uma guarda noturna
permanente revezada entre peões e escravos.
Quando o sol já
raiava, enterramos os cinco cadáveres em uma vala comum a uns 90 passos ao sul
da estância de Ornelas. Na volta nos deparamos com Jerônimo e José Raimundo
conversando e fazendo planos de aumentar a vigilância e a defesa da estância.
José Raimundo disse
para o pai, embora com a intenção de que todos os peões e escravos ouvissem:
“essa bugrada é pior do que os castelhanos, não tem conversa. Só no facão para
resolver”. O pai, então, respondeu: “não, meu filho, com esse povinho não vale
nem sujar o facão”. Depois acrescentou que sabia da existência de uma aldeia
nas proximidades da estância, e que não permitiria um bando de bugres violentos
e vadios nas suas terras. Juntaria forças com Francisco Carvalho da
Cunha.
Ao final deste diálogo, ambos me olharam de cima a baixo com um
inescapável olhar de desdém.
Negro Custódio também
percebeu.
O sangue me ferveu e
tive um impulso de responder, desejando que os índios tivessem transformado
toda essa estância em cinzas, mas me contive.
7 dias de janeiro de
1742, Passo do Dornelles.
Eu não conheci minha
mãe. Esta dor eu carrego como uma mancha em minhas memórias. Ela morreu quando
eu ia completar 3 anos. Dizem que ela era uma índia que foi levada por meu pai
destas terras como escrava e que não se adaptou ao clima europeu. Não guardo
nenhuma imagem do seu rosto, apenas lembro-me do calor do seu colo, do aroma do
seu beijo e da leveza do seu toque. Talvez seja verdade, já que minha pele não
é branca; e não ser branco nesta colônia é um verdadeiro infortúnio.
Cresci nas cercanias
da vila de Braga, em Portugal, e fui criado por uma tia, uma vez que meu pai e
meu tio passavam a maior parte do tempo viajando por Portugal e Espanha,
descarregando navios que chegavam das colônias e indo levar de carroça
encomendas para as mais distintas regiões. Minha tia não me dava muita atenção
porque tinha seus próprios filhos, mas me ensinou a ler e a escrever. Ela
também me introduziu no maravilhoso mundo da poesia portuguesa.
Com o meu pai foi tudo diferente. Nunca tive uma boa relação com ele,
que para mim foi sempre um estranho.
Certo dia ele chegou em casa de uma de suas longas viagens e disse para
eu arrumar os trapos, pois iríamos juntos para o Brasil, do outro lado do
oceano. Eu tinha, então, 16 anos. Fiquei profundamente espantado, sentindo um
misto de comoção e felicidade.
Quando desembarcamos,
depois de 3 semanas de viagem, sem eu saber, ele me inscreveu como voluntário
em uma tropa que se deslocaria para a região das minas.
Depois disso nunca
mais o vi. Não o perdoo e jamais o perdoarei por ter se desfeito de mim como se
fosse uma sobrecarga qualquer. Tudo o que aprendi nestas terras, para o bem e
para o mal, foi por minha conta e risco. Ele me faz perder a esperança na
espécie humana.
18 dias de fevereiro de 1742, Passo do Dornelles.
No início deste mês o
tropeiro lagunense Manuel Gonçalves de Aguiar chegou à estância de Ornelas
acompanhado de cerca de 56 almas, entre parentes, peões, escravos, e um pequeno
grupo de ciganos. Sua tropa foi guiada até aqui pelo preto Alípio, escravo da
Estância Grande.
A ideia inicial de Manuel de Aguiar era permanecer apenas um mês e
seguir viagem para a Colônia do Sacramento quando o tempo ruim desse uma
trégua.
Antes da sua chegada
foram duas longas semanas de frio e chuva sem parar. As estradas estavam todas
enlameadas e os rios transbordando dos leitos. Um problema para quem precisa
cumprir um trajeto muito distante liderando uma tropa de mulas, cavalos e
homens, além de um carregamento de mercadorias e víveres que precisa ser
cuidadosamente zelado.
A chegada foi
celebrada por todos, mas especialmente por mim, como uma grande festa, porque
quebrou a monotonia de meses de silêncio e, também, porque permitiu-me rever
Rita, que foi convidada a sair diversas vezes para saudar os forasteiros.
Infelizmente eles
passaram apenas 21 dias conosco, porque alguns tropeiros de Manuel de Aguiar
lhe aconselharam a seguir viagem para aproveitar o bom tempo que se abrira após
o vigésimo dia, com medo de que algumas mercadorias se perdessem
definitivamente. Durante o tempo que ficaram, eles construíram grandes barracas
dentro e fora da estância e também edificaram um pequeno estábulo para os seus
cavalos e mulas. Tivemos os estoques reabastecidos, principalmente de tabaco,
vinho e aguardente; e tudo de que dispúnhamos em abundância, como frutas,
verduras, couro, carne, leite e gordura, reabastecemos as tropas de
Manuel.
Foi nesta ocasião das trocas de estoques que conheci João dos Anjos, um
ex-seminarista lisboeta que desistiu de se tornar padre para se aventurar nas
terras desconhecidas do Brasil. Ele se ajuntou às tropas de Manuel de Aguiar em
Guaratinguetá. João também me abasteceu com generosa quantidade de papel de boa
qualidade para seguir escrevendo e um tinteiro de nem tão boa qualidade assim,
mas que veio em boa hora.
João dos Anjos tinha
uma espantosa erudição e pudemos conversar muitos dias sobre Camões e outros
poetas da velha terrinha. Ele também me colocou a par da situação do restante
da colônia, principalmente São Paulo e as minas, além de me apresentar aos
ciganos que acompanham as tropas de Manuel. Estes montaram uma tenda um pouco
mais afastada da estância, quase adentrando a mata fechada do entorno sul.
À noite tocam violão,
dançam e montam uma mesa com velas, toalhas de seda e incenso, momento no qual
se dedicam a jogar tarô e a ler o destino das pessoas nos traços de suas mãos.
João não acredita nessa capacidade. Ele é cético e ateu. Leu bastante os
filósofos europeus, de quem me expôs algumas doutrinas nas noites que passamos
acordados em torno do fogo, sob um céu já limpo e estrelado, embora muy frio.
Eu, apesar de algumas ressalvas céticas, acredito na Providência…
14 dias de junho de
1742, Passo do Dornelles.
No dia 24 de junho,
dia de São João, Jerônimo de Ornelas e Manuel Aguiar decidiram organizar uma
grande festa em homenagem ao Santo para a integração dos seus familiares e
agregados. Para o meu desespero, o intento inicial era arranjar casamento entre
Rita e o filho de Manuel Aguiar, Maurício, alcunhado de “o degolador de
bugres”.
Felizmente, por
alguma razão obscura que não consegui compreender, a tentativa de casamento não
prosperou. Não sei qual foi a desculpa dada por Rita, mas só pode ter sido por
minha causa. Durante a conversa deles, que ocorreu no começo da grande festa, ela
ficava o tempo todo baixando os olhos e, de tempos em tempos, levantava-os para
me procurar.
Apesar desta terrível
ameaça, que atormentou meu coração durante aquela noite, a festa foi
inesquecível, iniciando-se quando os primeiros tons avermelhados do crepúsculo
surgiram no horizonte, entremeados pelas grandes árvores que despontam da parte
oeste da fazenda de Jerônimo de Ornelas. Fazia frio. Acendemos uma grande
fogueira para São João bem no centro da estância, o que ajudou no aquecimento
dos convivas.
Todos se embelezaram
para o baile noturno. Até mesmo os escravos foram adornados com faixas
coloridas, perucas e alguns chegaram até mesmo a ser pintados pelos ciganos.
Lhes foram cedidas camisões antigos e botas de couro cru.
Os ciganos estavam
vestidos com roupas magníficas, reluzentes, que nunca tinha visto em toda minha
vida. As mulheres com os seus seios fartos, espremidos pelos vestidos
avermelhados com belas rendas azuis; os homens com chapéus e lenços, dançavam
animados e cantavam com seus violões canções castelhanas.
Mas ninguém estava
mais bela do que Rita. Ela usava um vestido cigano, certamente emprestado por
uma das convivas, e tinha o cabelo preso no alto da cabeça, de onde despontavam
pequenos cachos trançados de fios descendo pelos ombros. Lucrécia e Jerônimo de
Ornelas certamente desaprovavam a sua roupa, embora tivessem se calado para não
desagradar Manuel de Aguiar e seus tropeiros.
No meio da animação
da festa, enquanto os ciganos cantavam e tocavam violão, Jerônimo de Ornelas,
sentado à mesa central, conversava ao pé do ouvido com Manuel de Aguiar e ambos
bebiam vinho, alegremente. Eles esperavam pelo churrasco que estava sendo
assado bem próximo da casa grande. Pude, então, me aproximar de Rita, sorrir um
sorriso demorado, e lhe entregar um bilhete em um pedacinho de papel.
Ela se assustou com o
encontro de minha mão. Seus olhos se levantaram para procurar os pais. Eu a
tranquilizei, dizendo para ler o bilhete no silêncio da madrugada e na
segurança de seu quarto. Ela rapidamente escondeu a mensagem por dentro do
decote do vestido sem que ninguém o visse. Neste breve instante pude ter
certeza que ela não contrairia núpcias com o filho de Manuel de Aguiar.
O bilhete dizia que,
se ela me permitisse, iria levá-la para conhecer a Ilha dos Amores.
Esta ilha é citada nos cantos IX e X d’os Lusíadas, de Camões, o único
livro que consegui trazer comigo para cá.
Não sei qual foi a
reação dela ao ler sozinha o bilhete, mas quando o pegou, ficou profundamente
rubra e não conseguiu reprimir um tímido sorriso no canto dos lábios.
Este fato gerou uma
alegria indescritível em meu coração. Todo o meu corpo entrou em transe.
Como Jerônimo de
Ornelas estava levemente feliz e embriagado, rindo alto e conversando com
Manuel de Aguiar, que também se encontrava em estado de graça, ambos ficaram
presos numa conversa que durou horas a fio. Lucrécia ficava dividida numa
conversa entre o filho de Manuel de Aguiar, algumas ordens dadas às escravas,
que iam e vinham trazendo bandejas de madeira e pratos, e na procura obsessiva
de Rita por entre os convivas.
Para minha sorte e
alegria, uma roda se formou próximo ao fogo, em torno do qual alguns ciganos
tocavam violão e batiam castanholas. Nela estava Rita, conversando com a irmã e
uma cigana. Pude aproximar-me novamente e tocá-la levemente nos braços.
A este leve toque
senti a minha pele arrepiar. Pude constatar que a dela também.
Ela disfarçou, mantendo o olhar fixo na conversa com a cigana, que
reparou o que acontecia entre nós. Antes de poder dirigir a palavra à Rita, a
cigana puxou-me pela mão e perguntou se eu queria ler o meu futuro. Um pouco
constrangido, disse que sim.
Então, ela me colocou
sentado numa mesa mais distante das rodas de conversas, onde estava sua cabana
improvisada na carroça. Perguntou: “queres saber sobre a prosperidade ou o
amor?”.
“Sobre o amor”,
respondi, ficando eufórico.
Por um tempo que para
mim durou uma eternidade, ela embaralhou as cartas, bebeu um gole de vinho do
chifre que estava escorado em cima da mesa e queimou dois pedacinhos de madeira
numa vela que ardia em cima de um pequeno prato de porcelana. Pediu que eu
separasse o baralho de cartas em três partes. Depois, deveria selecionar apenas
três cartas de cada um dos volumes. Fiz o que me pediu e as entreguei de volta.
A cigana, então, colocou as três cartas sobre a mesa viradas para mim.
Seu semblante tornou-se sombrio e as suas sobrancelhas arquearam.
A maneira firme e
assombrada com que falou ficaram gravadas em minha memória: “morte, 3 de paus e
5 de pentáculos. Vossa mercê viverá e morrerá no amor”.
Bem neste momento
procurei Rita na roda ao lado. Ela evitava me olhar. Não que eu seja místico ou
nigromante, mas senti um calafrio nada auspicioso percorrer o meu corpo.
1º dia de julho de 1742, Passo do Dornelles.
Antes da tropa de Manuel de Aguiar partir, pude conversar longamente com
João dos Anjos.
Que grande vivência possui este homem!
Ah se eu tivesse podido conhecer as cidades da Europa, ler os livros que
ele leu e vivenciar o que ele vivenciou, quão diferente seria eu?
João percebeu logo cedo que a sua vocação não era a batina, mas as
aventuras. Como ele se aborrecia com a vida monástica! Não aguentou esconder os
crimes e abusos dos seus superiores e, contrariando a vontade paterna, em um
impulso incontrolável, simplesmente decidiu fugir do monastério português e
viajar pela Europa. Depois de muito perambular pelos reinos europeus,
participar de saraus, festas e orgias, João regressou à península Ibérica.
Lá conheceu muitos
conterrâneos que eram sobreviventes da guerra pelas minas brasileiras. Eles
haviam retornado a Portugal e lhe falado das riquezas e belezas vistas por
aqui. Então, querendo enricar e acabar com a sua vida errante de penúrias, ele
juntou o que ainda tinha nas suas economias e se alistou como marinheiro das
naus que estava prestes a zarpar.
Antes de chegar à São
Luís, onde pretendia desembarcar e desertar para poder perambular livremente
pela colônia ao sabor do acaso, tal como sabe magistralmente fazer, a nau de
João naufragou a cerca de 38 léguas do destino final, na região sinistra
conhecida como cemitério de navios, formado por um banco de corais extenso que
se localiza na costa da capitania maranhense. Mais da metade da tripulação
morreu. Ele conseguiu se salvar agarrando-se a um barril, que o trouxe até a
costa.
Sem saber ao certo
quanto tempo ficou à deriva no mar, João foi levado pela correnteza até uma
praia paradisíaca. Mal podendo se manter em pé, descansava na praia quando uma
tribo indígena, os temíveis Aimorés, o capturou e o levou para a sua aldeia.
Lá, foi feito de escravo durante um período a perder de conta, até que outra
tribo, segundo ele, inimiga dos Aimorés e aliada dos portugueses, atacou a
aldeia onde estava.
Correndo grande perigo, João conseguiu escapar com vida, mas na luta
pela sobrevivência teve que deixar tudo e saiu completamente nu, se arrastando
pelo chão e por debaixo da vegetação, enquanto as chamas devoravam e consumiam
as ocas, ia feito cobra, testemunhando muitos feridos agonizantes em suas dores
finais, entre indígenas e patrícios portugueses.
Embrenhou-se na mata
e caminhou por longos dias a perder de conta, comendo frutos silvestres,
bebendo água dos rios e das chuvas, chegando, finalmente, à Olinda, onde contou
sua estória e foi acolhido pela paróquia da Nossa Senhora do Amparo. Lá lhe
deram comida, pouso e roupas novas. Ali, conheceu um missionário jesuíta que
lhe expôs a semelhança entre sua estória e a de um tal castelhano de nome
engraçado, Álvaro Cabeça de Vaca. Este foi um nobre espanhol que também
naufragou, só que em terras da América do Norte, e, da mesma forma, acabou
escravizado por indígenas. Para sair dessa terrível condição, escapou durante a
madrugada e andou milhas e milhas até atingir o México.
Apesar dessas experiências ruins, ao contrário de João dos Anjos, o tal
Cabeça de Vaca não perdeu a sensatez e a compaixão. Declarava-se como um
defensor intransigente dos nativos e deu-se como tarefa ensinar a Europa a
conquistá-los pela bondade e não pela matança. Parece que havia entendido a
mensagem de Cristo mais do que a própria santa madre Igreja Católica. Propõe o
exato oposto do que faz Jerônimo de Ornelas e os seus pares por estas
bandas.
Após alguns meses vivendo em Olinda, prestando serviços religiosos e
interpretando um papel de bom cristão, para o qual seus anos de seminaristas
lhe valeram muito, João dos Anjos conheceu um tropeiro que seguiria até as
minas gerais. Foi nesse momento que, novamente na calada da noite, integrou as
tropas desse homem e se deslocou até São João del Rei.
Nesta vila acabou se envolvendo com a mulher de um grande comerciante e
foi jurado de morte. Durante este episódio conheceu um grupo de ciganos que
estavam se deslocando para o sul, mais precisamente até Guaratinguetá. Integrou
o grupo deles se disfarçando de cigano, embora em seu íntimo, como me
confessou, os menosprezasse. Nesta nova localidade conheceram Manuel de Aguiar,
por quem foram recrutados para uma viagem até Laguna e para quem prestam
serviços desde então.
João tem uma visão
peculiar sobre o amor. Não o compreende como a Santa Igreja e os padres.
Para ele, a maneira católica de lidar com o amor é o mesmo que
destruí-lo, dado que opõe os prazeres da carne à santidade e pureza da relação
entre homem e mulher. Esta foi uma das razões que o levou a abandonar o seminário.
Me relatou que
durante suas viagens pela Europa conheceu um padre devasso, que o introduziu em
alguns círculos devassos que praticavam orgias. Após algumas estripulias, os
seus superiores descobriram-lhes as aventuras sexuais e lhes aplicaram pesados
castigos para evitar que o escândalo se espalhasse, dado que envolvia muitas
moças e mulheres de famílias nobres; umas por opção, outras por ingenuidade.
Parece que foi nesta ocasião que João dos Anjos achou melhor abandonar a vida
eclesiástica e viajar para a América.
Esbravejando contra o
alto clero europeu, denunciando-lhes como mais devassos e permissivos que o
padre que lhe introduziu nas orgias e na libertinagem, João desenvolveu sua
filosofia sobre o amor, que muito me agradou. Para ele, o prazer tem uma função
importante, pois além de aprofundar a conexão carnal entre as almas, ajuda a
desenvolver a sobriedade da mente. A repressão do desejo e do sexo só pode
bloquear o desenvolvimento intelectual.
Segundo João, é
loucura acreditar que Deus nos fez nascer somente para fazermos o que é
antinatural. Ele me deu um exemplo singelo: se quisermos nos tornar um cristão
perfeito seria preciso acreditar cegamente, renunciar a todos prazeres, às
honras, às riquezas e guardar a virgindade. Ou seja, fazer tudo o contrário do
que a natureza nos dotou.
É por isso que,
segundo ele, muitos integrantes do alto clero pregam a abstinência sexual, mas
vivem a devassidão em segredo, inclusive com servas ou com ameaças de morte ou
do inferno para donzelas que denunciarem tais práticas libertinas. Nos círculos
de Sorocaba que frequentei, ouvi estórias semelhantes, tanto na Europa quanto
em Terrae Brasilis.
Que abusos se realizam com as coisas mais respeitáveis da sociedade!
Ainda que simpatize com o pensamento de João, vivendo no meio do mato
mais selvagem que pude conhecer, desenvolvo dúvidas sobre a sua filosofia, dado
que o lado primitivo incentivado pela busca incessante do prazer pode nos
desencaminhar, caindo na luxúria desgovernada. Daí as admoestações da Santa
Igreja Católica e das outras religiões, as quais me pesam como chumbo.
Frente a esta
objeção, João argumentou que as religiões devem nos aproximar da natureza, não
criar barreiras que a ignorem. O sexo, a luxúria e a força bruta fazem parte da
natureza. Não devem ser desprovidas de certos limites, como os sacrifícios e
esquartejamentos das religiões pagãs antigas, mas também não podem cair no
ascetismo extremo que propõem os padres, dado que é impraticável até mesmo por
eles.
João dos Anjos pensa
que se o homem fosse realmente livre seria preciso supor que ele se
determinasse por si mesmo, mas ele é, como sabemos, condicionado pelos graus de
paixão através dos quais a natureza e as sensações o afetam. Portanto, ele não
é livre. Um grau de desejo mais ou menos forte o decide de forma tão invencível
quanto o Sol nasce depois da noite. Supor que o homem é livre e que tem a
capacidade de se determinar por conta própria é o mesmo que igualá-lo a Deus.
No final da festa de
São João, depois de muito debatermos sobre a natureza humana e divina, João dos
Anjos levantou-se da fogueira em que nos encontrávamos e foi prosear com uma
cigana. Reparei, então, que ele usava um brinco dourado na orelha direita,
provavelmente alguma influência cigana; e tinha a orelha esquerda cortada quase
pela metade. Ao passo de alguns instantes de uma prosa ao pé do ouvido dela, os
dois foram para a sua cabana. A cena agitou meu espírito e um fogo interior me
devorou.
Meu olhar procurou Rita, que já havia se retirado.
8 dias de julho de
1742, Passo do Dornelles.
O amor existe e
inebria, tal qual um perfume das flores que desabrocham na primavera, trazendo
viço ao mato verde!
No dia da partida das tropas de Manuel de Aguiar aconteceu o que eu
tanto esperava: recebi um bilhete de Rita, entregue por negro Custódio, que fez
uma longa cerimônia para mo repassá-lo a pedido de sua sinhá.
Neste bilhete, com indescritível alegria, pude ler o que segue:
“L., me encontre daqui a 4 noites, quando a madrugada estiver alta, no
início da trilha dos escravos, R.”
Meu coração explodiu e o sangue latejou em minhas veias!
Foi como se o cupido me alvejasse bem no centro do coração.
Fiquei sabendo por negro Custódio que dali a 4 dias Jerônimo de Ornelas
desceria à Estância Grande com José Raimundo e alguns peões para tratar de
negócios e lá passariam a noite.
10 dias de julho de
1742, Passo do Dornelles.
***
O morro e a Casa Branca
A criada negra
estendeu a mão para pegar o freio do cavalo de seu patrão, Apolinário Porto
Alegre, que retornava do centro da cidade com um convidado estrangeiro que
tinha na mais alta conta.
Eles acabavam de subir
a estrada que levava à Casa Branca, construção antiga que ficava no sopé do
Morro Santana. Em estilo colonial açoriano e formato quadrangular, com uma base
talhada em pedra, a construção de madeira do início do século XIX já tinha
servido de quartel general aos farrapos durante o cerco a Porto Alegre.
Em 1836, transformou-se em hospital Farroupilha e chegou a ser
frequentada por Bento Gonçalves e Giuseppe Garibaldi, de onde, reza a lenda,
teriam planejado a invasão de Laguna. Joaquim Estácio Borges de Bittencourt do
Canto e Maria Altina Azambuja Cidade, esta última prima de Bento Gonçalves,
ambos bisnetos de Jerônimo de Ornelas, foram provavelmente seus primeiros
proprietários.
Apolinário Porto Alegre adquiriu a casa em 1885 e fez dela um centro de
cultura e história. Raramente recebia convidados, mas este que acabara de
chegar à capital do Rio Grande do Sul era um caso especial, ao qual ele fazia
absoluta questão.
Nos fundos da Casa Branca, Apolinário criou o que deve ter sido o
primeiro orquidário da cidade: um pequeno jardim botânico com 2 mil espécies de
plantas. Num dos quartos do casarão montou uma biblioteca riquíssima e um
pequeno escritório, de onde escrevia cartas e textos aos jornais da época,
defendendo suas ideias republicanas e abolicionistas, além de romances, contos
e crônicas.
O convidado que acompanhava Apolinário era o jornalista e escritor
norte-americano, Ambrose Bierce, que vinha visitá-lo pela segunda vez. Ambos
chegavam cansados da longa jornada que os trazia da vila histórica de Porto
Alegre, após cavalgarem aproximadamente 1h. O cenário entre a vila e a Casa
Branca era de uma longa estrada de terra, repleta de mata por todos os lados,
ora aberta, ora fechada, entrecruzadas por sangas e riachos. Quando se
aproximava do Morro Santana, a estrada se estreitava entre pedras e ribanceiras
para dar início a uma subida bastante íngreme, local onde se encontrava a
taberna de Paulino José dos Santos, um dos raros moradores da região e amigo
pessoal de Apolinário, que, em função de sua localização, sempre recebia
escassos fregueses, porém, inequivocamente fiéis.
Contudo, a construção mais próxima da Casa Branca era uma antiga Atafona
abandonada e semidestruída, que se encontrava mais adentro da mata, já no
princípio da trilha de subida do Morro Santana. Ela fora habitada lá pelos idos
de 1860 por um agricultor, sua família e alguns escravos, que a edificaram para
produzir e comercializar farinha de mandioca. Em momentos de solitude,
Apolinário caminhava a pé até ela e lá passava horas, pitando e meditando.
Naquele dia em que chegou com Bierce fazia muito calor e as cigarras
cantavam estridentemente. Podia-se perceber à distância a poça de suor que se
formava na camiseta dos dois homens e nas suas têmporas lustrosas.
Assim que a criada negra segurou os freios dos cavalos, a sua filha mais
velha se aproximou trazendo uma bandeja com uma jarra de água fresca e dois
copos. Os homens apearam dos cavalos, mal cumprimentaram a criadagem, pegaram
os copos e beberam com avidez.
Estamos nos idos de 1896.
O Rio Grande do Sul está dilacerado após o término da guerra fratricida entre
chimangos e maragatos.
Ambrose Bierce vinha de Buenos Aires — onde era correspondente do jornal
norte-americano Tribune, depois de uma breve escala em Montevidéu —
justamente para cobrir o desfecho desta penosa guerra civil. Temia-se nas
esferas oficiais e diplomáticas que o Rio Grande do Sul pudesse se separar do
Brasil e conformar um novo país com o Uruguai, o que mudaria novamente a
geopolítica da região.
Na sua primeira vinda à Porto Alegre, em 1893, Bierce entrevistara
pessoalmente Júlio de Castilhos e Silveira Martins, dois caudilhos expoentes
dos pólos opostos da crise política que flagelava a província mais ao Sul do
Brasil. Nesta ocasião, teve contato com diversos intelectuais de Porto Alegre e
do Rio Grande do Sul, quando afeiçoou-se pessoalmente a Apolinário. Desde lá
ficaram amigos e trocaram frequentes correspondências.
Como Apolinário era um crítico do regime vigente, Júlio de Castilhos
estabelecera o Morro Santana e a sua Casa Branca como um espécie de exílio
brando, ainda que o presidente do Estado soubesse que de lá sua pena seguiria
escrevendo e se comunicando com diversos escritores e jornalistas do Brasil e
do mundo, dentre os quais, o próprio Bierce.
Raramente ia à vila
(hoje “centro histórico”), nas margens do Guaíba. Porém, ciente da chegada de
seu amigo na cidade, fez questão de buscá-lo pessoalmente. Era um momento
privilegiado para quebrar o seu isolamento político e social visando se
inteirar das novidades do mundo.
Ao adentrarem o antigo
casarão, se dirigiram à biblioteca. Em seu português tortuoso, que por vezes
descambava para o espanhol ou inglês, Bierce, colocando a mão na bolsa surrada
de couro que trazia ao colo, disse:
— Tenho um presente — e
lhe estendeu um exemplar de Folhas de Relva, do poeta norte-americano,
Walt Whitman.
Os olhos de Apolinário
brilharam, fascinados.
— Muito grato, meu
amigo! Fico honrado. Serve para arejar com poesia o que sobrou da minha
biblioteca depois do saque que sofri por parte daqueles canalhas a mando de
Castilhos. Pude ler o elogio de Emerson sobre esse livro, que diz se tratar do
mais extraordinário exemplo de inspiração e sabedoria que a América do Norte
até agora produziu. Uma obra-prima!
— Verdade! — disse
Bierce, já colocando a bolsa num canto da biblioteca e se sentando numa cadeira
de palha — E os escritores que eu conhecer… conheci… na última vez que eu
estava… estive… acá, como estão?
— Se prostituíram —
respondeu Apolinário, em tom desapontado, enquanto preparava o tabaco — Nesta
provinciazinha está na moda se prostituir política e intelectualmente. O
governo nem precisa pagar em dinheiro.
— Sabe quem morrer…
digo… morreu? — mudou bruscamente de assunto Bierce, como que querendo evitar
momentaneamente os assuntos espinhosos.
Apolinário levantou a
cabeça, curioso.
— Paul Verlaine e
Edmond de Concourt!
Denunciando seu
provincianismo, Apolinário confessou que não sabia quem eram.
— Dois grandes poetas
franceses… você precisa conhecer!
Apolinário tomou nota.
Logo após, anunciou:
— Eu também tenho algo
para vosmicê.
Puxou do canto da mesa
onde estava sentado um manuscrito em folhas amareladas, carcomidas e retorcidas
nas beiradas.
— O que és esto?
— Um diário íntimo de
um antigo morador deste morro — respondeu Apolinário, largando uma grande
baforada de fumaça — Viveu no período em que estas terras eram de um único homem,
chamado Jerônimo de Ornelas, um sesmeiro considerado fundador de Porto Alegre.
O suposto escritor destas linhas foi seu peão e tropeiro.
Bierce pareceu não dar
muita importância. Estava um pouco cansado da viagem e distraiu-se olhando a
prateleira de livros. As criadas negras entraram na biblioteca trazendo a janta
e dois copos de aguardente.
Os dois agradeceram e
comeram em silêncio durante um período, voltando a conversar sobre a guerra
civil. Bierce queria saber o que aconteceria daqui para a frente com o Rio
Grande do Sul.
— A ferida ainda sangra
muito — respondeu Apolinário — Castilhos venceu e está consolidado no poder,
mas o Rio Grande do Sul ainda vive profundamente dividido. O Rio de Janeiro
decretou anistia política, mas a guerra surda de ódio e intriga se mantém.
Castilhos não mudou nada de sua constituição ditatorial e não dá ouvidos aos
donos da fronteira. Esta gente é grossa e quer viver num passado que já morreu,
mas apesar de tudo devem ter o direito de fazer-se ouvir e participar do jogo
político.
Bierce escutava
enquanto mastigava um naco de carne. De repente anunciou solenemente:
— No final deste ano eu
voltar… voltarei aos Estados Unidos. My temporada in América do Sul terminou!
— Vais atrás de Jenny?
— perguntou Apolinário, curioso.
— Não — respondeu
Bierce, baixando os olhos — Este caso estar encerrado. Vou me… como se diz?
Jubilar… quero dizer… me aposentar do jornalismo e me dedicar à literatura.
— Ir embora é uma pena,
mas é por uma grande causa!
Fez-se um breve
silêncio e Apolinário percebeu que o amigo remoía algumas feridas. Novamente
pegou o manuscrito e colocou na frente de Bierce.
— Há aqui alguma poesia
perdida, parecida com o teu caso e de Jenny. Luíz Henrique, que é o nome do
tropeiro de Ornelas e o possível escritor destas linhas, também sofre de amores
por uma donzela de reputação duvidosa, filha do chefe.
Bierce de repente se
interessou. Os ouvidos se aguçaram.
— És um romance?
— Não. É um diário
íntimo. Ninguém sabe se é verídico ou se é ficção. O recebi numa reunião do
Partenon Literário há algum tempo atrás, antes de haver a grande ruptura que
levou à expulsão de muitos membros. João Câncio Gomes, um ex-participante deste
círculo, o encontrou em um baú desenterrado das ruínas do que foi a casa grande
da estância de Sebastião Francisco Chaves, situada ao sul da cidade, e me
repassou dizendo para avaliá-lo. Seja verídico ou não, parece ter algum valor
literário. Também remonta de forma interessante muito da cultura e da sociedade
da época colonial.
— Vou olhar ele esta
noche — prometeu Bierce, folheando o manuscrito.
***
Aconteceu!
O amor se fez como a
minha fortuna!
E ela me quer, oh
como ela me quer! Sempre soube disso em meu íntimo.
Ontem, enfim, levei
Rita para a maravilhosa Ilha dos Amores, com todas as suas delícias e
inebriações!
Quando isso acontece
é como se a deusa Vênus e todas as divindades do amor nos viessem abençoar!
O local do nosso
encontro foi a entrada da mata do caminho dos escravos, no alto da madrugada,
quando todos na estância já dormiam. O único que me viu partir foi negro
Custódio.
Nos encontramos no
local combinado e fomos em direção à nascente da sanga que passa ao sul da
estância. Subimos um pequeno declive e atingimos um local seguro, cercado de
árvores, plano e bem reservado.
Lá ela estendeu panos
de veludo e seda que ganhou das ciganas e acendemos uma fogueira com lenhas que
eu tinha trazido da estância. A noite estava fria, mas conseguimos esquentá-la
mais do que o próprio fogo.
Nos entregamos aos prazeres da carne até as raias da loucura. Foi tanto
o frenesi criado pelo enlace dos nossos corpos que chegamos à exaustão. As
brasas da paixão arderam até consumir o nosso ninho de amor.
A luxúria tomou conta
de mim como nunca antes senti. Rita despertou este fogo sagrado e profano
dentro de mim.
Como desejei aquele corpo alvo junto do meu, suor com suor, minha mão
acariciando seu corpo, suas mãos deslizando sobre o meu sexo. Meus dedos deslizaram
pela umidade do seu sexo até se fartar. Os lábios beijando-se loucamente, indo
até o lóbulo das orelhas e falando tudo o que bem quisesse, sem moral, sem
temor algum de punição, sem medo de demônios ou castigos infernais. Não sabia
mais o que era fantasia e o que era realidade.
Quando despontavam as
primeiras luzes da manhã, levantamos nosso pequeno acampamento e tomamos o rumo
da Estância.
Ajudei-a entrar na casa grande pela janela do seu quarto, em segurança,
garantindo que ninguém visse ou ouvisse nada. Depois, deitei-me nos meus
pelegos, feliz e saciado.
21 dias de julho de 1742, Passo do Dornelles.
Da lateral do
estábulo, em cima dos meus pelegos, fico escrevendo e mateando ao sol, tal qual
um lagarto. Dali posso ver a janela de Rita e, vez ou outra, ela passa de um
lado para o outro e me mira, discretamente.
Isto basta para que o
brazeiro novamente fique em chamas.
Não consigo escrever
nada diferente que não seja sobre ela: quanto o cheiro e o toque no seu corpo
me inebriam. Só penso em quando conseguiremos nos ver novamente.
Compus, então, a
seguinte peça que pretendo recitar ao pé do seu ouvido na próxima vez:
Nesta madrugada sonhei acordado
tu estavas no meu sonho
Sentia sede
muita sede de ti!
meus dedos te percorriam
como um peregrino percorre um deserto
entorpecido de sede
De repente, eles encontram teu sexo
molhado como um oásis em meio à terra árida
e o meu, rijo e pulsante
mergulha profundamente
pronto para engolir qualquer Saara
Bebi
Ah! Como bebi!
matei todas as sedes do mundo
me embeveci
um tanto embriagado
por alguns segundos que tocaram a eternidade
fiquei em harmonia com o infinito...
4 dias de agosto de 1742, Passo do Dornelles.
Negro Alípio foi enviado por Francisco Carvalho da Cunha até a fazenda de
Jerônimo de Ornelas com um pedido expresso para a formação de um regimento
militar. Um peão e um escravo da Estância Grande foram mortos em uma tocaia por
um grupo de índios nas redondezas da subida da trilha dos escravos.
Jerônimo de Ornelas convocou todos os homens de sua estância para formar
um regimento. José Raimundo estava radiante. Disse sem cerimônias: “está aberta
a temporada de caça aos bugres!”.
Eu me neguei a compor esta unidade porque não posso esquecer do seu olhar
de desdém quando do ataque que sofremos no princípio deste ano. Ademais, estes
pobres índios nada tem que ver com a ganância dos estancieiros, que sempre
querem mais terras para si e tornam-se dispostos a pisar com suas botas
lustrosas de couro qualquer um que se oponha. São apenas povos selvagens que
reagem como bestas acuadas por não entender tamanha vontade de poder.
Jerônimo de Ornelas me lançou novo olhar de desdém e comentou: “pois não
vá, mas vosmecê há de terminar sozinho de cavar o poço até o final deste dia e
ficará de guarda a noite toda por quatro domingos”. Depois montou, triunfante,
no seu cavalo, sendo escoltado pela tropa recém formada.
Por esta razão minhas mãos encheram-se de calos novos que só me deixaram
voltar a escrever no dia de hoje, quando ele desce novamente à Estância Grande
com José Raimundo para retomar a negociação sobre o comando deste
destacamento.
Até onde pude saber, o tal regimento militar não obteve sucesso na sua
“caçada aos bugres”.
16 dias de setembro de 1742, Passo do Dornelles.
Depois de semanas sem notícias de Rita, apenas a observando da lateral
do estábulo e procurando as menores justificativas para tentar me aproximar da
casa grande, ou mesmo da janela do seu quarto, nada consegui, a não ser algumas
suspeitas da mãe e das escravas da casa grande.
Eis que hoje a vejo sair, linda e formosa, como sempre, na carroça de
José Raimundo, acompanhada por sua sua mulher, em direção à Estância Grande.
Fiquei sabendo por negro Custódio que foram se confessar e tomar a bênção na
recém erguida capela de Nossa Senhora da Conceição.
Trajando um lindo vestido rendado branco e uma sombrinha para protegê-la
do Sol, Rita sentou-se no banco traseiro da carroça com a sua mucama e se foi,
impassível, sem sequer olhar para os lados, querendo, por suposto, evitar novos
rumores.
8 dias de outubro de 1742, Passo do Dornelles.
Rudá me sorriu!
Ele flechou nossos
corações e o seu fluído mágico se espalhou para os nossos corpos, acendendo a
chama da volúpia. E Vênus abençoou-nos novamente!
Eu e Rita nos
encontramos ontem utilizando-nos do mesmo estratagema anterior. Passamos a
noite toda juntos e, então, ela me contou brevemente sua vida.
Disse-me que a mãe e
o pai, percebendo seus anseios e apetites, queriam lhe colocar em um convento
para noviças na capitania de São Paulo. Antes de chegar a este extremo
resolveram deixá-la sob os cuidados de uma tia muito religiosa e severa. Rita
sempre fora uma rapariga muy linda, que chama a atenção de qualquer homem. A
tia, por suposto, proibia que ela se tocasse pelo medo das consequências.
Assim, sem ter por onde extravasar, ela adoeceu. Por meses ficou sob o tacão
tirânico da tia e a sua saúde foi deteriorando-se até beirar a morte.
Em função disso, os pais mudaram os planos. Tiraram ela da convivência
da tia e desistiram de interná-la em um convento, resolvendo mantê-la debaixo
de suas asas sob intensa vigilância para que eles próprios lhes arranjasse
casamento. Mesmo saindo de perto da tia e de suas draconianas imposições, ela
continuou com a saúde frágil, pois a sua influência maléfica ainda se fazia
sentir.
Percebendo a situação
dramática e compreendendo-a bem, um vigário local de São Paulo, de confiança da
mãe, conversando privadamente com Rita sugeriu-lhe que ela voltasse a se
tocar.
Rita ficou confusa por ouvir tal orientação vinda de um religioso que,
em comparação a outros clérigos, agia de forma estranha, tanto no discurso
quanto na prática. Porém, seguindo o conselho do padre, dentro de algumas
semanas sua saúde finalmente voltou ao normal e a sua beleza aflorou novamente.
Logo depois de ouvir
esse relato com riquezas de detalhes, fiquei um pouco perturbado e o ciúme,
este veneno insano, corroeu-me o coração. Alguns pensamentos sombrios
formaram-se em minha mente.
Rita percebeu.
Ela tentou abrandar um pouco o clima tenso retomando suas carícias sobre
meu rosto, minha boca, meu corpo, meu sexo. Então, fizemos amor com mais gana e
sede ainda, que parecia não ter fim. Rudá lançou-nos uma nova flecha
flamejante, incendiando o nosso ninho, e a espuma de Vênus nos lambuzou por
completo.
Um pouco antes de
voltarmos para a estância, Rita abriu seu coração novamente: disse que escrevia
e, assim como eu, também mantinha um diário íntimo com estórias íntimas como as
que relatei acima.
Prometeu-me mostrar um dia.
12 dias de dezembro de 1742, Passo do Dornelles.
Mais um ano de nosso
senhor se inicia.
Jerônimo de Ornelas
nos apresentou um novo projeto: erguer um galpão, tendo por base pedras, vigas
centrais de madeira e um telhado de palha, folhas de bananeira seca e barro. O
objetivo, segundo nos explicou da varanda da casa grande, era criar uma área de
convívio social que possibilite promover reuniões em que nos explicaria as
ordens do dia, principalmente durante o inverno.
Eu e negro Custódio
estivemos juntos na fixação das pedras basilares. Nesta época do ano faz muito
calor e as cigarras cantam ininterruptamente.
Entre uma pausa e
outra da lida diária para esta construção e outros serviços costumeiros, negro
Custódio me alertou sobre uma estória estranha que ouvira quando estávamos nos deslocando para o sul. Segundo seu
relato perturbador, houve uma vez em que um caboclo tentou envolver-se com
Rita. Este episódio mal contado e obscuro, que corre à boca pequena, ocorreu na
época em que ainda viviam na capitania de São Paulo. Parece que Jerônimo de
Ornelas e José Raimundo descobriram e deram fim no tal caboclo. Não se sabe ao
certo se foi por motivos amorosos.
Negro Custódio está
preocupado com os rumores que nossas escapadas estão gerando e quis alertar-me.
Disse-lhe para ficar despreocupado, pois a grande desconfiança que havia na
estância sobre o nosso relacionamento vinha arrefecendo nos últimos meses.
Tudo está sob
controle, enfim.
7 dias de fevereiro de 1743, Passo do Dornelles.
Ontem à noite Rita e
eu nos encontramos novamente.
O brazeiro se
transformou em um grande incêndio que me consumiu novamente. Estou perdidamente
apaixonado por ela, pelo seu cheiro, pelo seu toque, pelo seu corpo.
Quando estou longe
dela só sinto desejo e saudade. Posso respirar o resto do cheiro do seu sexo em
minhas unhas, na ponto dos meus dedos, nos meus cabelos, na minha barba. Isto
me paralisa qualquer movimento e também extingue imediatamente qualquer
pensamento de abandonar esta capitania e esta estância isolada do mundo.
Sei que ela não pode
se casar comigo, mas este é o desejo mais profundo de minha vida, que alimento
com toda a esperança. E se fugíssemos juntos? Venho pensando seriamente sobre
tal possibilidade e bolando estratégias em segredo.
Nesta feliz ocasião
tive ensejo de perguntar-lhe sobre o tal caboclo que Jerônimo de Ornelas e José
Raimundo teriam dado cabo na capitania de São Paulo.
Ela disse-me que não passavam de rumores de triste memória, que tanto
mal faziam à sua alma. O caboclo, segundo me disse, era simplesmente um
pretendente, que além do quê, tinha dívidas financeiras e de honra com o pai e
o irmão.
23 dias de abril de
1743, Passo do Dornelles.
Nas últimas semanas
Jerônimo de Ornelas pede que eu faça seguidas descidas para a Estância Grande
com a finalidade de repor estoques dos quais não há urgência, como erva mate,
trigo e aguardente. Pede, inclusive, que passe algumas noites na estalagem
próxima à capela central.
Por certo é um ardil
para me manter afastado da estância e de Rita, pois deu ouvido aos rumores que
julgava terem findado. Nada me resta fazer senão aceitar o exílio não
declarado, com grande dor na alma.
15 dias de maio de 1743, Passo do Dornelles.
Quando retornei,
passadas duas noites, Rita mandou-me entregar através de sua mucama um novo
bilhete, dizendo que seria impossível nos encontrarmos novamente, pois agora
estava sob severa vigilância.
Mas disse, porém, que
estava morrendo de saudades de mim, da minha boca, do meu toque. Fiquei ávido,
sedento; profundamente embriagado e inebriado de paixão, ao mesmo tempo,
indignado por proibirem o florescimento do nosso amor.
Me resignei
novamente, sempre esperando um momento em que pudesse revê-la da janela do seu
quarto ou num banho de sol e ar fresco. Estão sendo dias de profunda apreensão
e tristeza.
20 dias de maio de
1743, Passo do Dornelles.
Quanta desgraça
abateu-se sobre mim! Ó céus! Ó santo Deus!
Passaram-se algumas
semanas sem que nos víssemos, mas Rita não suportou viver longe de mim, das
nossas carícias, do nosso sexo e nos encontramos novamente quatro noites atrás.
Porém, desde então,
tudo mudou para pior.
Olheiros entre
escravos e peões foram destacados para nos vigiar sem que soubéssemos. Alguém
nos viu saindo para nosso ninho de amor e, também, voltando a altas horas da
madrugada. Fomos denunciados por um Judas desalmado.
Quem teria feito
isso? Não sei, mas amaldiçoo com mil demônios o desgraçado que foi capaz de tal
atrocidade!
Antes que pudesse
amanhecer o dia, negro Custódio me acordou, falando dos rumores que vinham da
casa grande. Eram sérios e versavam sobre a possibilidade real de retaliação e
morte. Juntei meus pertences, os enrolei nos pelegos e lancei-me morro abaixo
antes que o dia raiasse, tal como um pária, sem ter para onde ir.
Enquanto descia ouvi
um barulho vindo da mata. Tive a certeza de que estava sendo seguido. Coloquei
a mão no facão e me preparei para a luta. Porém, tratava-se apenas de um
lagarto, que corria assustado com a minha presença e, certamente, pressentindo
parte do meu drama.
O céu nublado e a
aparição nada auspiciosa deste lagarto prenunciaram a tempestade que desabaria sobre
mim.
Passei a noite
acordado e aflito num dos grandes galpões da Estância Grande, próximo à capela.
18 dias de junho de 1743, Estância Grande.
Após andar de forma errante pela Estância Grande, negro Alípio e outros
peões me sugeriram procurar trabalho na sesmaria de São José, de posse de
Sebastião Francisco Chaves, ao sul do Morro Santana.
Hesitei em ir embora da Província de São Pedro do Rio Grande do Sul,
pois seria o mesmo que renunciar à Rita covardemente. E isso jamais farei!
Seria o mesmo que renunciar a mim mesmo!
Decidi, então, ficar e procurar trabalho nas terras de Sebastião
Francisco Chaves. Se Deus quiser ele me dará guarida neste momento difícil.
29 dias de junho de 1743, da vila da Estância Grande.
Estabeleci-me na sesmaria de São José graças a generosidade de Sebastião
Francisco Chaves, este abençoado homem de Deus.
Contei-lhe brevemente o meu drama, omitindo, por suposto, detalhes
sórdidos. Ele pareceu demonstrar algumas rusgas e desconfianças em relação a
Jerônimo de Ornelas, o que certamente abriu caminhos para a minha sorte.
Por aqui os ares são outros. Vivemos perto de um longo riacho que cruza
suas terras, onde as escravas lavam roupa, pegam água e alguns homens pescam.
Venta menos do que no topo do morro, porém, também faz muito frio.
2 dias de julho de 1743, Sesmaria de São José.
Não posso mais ver Rita.
Isso me atormenta como um espírito obsessor.
A verdade é que a luxúria embotou e entorpeceu os meus pensamentos e
emoções. Ocorre uma confusão de sentimentos, uma volúpia que nos aproxima do
abismo, sussurrando ideias que dão vontade de se atirar nele.
Na minha vida, me relacionei com muitas mulheres, mas apenas Rita me fez
sentir isso. Brincar com o prazer — a que custo?
Fazer sexo de variadas formas, inclusive as mais proibidas pela santa
madre Igreja, como as sodomias; tudo isso gera em mim uma euforia difícil (e
talvez impossível) de descrever.
Estaria eu à beira da loucura?
Na medida que escrevo isso e sinto estes sentimentos misturados de amor,
luxúria, injustiça e ódio, tenho a plena sensação de ficar cada vez mais preso
à Rita, como se minha alma fosse sugada pelas memórias do prazer que ela me
proporcionou, me permitindo realizar todas as minhas fantasias mais imundas —
ou, então, quando ela mesma me pedia ao pé do ouvido mais sodomias e mais
imundícies.
Assim, o prazer que me embriagava ia aprisionando a minha alma sem que
me apercebesse, o que parece produzir dentro do meu ser uma dependência da sua
ausência. Tudo isso é parte do fogo que ela me fez queimar em mim mesmo — seja
este fogo proposital ou ingênuo de sua parte; dúvida que termina por aumentar
ainda mais o meu incêndio interior e a sede de mais prazer.
Penetrar no seu corpo alvo e jovem era como se a vida se abrisse para
mim, tal como uma meretriz de quatro, molhada, pronta para receber meu sexo
rijo e latejante. E o fato de saber que ela pode proporcionar este mesmo prazer
a outros homens gera em mim um ciúme e um desassossego insuportável.
Quanto mais a procurava em algumas chinas da Estância Grande, mais preso
à ela eu ficava, em um ciclo vicioso infernal, sem fim, beirando a
possibilidade de autodestruição. Quando fecho os olhos vejo ela rindo de longe,
malévola, sem me deixar saber se isso é ela em si mesma ou se sou eu perdido em
uma mistura que se passa na minha mente transcendendo a sanidade e adentrando o
reino da loucura total, repleto de sombras, de demônios — ou, ainda, se são
ambas as coisas ao mesmo tempo!
Lembro-me precariamente de um mito da Grécia Antiga.
Nele, parece que um
caçador acompanhando dos seus cães observou uma deusa, que não me recordo bem
qual era, talvez Vênus, se banhando nua em uma cachoeira. Como ela era de uma
beleza perfeita e casta, não queria ser observada por nenhum homem. Ao perceber
a presença do intruso, ela lhe lançou uma maldição que o transformou em um
cervo. Os cães, não entendendo que a magia havia transformado seu senhor num
apetitoso cervo, o atacaram sem piedade, dilacerando-o e o devorando-o vivo,
com intensa volúpia.
Parece-me uma
sinistra metáfora de como a luxúria nos devora violentamente, tal como cães
movidos pelos seus instintos mais selvagens. É exatamente assim que me sinto.
Até que ponto deixei a luxúria me transformar em um cervo prestes a ser
devorado por cães famintos? Seria eu capaz de evitar ser devorado por mim
mesmo?
Só posso recorrer a Deus para que tenha piedade de mim e dos meus
pecados mais sórdidos.
15 de julho de 1743, Sesmaria de São José.
Ontem recebi a abençoada e preocupante visita de preto Alípio, que me
trouxe junto o céu e o inferno!
Por um lado, a infernal notícia de que a minha cabeça está a prêmio na
estância de Jerônimo de Ornelas. Por outro, o céu, quando me anunciou que Rita
está grávida. O céu sendo a causa do inferno; e vice-versa.
Sim! Eu vou ser pai de um filho de Rita!
É uma alegria indescritível, que ao mesmo tempo me atormenta, pois não
poderei conhecer e compartilhar a vida de meu próprio filho.
Como parte do inferno que desencadeei, contou-me que negro Custódio foi
açoitado perante os olhos de todos peões e escravos por encobrir as minhas
escapadas com Rita.
Tais injustiças são revoltantes e no momento não tenho outro remédio
contra elas senão registrar por escrito aqui, neste diário, que mais parece um
enorme muro de lamentações. Sei que nosso amor, embora carnal e pecaminoso, é
forte e sobreviverá. Renasceremos…
Por hora, o que precisamos fazer é resistir e sobreviver.
27 dias de julho de 1743, Sesmaria de São José.
***
O morro, a Casa Branca e a Atafona
Quando Bierce despertou já se passavam das 11h30min da manhã.
O Sol tostava as telhas
da Casa Branca e as cigarras cantavam ensandecidamente.
Seu olhar demorou a
focar o quarto, com livros, jornais e o pequeno caderno de notas, bagunçados e
espalhados por todos os lados. Na cômoda de cabeceira estava um copo e a
garrafa de cachaça quase vazia que o jornalista tinha levado para o quarto
antes de deitar.
Sentou-se na cama por
um tempo e sentiu uma leve tontura. Seu corpo, do pescoço até as pernas,
passando pelas costas, barriga e um dos braços, estava coberto por vergões
vermelhos deixados pelos mosquitos. Coçou alguns, mas sentiu um leve mal estar
e decidiu parar, controlando o desespero por coçar todos. Viu o feixe de Sol
que já entrava pela janela espalhar-se pelo quarto e iluminar a pequena
bagunça.
Passou a mão pelos
cabelos desgrenhados e respirou fundo.
Tomou coragem e finalmente ergueu-se da cama, que rangeu ao ter o peso
aliviado.
Os seus passos
arrastados ecoaram pelo velho casarão, anunciando às criadas que o convidado
havia despertado.
Juntou os livros e
papéis que estavam espalhados pelo chão e os empilhou em cima da mesinha do
canto do quarto.
Aproximou-se da janela
e a abriu devagar, deixando o vigoroso Sol sul-americano inundar o cômodo da
velha Casa Branca e despertar um leve fogo-fátuo de vida sobre a sua brancura
norte-americana, salpicada de vermelhos deixados pelos mosquitos.
Que horas deveriam ser?
Pensou ele olhando para o cenário do quintal da casa de Apolinário,
composto pelo orquidário cercado por grandes árvores de um verde viçoso e
perfumado, além de uma mesa de madeira redonda cheia de limo, com alguns bancos
irregulares espalhados ao redor.
Tomou coragem e saiu
para o corredor do velho casarão, que rangia a cada passo.
Quando entrou na
cozinha, viu a criada trabalhando, cortando um punhado de folhas verdes, que
preparava para pôr no seu refogado fumegante feito em um velho e enferrujado
fogão à lenha, sempre sob o olhar atento da filha mais nova. As duas viraram-se
abruptamente ao sentir a presença do recém chegado.
— Bom dia! — disse
Bierce numa voz rouca de quem abusou do cigarro e do álcool na noite anterior.
— Boa tarde! —
respondeu a menina, sem se conter, escancarando um sorriso maroto, onde
faltavam alguns dentes.
— Que é isso minina?
Tem modos! — repreendeu a mãe, com medo de ofender o estrangeiro.
Bierce apenas sorriu,
aceitando a ironia da criança.
— Sinhô Bici —
prosseguiu imediatamente a criada —, sinhô Apoináro pediu que lhi avisassi que
ele mais Luizinho tariam isperando o sinhô lá na Atafona véia.
Bierce coçou a cabeça.
— Tata… Ata… o quê?
— …fona — completou a
criada — Se avexe não que a minina leva o sinhô inté lá.
Mais do que depressa a
filha da criada se colocou em marcha até a porta de saída, se sentindo muito
importante por saber o caminho e guiar o convidado.
— Não deixe de tomá
água não, sinhô! — recomendou a criada — Nessis dia di verão faiz calor di matá
nego!
Depois de beber dois grandes copos de água fresca, Bierce foi em direção
à porta da varanda, seguindo os passos da menina. Assim que colocaram os pés na
rua o norte-americano sentiu um cheiro de capim queimado do Sol penetrar em
suas narinas e o azul resplandecente do céu ensolarado encher suas pupilas,
enquanto o canto das cigarras seguiam rasgando os ouvidos numa sucessão
ininterrupta de “ruídos metálicos” que prenunciava o bafo quente que castigaria
os viventes ao longo daquele dia.
Tomaram uma estrada de chão batido que subia até uma pequena coxilha,
desembocando em uma mata fechada. A menina parecia conhecer o caminho como a
palma de sua mão. Após cruzarem alguns troncos caídos e adentrar um ambiente
mais sombreado e fresco, deram de frente com a Atafona abandonada.
A construção estava semi destruída pelo tempo ou sabe-se lá pelo quê. Do
moinho de moer grãos não restava quase nada, só um pedaço de madeira
arredondado totalmente apodrecida que compunha sua parte central, espatifado no
meio das ruínas. As paredes de pedra ainda estavam de pé e podia-se reparar que
eram bem feitas, a despeito do musgo que a cobria quase totalmente; mas o
telhado, por sua vez, havia cedido completamente, restando apenas duas vigas
que não sustentavam mais nada.
Sentados em pedras dispostas num semi círculo, onde jazia no meio um
resto de carvão que devia ser de fogueiras de noites passadas, estavam
Apolinário Porto Alegre e um homem negro que, pelos cálculos que Bierce fez a
partir de suas primeiras impressões, devia ter, no máximo, uns 27 ou 28 anos. O
homem negro trajava uma camisa branca larga com as mangas dobradas até o
cotovelo, calças justas, embora surradas, e sandálias marrons num estado não
muito melhor
Ambos levantaram a cabeça ao perceber a entrada da menina e do
norte-americano, já com a camisa empapada de suor.
— Eis o homem! — disse Apolinário apontando para Bierce.
A menina foi até o negro, deu-lhe um beijo e um abraço carinhoso;
depois, se pôs a correr novamente até a Casa Branca para voltar a ajudar a mãe.
Apolinário levantou-se brevemente.
— Bierce, este é Luíz.
Luíz, este é Bierce, o jornalista norte-americano de que lhe falei.
Ambos se cumprimentaram
cortesmente.
— Tome assento —
sugeriu Apolinário apontando para uma pedra que completava o círculo em volta
das cinzas.
— Entonces és acá que
se escondem? — brincou o norte-americano, enquanto examinava o estado da
Atafona abandonada, erguendo a cabeça num breve giro contorcionista de 360
graus.
— Aqui passamos boas
horas, conversando, pitando e filosofando — respondeu Apolinário.
Luíz começou a enrolar
um palheiro, no que foi seguido por Bierce.
— Apolinário me disse
que vosmecê está escrevendo sobre a guerra civil do Rio Grande do Sul? —
perguntou Luíz.
— Sim, eu soy
correspondiente de jornal de meu país, que tem office na Argentina. Todos
governos, EUA, Argentina e Uruguai estar preocupados com possibles consequências.
Será my adiós destas terras… e, también, do periodismo.
— Bierce vai se dedicar
à literatura — atalhou Apolinário, para ajudar — Deve estar cansado de ver
tanta podridão nos meios políticos e diplomáticos.
— Estoy, como se diz?
Cansado del ser humano — respondeu o norte-americano — La literatura me
regenera la alma!
— Concordo com
vassuncê! — respondeu Luíz, dando uma cusparada de tabaco preto no chão.
Fez-se alguns minutos
de silêncio, onde só se podia ouvir o canto das cigarras nas árvores do entorno
das ruínas e as baforadas de cigarro que os homens largavam no ar.
— Ao fim e ao cabo o
Rio Grande do Sul não se desmembrou do Brasil, nem se juntou ao Uruguai —
observou Luíz, fazendo referência à reportagem que Bierce escreveu para o seu
jornal de Buenos Aires.
O norte-americano
arregalou os olhos e mirou, estupefato, Apolinário, como que surpreso pelo fato
de Luíz saber dos assuntos de que tratavam suas colunas jornalísticas.
— Luíz não só sabe ler,
como é um leitor voraz — justificou Apolinário — Já leu grande parte do que
restou da minha biblioteca, além de ser fluente em espanhol. Sempre que pode,
vem de Viamão para prosear, pegar ou devolver livros. Às vezes passamos a noite
aqui nesta Atafona com alguns outros amigos. Luíz inclusive já participou de
reuniões do Partenon Literário e chegou a apresentar seus versos. Quando disse
que vosmicê estaria em Porto Alegre, lhe mostrei suas colunas. Ele leu
praticamente todo o jornal e, então, pediu para conhecê-lo.
— Nasci e cresci na
chácara de Caldre e Fião, em São Leopoldo — disse Luíz — Quando a lei de 71
passou no Rio de Janeiro, muitos estancieiros daqui, principalmente do
interior, não aceitaram e continuaram mantendo o cativeiro para a maioria dos
filhos dos negros. Minha mãe ouviu falar que existia uma chácara de um casal
abolicionista que recebia escravas grávidas e seus filhos lá para as bandas de
São Leopoldo, para enfim fazer valer a lei. Lá ela me deixou por ter medo de
que minha sorte fosse igual à dela. Lá também me ensinaram a ler e a escrever.
Mas quando tinha 13 anos fui capturado por jagunços de estancieiros do interior
e fui levado para a fronteira. Conheci o inferno e nele fui obrigado a viver
até os 16 anos, sob intensa vigilância e controle. Consegui fugir com uma leva
de escravos pelos idos de 1886 e voltei para a chácara de Caldre e Fião, que me
apresentou para vários participantes do Partenon Literário, onde conheci o
Aurélio Verissimo e o Apolinário. Com a ajuda deles me estabeleci em Viamão
como um homem livre, ainda antes da lei Áurea!
Bierce sorriu e fez uma
reverência de reconhecimento com a cabeça.
— La guerra civil
terminó, mas não és temprano concluir que Rio Grande del Sur não separa? —
indagou.
— Muito dificilmente —
respondeu Apolinário — Júlio de Castilhos e os pica-paus se consolidaram no
poder. Eles são aliados fiéis do Rio de Janeiro.
— E o governo
republicano de Floriano também se consolidou na capital federal — atalhou Luíz
— o que fortalece os pica-paus por aqui.
— Agora é saber qual és
el projecto político dos dois.
— Existem muitos
empecilhos para saber — disse Luíz — O Brasil é um grande país. Pode concorrer
não apenas com os EUA, mas com qualquer país europeu… e superá-los! O problema
é que em função do tipo de colonização que tivemos ficamos estagnados em um
estágio econômico e político agro-exportador, por várias razões. Recém acabamos
com a escravidão — Luíz mostrou as cicatrizes nos seus punhos — e os interesses
estrangeiros, como os da Inglaterra, não permitem um desenvolvimento pleno da
nossa indústria e do nosso mercado interno. Além disso, o povo é levado a não
acreditar no país, o que significa não acreditar em si mesmo. Este talvez seja
o pior estigma.
Bierce ficava cada vez
mais espantado. Apolinário se deleitava e ria entre uma baforada e outra.
— Éres republicano,
como Apolinário? — indagou Bierce.
— Sim! E abolicionista,
por suposto! — respondeu Luíz, convictamente.
— Ainda que estas
terras sejam provincianas e afastadas demais da capital, onde a vida política e
econômica do Brasil realmente acontece, fomos pioneiros no debate republicano e
abolicionista. O próprio movimento republicano se dividiu em alas opostas e rivais
em razão dos rumos a seguir após a queda do imperador — disse Apolinário, que
começava a enrolar outro palheiro.
— É sempre Porto Alegre
e o Rio Grande que têm pensado o Brasil — interviu Luíz — A elite do café em
São Paulo e Rio de Janeiro só se preocupa com os mercados internacionais. O Rio
Grande sempre foi obrigado a se preocupar com o Brasil no sentido de
sustentá-lo e desenvolvê-lo, enquanto as maiores cidades só se preocupavam com
essa economia voltada para abastecer o exterior. Daqui saiu o charque para
alimentar os escravos nas minas; daqui saiu o couro e a banha para vestir e dar
energia para o trabalho pesado. Se o país tiver algum dia um projeto de nação,
provavelmente partirá de uma iniciativa desta provinciazinha sulista. Não só
Porto Alegre, mas todo este país tem grande potencial. Resta saber como a
República será governada, se levando tudo isso em consideração com bravura ou
covardia.
— A nossa cidade tem
crescido e diversificado sua capacidade de produção. Ainda que não goste dos
rumos do governo dos pica-paus, tenho de reconhecer que sua preocupação
obsessiva com o desenvolvimento industrial teve algum efeito positivo — disse,
a contragosto, Apolinário.
— O interior do Estado
também floresce e já despontam aqui e ali uma série de cidadezinhas com
economia própria — complementou Luíz.
— Superar um passado
colonial e escravocrata, baseado em grandes propriedades de terra, que aqui
eram chamadas de sesmarias, tal como a que existia em cima deste morro aqui
atrás — disse Apolinário apontando para trás de si —, não pode acontecer da
noite para o dia.
Bierce deixou a espinha
ereta e deu um tapa na sua perna.
— En lo tiempo… li el
manuscripto que me passó ayer. Fiquei acordado hasta madrugada para conocer el
final.
— E então? — perguntou Apolinário,
curioso.
— És… como se diz?...
espantoso saber que la ciudad empezou en alto deste morro… y que hoy temos acá
solamente esta… mata… com una o otra vivienda. Pero, to be honest… foi para
conocer el desfecho del caso de amor que fiquei preso hasta el final.
— Provavelmente ele foi
morto — antecipou-se Luíz.
— Vosmicê también ler
el manuscrito? — perguntou Bierce.
— Sim, eu já o li, pelo
menos, umas sete vezes.
Bierce franziu a testa.
— Como o manuscrito não
tem fim, foi a conclusão que chegamos — disse Apolinário — Provavelmente ele
foi pego pelos peões de Jerônimo de Ornelas e, finalmente, foi lhe dado cabo.
Conseguiu escrever até aquele dia e enterrou suas coisas pessoais, junto com o
manuscrito, em um baú, nas terras de Sebastião Chaves, ao Sul do riacho. Ou
quem sabe entregou para um dos escravos, que enterrou para ele? O que uma
mulher pode fazer com a cabeça de um homem, não é?
— Estas são as relações
sociais nas quais o país e Porto Alegre foram fundados. Um amor impossível
entre pessoas de castas diferentes! Nada mais comum, nada mais comovente, desde
a Ilíada, desde Shakespeare, passando por Camões — emendou Luíz.
— In fact, la
reputación de la dama era duvidosa — disse Bierce — Lo que, inevitablemente, me
fuerza a tirar ciertas conclusiones. El linguajar és um tanto, como se diz?...
picante?! Pero, la poesia és fraca. En algunos extractos del manuscrito me
pareció pura ficción. Sin embargo, las reflexiones sobre luxúria próximo del
fim causaron-me profunda conmoción. Existem nestes extractos elementos de um
trágico realismo filosófico. És possible que la história no lo seas real?
— Sim — antecipou-se
Luíz novamente — É o mais provável. Onde já se viu um peão-poeta numa época em
que não existia sequer papel e tinteiro no Rio Grande do Sul? Por este país o
analfabetismo sempre nos desgraçou! Além do mais, o enredo é um tanto óbvio,
desde a previsão das ciganas em relação ao seu destino, quanto da proximidade
do fim do pobre Luíz Henrique, que tem o mesmo nome que eu.
Apolinário esboçou um
largo sorriso.
— Luíz desconfia de
tudo que venha de João Câncio.
— Joán quem? —
perguntou Bierce.
— É um dos
participantes do Partenon Literário. Foi através dele que conseguimos o
manuscrito — esclareceu Apolinário.
— O seu ar
aristocrático me é intragável — justificou o homem negro.
— Ora esta! Una persona
en el futuro también pode dizer que vosmecê, um ex-esclavo cambiado en uno
intelectual, és obra de pura ficción — ironizou Bierce.
— Mas você não está me
vendo aqui bem diante dos teus olhos?
Apolinário riu
novamente. O ex-escravizado parou por um instante, tragou seu palheiro e
prosseguiu:
— A propósito, mister
Bierce, quando voltará à Buenos Aires?
— Embora mi vida tenha
se cambiado en un song of the open road, preciso resolver problemas y
despachar pertenences de allá. Volto en miérc… como se diz? — respondeu Bierce.
— Sim! — gritou Luíz,
apontando para o norte-americano — Tínhamos que falar do seu conterrâneo!
Apolinário me fez referência a ele antes de você chegar.
Luíz puxou do saco que trazia junto a si o exemplar com o qual Bierce
tinha presenteado Apolinário: tratava-se de Folhas de Relva, de Walt
Whitman.
— Eu também o li
durante a noite toda — disse Apolinário — E, ao encontrar Luíz nesta manhã, a
primeira coisa que fiz foi lhe mostrar estes trechos marcados.
— Não me digas que sabe
leyer en inglês también? — questionou Bierce.
— Estou aprendendo —
respondeu Luíz, orgulhoso.
Falava isso enquanto
mostrava o livro aberto e grifado para o norte-americano.
Neste preciso momento a
filha da criada adentrou as ruínas da Atafona e puerilmente anuncia:
— Mamãe manda avisar
que o almoço tá pronto!
Os — já — três amigos se entreolharam, entenderam o recado e se levantaram. Apolinário passou a mão pela cabeça da criança e, então, todos juntos tomaram a direção da Casa Branca.
Após a partida de
Ambrose Bierce para Buenos Aires, preparando-se para regressar definitivamente
aos EUA, um encontro entre os três não voltaria a acontecer. Porém, é
importante registrar que eles sentiram profundo afeto por este instante mágico
que faz a vida um mosaico de encontros e desencontros, para, a partir de então,
tornaram-se remetentes assíduos de cartas e livros até o final de suas vidas.
Como estreitou os laços
entre três almas que sentiram-se unidas pela literatura e por uma afeição
sincera de quem se encontra num oceano de sofrimento, tristezas e incerteza, o
breve encontro ecoou pelo universo, mesmo ocorrendo em terras tão provincianas
e distantes demais das capitais.
De uma estreita península à metrópole de projeção nacional: examinando a anatomia do corpo
Entre 1821 e 1940,
Porto Alegre deu um salto de 12 mil “almas” para cerca de 272.000 “habitantes”.
Estendendo-se da
península do Gasômetro, às margens do Guaíba — de onde a cidade começou a ser
habitada pelos casais açorianos ainda durante o tempo em que este território
era considerado uma Sesmaria de Jerônimo de Ornelas, fato que leva a um duelo
entre um açoriano sem-terra e José Raimundo — até o “caminho do meio”, que
atinge Viamão, vão surgindo prédios, ruas, avenidas, casas e novos bairros
residenciais.
Chegam novos
imigrantes.
A economia se diversifica tanto no interior, quanto na capital do
Estado. A Rua da Praia marcava essas mudanças sociais.
O famoso missionário francês, Saint-Hilaire, que por aqui passou pelos
idos de 1821, deixou escrito em seus diários: “A rua da praia, que é a única
comercial, é extremamente movimentada. Nela se encontram numerosas pessoas a pé
e a cavalo, marinheiros e muitos negros carregando volumes diversos. É dotada
de lojas muito bem instaladas, de vendas bem sortidas e oficinas de diversas
profissões. [...] Na extremidade da Rua da Praia existem dois prédios,
vizinhos, servindo de armazém para a marinha, depósito de armas, e onde se
instalou, para as necessidades das tropas, oficina de armeiro, seleiro e
carreiro. [...] Os negociantes adquirem quase todas as mercadorias no
Rio de Janeiro e as distribuem nos arredores da cidade. Em troca, exportam
principalmente couros, trigo e carne seca; é também de Porto Alegre que saem
todas as conservas expedidas da província”.
O ilustre francês ainda se arrisca a profetizar o destino da pequena cidade:
“Porto Alegre está fadada a se tornar rica e florescente em um futuro muito
próximo. Esta cidade, fundada há 50 anos, mais ou menos, conta já uma população
de 10 a 12 mil almas e alguém residente há 17 anos informa-me que sua população
aumentou nesse lapso de tempo em mais de dois terços. Pode ser considerada como
principal empório da Capitania e mormente da zona nordeste do Estado. [...]
o rápido aumento da população fez com que os terrenos se tornassem mais
valorizados que nas cidades do interior. Poucas casas possuem jardim e muitas
não tem mesmo pátio, redundando isso no grave inconveniente de serem atiradas à
rua todas as imundícies, tornando-as de uma extrema sujeira. As encruzilhadas,
os terrenos baldios e principalmente às margens do lago são entulhadas de lixo.
Apesar de ser o lago o único manancial de água potável, utilizado pela
população, consentem que nele se faça o despejo das residências. [...]
Ao entrar nessa Capitania verifiquei logo os hábitos carnívoros de seus
habitantes. Em todas as estâncias veem-se muitos ossos de bois espalhados por
todos os cantos, e ao entrar nas casas das fazendas sente-se logo o cheiro de
carne e gordura. [...] Os hábitos carnívoros dos habitantes desta
Capitania os tornam cruéis e sanguinários”.
Por fim, depois destes beliscões, Saint-Hilaire derrete-se em elogios à
população que conheceu pessoalmente e aos cenários que vislumbrou em sua breve
passagem pelo povoado: “devo acrescentar que se não há aqui tanta vida
social como nas cidades europeias não resta dúvida haver muito mais do que nas
outras cidades do Brasil. São frequentes as reuniões nas residências para
saraus musicais, tocando algumas senhoras, com maestria, o bandolim e o piano,
instrumento este em geral desconhecido no interior devido às dificuldades de
seu transporte. [...] Do pouco que disse a respeito da posição de Porto
Alegre se depreende quão agradável ela é. Já não estamos na zona tórrida com
sítios majestosos e desertos monótonos. Aqui lembramos o sul da Europa e tudo o
quanto ele tem de mais encantador”.
Saint-Hilaire só não pôde deixar de reparar no frio que faz por aqui e
como os portoalegrenses estão mal preparados para enfrentá-lo: “Durante
vários dias o tempo manteve-se frio. Hoje, 4 de julho de 1821, está sombrio,
como na França antes de nevar, tendo chovido grande parte do dia. [...] Acostumado,
como já estou, às altas temperaturas da zona tórrida [do Brasil], sofro
muito com o frio. Ele tira-me toda espécie de atividade, privando-me da
faculdade de pensar. Esse frio repete-se todos os anos. Toda a gente se queixa
dele, sem contudo procurar meios eficazes de defesa contra o inverno. Apenas
cuidam de agasalhar o corpo com vestes pesadas. Ninguém tem a ideia de aquecer
os quartos. [...] Essa falta de precaução contra o frio parece ter sido
introduzida pelos portugueses, pois asseguram-me que em Lisboa as chaminés são
objeto de luxo”.
O professor de História da rede pública, Lúcio Ferreira, nascido e
criado em Porto Alegre lá pelos idos de 1980, leu todo o relato de
Saint-Hilaire e o apreciava muito. Em particular esta questão de como o francês
sentiu mais o frio daqui do que o que faz na Europa, tal como o relato de
outros viajantes norte-americanos e russos.
Foi por isso que ele sintetizou isso de forma bastante crítica no seu
blog: “Na Europa e na América do Norte faz muito mais frio do que no sul do
Brasil, mas nós passamos muito mais frio do que eles. Por quê? Ora, porque aqui
não temos casas e estabelecimentos com calefação. É claro que o apartamento dos
mais abastados é isolado termicamente ou possui ar condicionado e outros tipos
de aquecedores. Em compensação, os menos abastados, que moram em construções mais
antigas ou precárias, passam um frio desgraçado (na maioria das vezes
paralisador).
Pra tentar justificar eles nos dizem: o inverno aqui dura um mês só,
enquanto que na Europa e na América do Norte dura mais. Isso não é
justificativa, mas desculpas para a falta de planejamento dos nossos ‘governos
de empreendedores e gestores’, que estão bem quentinhos nos seus ar
condicionados e lareiras, pouco se importando com o frio que passa o nosso povo
da pampa pobre”…
***
Já no início do século XX a Rua da Praia torna-se a vitrine da moda dos
ricos da cidade. Suas calçadas, antes irregulares e com pedras soltas,
transmutam-se em passarelas cimentadas das grifes europeias. As confeitarias se
proliferam; os cinemas também.
Nos grandes edifícios, usados em sua maioria, como hotéis — Viena, La
Porta, Majestic, Grande Hotel —, se reúne a pequena elite econômica e
intelectual da cidade. Em outro ponto próximo à Santa Casa de Misericórdia e da
antiga “praça do portão”, mais especificamente na entrada da Livraria do Globo,
ocorrem grandes encontros de pensadores, promovidos informalmente pelo então
governador, Getúlio Vargas: ali debatiam ideias, poesia e arte, Alcides Maya,
Raul Bopp, Mário Quintana, Moysés Vellinho e Henrique Bertaso.
Frente a esta
edificação frenética de novos e enormes Megatérios urbanos, um certo Erico
Verissimo, também frequentador do círculo intelectual da Livraria do Globo,
começa a escrever seus primeiros contos e romances, conclamando à população
portoalegrense a “olhar os lírios do campo”. Entre livros, esboços e rabiscos,
este cruzaltense confessou: “No princípio, eu aborrecia Porto Alegre. Mas
ela me foi conquistando aos poucos, lenta e profundamente. É a cidade mais
amiga que conheço. E hoje eu não saberia viver muito tempo longe dela”.
Livros, revistas e
jornais começam a pipocar, refletindo o incremento da vida intelectual da
pequena capital provincial. Um cronista, que atendia pelo nome de Nilo Ruschel,
escreveu: “Orgulho do portoalegrense, sedução do forasteiro, ela soube,
nossa querida rua da Praia, assinalar um traço dominante da ‘Cidade Sorriso’.
Soube ser faceira e máscula ao mesmo tempo, vaidosa e destemida, passarela e
trincheira: formar rodinhas íntimas e levantar pororocas de rebeldia; ser palco
de desfiles, contramão de heróis do momento, abrigar poetas, políticos,
cambistas, tipos populares e ‘secretas’. Coração sensível da vida citadina foi
termômetro da opinião pública. Confluência de boatos, quintal sem muros de
conversas comadrescas, topo do pensamento coletivo, assembleia sem jeton,
picadeiro de variedades, escoadouro de jornais e dos pasquins, reduto da
mocidade, gazeio da estudantada”.
***
Desde aquele histórico
e anônimo encontro na Atafona abandonada, no sopé do Morro Santana, que
Luizinho tinha razão quando dizia que era desta “provinciazinha sulista” que
deveria partir um projeto de nação.
A batalha de Porto Alegre, em 1930, fez soar o toque de finados da
República Velha e uma revolução de caráter nacional começou na “moderna” Rua da
Praia, espalhando-se por toda a cidade e, posteriormente, por todo o Estado
para, então, ganhar o Brasil. Os grandes palácios e edifícios, como o Piratini
e o Majestic, tornaram-se labirintos da conspiração e pontos privilegiados para
posicionar atiradores e soldados.
A revolução de 1930, bem ou mal, mudou a cara da República brasileira e
questionou o poder político voltado a atender exclusivamente os interesses
agro-exportadores das lavouras de café de São Paulo em detrimento do restante
do país. O morro central desta batalha foi o do Menino Deus, mas o Santana não
deixou de sentir a vibração da guerra, o soar dos tiros e canhões que zuniam
pelos céus sulinos.
Sempre muito ocupados em desbravar o território colonial e “empreender”,
os fundadores da cidade não deram ouvidos ao nome indígena do rio (ou lago?)
“Guaíba”, que dá nome a este notável espelho d'água que banha a capital. O que
ele significa? Em Guarani, numa tradução livre, quer dizer “bacia de todas as
águas”; ou seja, bacia onde os rios do entorno escoam. Portanto, é uma região
alagadiça que precisa de espaço (e caso Porto Alegre venha a ser tomada pelas
águas num futuro nem tão distópico assim, o lugar que sobreviverá será, sem
dúvidas, o Morro Santana).
Os fundadores e administradores da cidade não aprenderam nem respeitaram
a linguagem dos rios: foram aterrando e criando grandes obras de engenharia e
de concreto, que tomaram os seus espaços e despejaram esgotos de diferentes
fontes que os deixaram “em coma”. Aí veio maio de 1941 que inundou todo o
centro da cidade, depois de inúmeras advertências naturais prévias. Foi a
primeira vez que vimos o mercado público — o mais antigo dentre as capitais
brasileiras — submerso e ilhado. Nos anos seguintes se construíram às pressas
muros e diques, mas serviram durante algum tempo e fizeram a prefeitura e a
população logo esquecer das suas dívidas para com o meio ambiente.
Muito tempo se passou. Inúmeras outras advertências foram dadas pela
natureza ao redor do mundo. A temperatura aumentou em todos os continentes e
aí, finalmente, chegou o ano de 2024, superando todas as enchentes antes vistas
por estas bandas!
É…
Porto Alegre tem histórias pra contar.
Sentindo uma dor
infinita pelas ruas que jamais passaremos, a cidade foi crescendo e criando
novas ruas e avenidas que Quintana nem em sonhos sonhou, apesar de ter tentado
examinar a anatomia do corpo. Até que, enfim, os prédios e as casas do centro
histórico se multiplicaram, tocando o grande morro e estendendo-se à, outrora,
Estância Grande, que por ainda “ter dono”, parece parada nos tempos coloniais.
O topo do morro mais alto da cidade — que ficou “espremido” entre o caminho do
meio e a RS-040 — ainda hoje resiste heroicamente ao avanço urbanístico
desordenado, predatório e especulativo.
O sistema de
transporte, um tanto caótico, vive para atender os interesses das famílias das
quais são propriedade. Surgiu todo ele da resistente Carris portoalegrense, que
ainda opera. Começando na época das carroças de boi, a empresa passou pela fase
dos bondes elétricos, chegou até à “modernidade” dos motores à combustão para
ser ameaçada de privatização no início do século XXI.
Desde os primórdios da
vida da cidade foi difícil chegar da “península ao morro”. O saudoso Apolinário
Porto Alegre buscava a cavalo os seus convidados, que geralmente eram obrigados
a pernoitar na Casa Branca, localizada onde hoje está o parque Marcos Rubin. Do
antigo casarão não sobrou nenhum vestígio material; só lembranças literárias.
Durante a metade do
século XX, atingir os “altos do Caminho do Meio” continuava sendo uma via
sacra: os bondes que percorriam a avenida do Bonfim, vindos do centro da
cidade, tinham o fim da linha nas proximidades da rua Ramiro Barcelos. A
seguir, se abria uma longa estrada de chão batido que subia a colina do
Petrópolis e se estendia até Viamão, passando pelo sopé do Morro Santana. Os
bondes não subiam essas colinas e morros, nem andavam pelas estradas de chão
batido.
Começava, assim, a era dos ônibus.
Agora, cabe perguntar
de forma um tanto enviesada: quando começará a era do metrô em Porto Alegre? Provavelmente
quando a população conseguir vencer o poderoso lobby das famílias
proprietárias das empresas de ônibus sobre a prefeitura. Para isso, será
necessário ter projeto próprio, popular, de cidade e de país — algo que ainda,
infelizmente, estamos longe —, além de vontade política e econômica, que parece
faltar...
***
Porto Alegre também foi
laboratório de 16 anos de governos petistas no final dos anos 90 e início dos
2000, antecipando o que aconteceria a nível nacional com os governos Lula e
Dilma. No entanto, como toda experiência social-democrata que chega a um impasse
que clama por ações mais enérgicas, ela ficou de ressaca, aproveitada pelas
forças políticas da direita que se assenhoraram da prefeitura e não mais a
largaram neste início de século XXI, transformando-a numa capital informal do
antipetismo e da resistência sociopática à mudança popular.
Sendo o palco de Fóruns Sociais Mundiais, que reuniu grande parte da
esquerda latino-americana, Porto Alegre demonstrou alguma vocação
internacional. Também pudera, geograficamente está mais próxima de Montevidéu e
de Buenos Aires do que de Brasília, Rio ou São Paulo.
Durante o século XX, novos bairros ricos se formaram e se consolidaram,
do alto Petrópolis até as adjacências da Nilo Peçanha, atingindo o ápice nas
proximidades do cruzamento com a Carlos Gomes. O Moinhos de Vento e a calçada
da fama tentam dar ares europeus em meio a um país de vergonhosos contrastes
sociais, além dos casarões que querem ter vista para o rio em Ipanema. Estes
são autênticos herdeiros de Jerônimo de Ornelas, para quem os pobres servem apenas
como lustradores de botas. Estes bairros crescem de costas para o povo; e assim
parecem querer ficar com a proliferação dos muros e grades por todos os lados.
E por acaso vocês não ficaram curiosos para saber qual foi o duelo que
envolveu um açoriano sem-terra e José Raimundo, o filho de Jerônimo de Ornelas,
quando da fundação do Porto dos Casais no século XVIII? Pois bem, ainda
que não tenham curiosidade vou lhes contar assim mesmo: o Brasil é um país
fundado sobre o latifúndio improdutivo, que dá status e poder para quem
o possui.
Certa manhã, do ano 1752 de nosso senhor, os peões de Jerônimo de
Ornelas perceberam do alto do Morro Santana que havia uma aglomeração de barcos
no Guaíba, além de muita fumaça.
Sim, eram os casais açorianos recém chegados!
O objetivo central do rei de Portugal era povoar as missões, no noroeste
do Estado, a pouco intercambiado com os espanhóis a partir do Tratado de Madri,
firmado em 1750; porém, em razão da resistência guaranítica houve uma mudança
de planos que redundou na fundação de Porto Alegre.
Como a Ilha dos Açores estava superpovoada, o rei decidiu enviar dezenas
de casais açorianos para ocupar e povoar a terra recém trocada com a coroa
espanhola pelo Uruguai. No entanto, quando seus barcos atingiram o Guaíba a
partir da Lagoa dos Patos, pensando que iriam seguir viagem pelo Rio Jacuí até
as missões, um mensageiro vindo na direção contrária lhes comunicou que os
índios não iriam sair das missões sem luta, o que resultou nas chamadas Guerras
Guaraníticas entre os índios missioneiros e o exército português e espanhol
unificados!
Sem saber o que fazer, os açorianos desembarcaram na península banhada
pelo Guaíba, onde hoje está o Gasômetro, mas que na época era chamado de Porto
do Dornelles por fazer parte da Sesmaria de Ornelas; e, sem saber que estavam
“invadindo uma propriedade privada”, estabeleceram um grande acampamento nas
terras do pai de José Raimundo, que, naturalmente, desceu o morro para tirar
satisfações.
Quando chegou, perguntou quem era o responsável pelo acampamento. Logo
apareceu um dos líderes. Os dois, então, entraram numa contenda que aumentou o
tom de voz até terminar em um duelo com um tiro à queima roupa e um corpo
estendido no chão.
Quem havia morrido?
Ora, só podia ser o açoriano sem-terra, assassinado sem dó nem piedade
por José Raimundo (algo que se repetiria muito no Brasil pelos séculos
vindouros). Como os açorianos tinham sido destacados pela própria coroa
portuguesa para estabelecerem um assentamento colonial no continente de São
Pedro, a situação de José Raimundo e de Jerônimo de Ornelas logo ficou bastante
complicada, levando-os a vender a Sesmaria por volta de 1764 para outro
fidalgo. A descomunal propriedade de Ornelas finalmente seria desapropriada
pela coroa portuguesa para a edificação da nova cidade somente em 1772.
Eis como Porto Alegre foi fundada: um conflito por terra em um país de
sem-terras!
Mas pulemos do século XVIII para o final do século XIX, quando a cidade
começou a se estender da península dos açorianos até Viamão…
A partir de 1897, a cobrança de décimas (o chamado imposto
predial) no centro histórico expulsa a população pobre para as regiões mais
afastadas. Novos bairros se formam. Muitos deles sem a menor infraestrutura. As
construções no sopé do Morro Santana começam a subir ao longo de todo o século
XX. Formam-se, assim, pequenas favelas, entremeadas por bairros de classe
média, condomínios fechados e um amontoado de residências.
O alto do Morro Santana ainda hoje resiste ao avanço urbanístico
desordenado e especulativo. Sua área é considerada de preservação ambiental,
sendo hoje de propriedade da Universidade Federal. No entanto, ela possui um
guardião especial, que fez parte deste movimento popular que foi obrigado a se
deslocar para as regiões mais afastadas do centro histórico.
Ele pode ser considerado o defensor do que talvez seja a última floresta
da cidade.
Jornal do Movimento em Defesa das Matas Nativas de Porto Alegre
Número 7 - abril de 2025 - Editorial
por Ramiro Albuquerque
Desde que a
especulação imobiliária tomou o controle da prefeitura de Porto Alegre, e não
soltou mais, que o meio ambiente vem sendo ameaçado!
Inúmeros são os bairros
que tiveram suas matas nativas colocadas abaixo em prol da construção de
megaempreendimentos, como condomínios fechados, shoppings e supermercados. Não
apenas pobres moradores foram obrigados a se deslocar dos territórios que são
ocupados indiscriminadamente, mas faunas inteiras, sem nenhum tipo de
preocupação social ou ambiental.
Entre as principais
patrocinadoras desse verdadeiro ecosuicídio estão as empresas Goldstein,
Melnick e a rede de supermercados Zaffari, conhecidas dos gaúchos pela sua boa
auto-propaganda.
A bola da vez é a
floresta do Sabará, que está ameaçada de destruição por parte dessas empresas,
cujo objetivo é construir um condomínio de luxo para poucos endinheirados. Elas
têm as bênçãos da prefeitura que, ao que tudo indica, é tão irresponsável
quanto elas.
O resultado é o aumento assustador do calor e da temperatura da cidade.
A prefeitura e os empresários estão transformando Porto Alegre em uma terrível
ilha de calor sob os olhares atônitos e complacentes da maioria da população.
Como se tudo isso não
bastasse, um vereador que atende pelo nome de José Sangallo, do Partido
Liberal, autointitulado “conservador de verdade”, pretende colocar suas mãos
gananciosas sobre a última floresta da cidade, localizada no alto do Morro
Santana.
O que significa ser “conservador de verdade”? Trabalhar pelos interesses
dos ricos e endinheirados, para que eles possam, livremente, comprar, vender e
destruir o meio ambiente, que é de todos, ao seu bel prazer?
Pois é o que nos
parece.
Por isso, toda a comunidade universitária, os moradores do Morro
Santana e a população de Porto Alegre devem ficar atentos contra os lobos em
pele de cordeiro que trabalham pelos seus próprios interesses disfarçados de
“interesses do povo, da moral e dos bons costumes”, como se ser conservador e
só cantar a canção dos empresários fosse alguma virtude.
Foi por esta e outras
razões que fundamos este movimento de defesa das matas nativas de Porto Alegre
e o seu porta-voz, que é o jornal que você, leitor ou leitora, têm em
mãos.
Neste número 7 trazemos uma reportagem incrível da professora do
departamento de geologia da nossa universidade sobre a riqueza do que é ter e
conservar o nosso Morro Santana, além de uma entrevista exclusiva com um
morador histórico do seu cume.
Não deixem de
conferir.
Boa leitura!
O defensor da última floresta da cidade
Dom Horácio não era
cristão.
Sua religião era fruto
de um sincretismo tipicamente brasileiro. No alto dos seus 71 anos de idade,
ele já havia aprendido a mesclar várias espiritualidades: ia de uma espécie
muito genérica de cristianismo até as religiões de matriz africana, passando
pelas orientais — por influência da mulher — e as indígenas, por vivência
própria no meio da natureza do morro, até desembocar numa versão muito peculiar
de espiritismo.
Evidentemente, ele não
tinha lido toda a Bíblia, mas guardava de memória alguns trechos que conhecia
bem por alguma razão que desconhecia.
Enquanto capinava a
entrada do seu rancho, no alto do Morro Santana, ouvia a força do vento soprar
e ir curvando a copa dos pinus ao redor, enquanto lembrava, não sabia bem o
porquê, da passagem do Eclesiastes, 1:4-6:
“Uma geração vai, e outra geração vem; mas a terra para sempre
permanece. E nasce o sol, e põe-se o sol, e volta ao seu lugar, de onde nasceu.
O vento vai para o sul e faz o seu giro para o norte; continuamente vai girando
o vento e volta fazendo os seus circuitos”.
De repente parou de
capinar. Colocou as mãos sobre o cabo da enxada.
O trecho era sem dúvida
profético, com visíveis toques de poesia.
Talvez fosse a menção
ao vento!
Morar em cima do morro, no ponto mais alto de Porto Alegre, é o mesmo
que conviver permanentemente com o vento.
Quantas tormentas ele,
sua família e todas aquelas árvores não tinham sido obrigados a suportar,
embora estivessem vivos, plenos e exuberantes. E quanto mais ventania
enfrentavam, mais fortes se tornavam! Quantas telhas o vento não arrancou dos
vizinhos que moravam nas vilas mais abaixo? Quantas noites de sono ele não
ninou, com suas idas e vindas sobre as copas das árvores, lembrando os sons do mar,
fazendo acalmar a mente mais irrequieta de suas crianças de colo?
Ou, então, seria a
menção às gerações?
Os filhos haviam ido
embora de casa, um a um. Era realmente difícil suportar aquela vida campestre e
interiorana surreal dentro da capital, numa solidão quase total. Pensou por um
instante em como estariam. Sentiu um misto de alegria, orgulho e tristeza.
Antes que os
pensamentos melancólicos pudessem paralisar sua vontade, pôs-se novamente a
capinar — “trabalho é remédio; trabalho é um grande psicólogo!” — pensava
consigo mesmo sempre que um sentimento amoroso vinha amolecer o seu coração.
Quando trabalhava
também se convencia de que pensava melhor.
O que permanece, afinal de contas? Recolocou as mãos sobre a enxada
novamente e coçou a cabeça.
A terra!
Claro!
Só pode ser a terra!
Dom Horácio era como
uma semente que fora plantada no alto daquele morro. E germinara!
Sim… e como!
Agora, depois de velho, depois de ter construído três casas de tijolos e
argamassa no alto do Morro Santana, depois de ter plantado uma infinidade de
árvores frutíferas e plantas, não podia simplesmente sair de lá. Era já um
tronco grande e frondoso, que, apesar de neste momento estar um pouco
desfolhado, tinha dado muitos frutos. Toda esta saga lhe deixara irremediavelmente
preso àquela terra que amava com todo o seu coração, com todo o seu ser.
A chave é a terra!
Ela é o que permanece!
Por isso sentiu-se
orgulhoso de ter permanecido nela por tantos anos; tê-la defendido de ataques,
das crises familiares que falavam para mudar-se e abandoná-la; de ser ele
próprio a encarnação da resistência à cidade, que é caótica, desordenada e
gananciosa.
Não! Aquela terra era
sua, dos seus filhos, da sua geração e daquela que viria, e estava orgulhoso e
satisfeito de tê-la defendido tão lealmente.
Ademais, tinha criado
ali seus filhos, além de muitos cachorros, construído e produzido diversas
coisas, plantado inúmeras árvores e alimentado distintos animais silvestres que
o visitavam periodicamente, como os bandos de macacos e aves exóticas que ainda
habitam o alto do morro.
Enquanto o “mundo lá embaixo” era um caos de concreto e ganância,
fervendo em meio ao asfalto que não parava nunca de se expandir por todos os
lados, em meio aos assaltos, brigas de trânsito, homicídios, lixões e esgotos a
céu aberto, e a diversos tipos de venenos agrotóxicos que eram expostos nas
prateleiras dos supermercados cada vez mais caros e excludentes, Dom Horário
sentia-se realizado em saber que contribuía com a sua humilde parcela para a
preservação do meio ambiente… e, especialmente, com a preservação da última
floresta da cidade de Porto Alegre, que se situa bem no alto do Morro Santana,
no entorno e dentro do seu rancho.
Era a perfeita
encarnação de Policarpo Quaresma, embora estivesse muito longe do Rio de
Janeiro e da atual capital federal. Não fazia a menor ideia de quem era este
personagem icônico da literatura brasileira e do quanto se parecia com ele, já
que nunca tinha lido uma página de Lima Barreto. De qualquer forma, Dom Horácio
tinha as suas leituras de mundo, aprendidas nas universidades da vida e da
convivência com a natureza, que lhe serviram para que desenvolvesse a sua forma
peculiar de nacionalismo, na defesa do seu próprio rancho.
Era uma pena que os
filhos e a mulher não tenham entendido plenamente o seu papel no mundo —
pensava ele ao dar os últimos golpes num tufo de capim que ainda resistia num
canto da porteira de entrada do rancho, enquanto era observado pelos três
cachorros que lhe restaram como companhia, Orum, Pimentinha e Hera, todos cruza
de vira-latas com alguma raça que não se podia mais identificar, geralmente
abandonados nas redondezas do morro por antigos donos desalmados.
— A que horas este
rapaz vai chegar? — perguntou, por fim, de si para si mesmo, em pensamentos, já
um pouco aflito, uma vez que não estava acostumado a receber visitas.
Olhou perdidamente para
a grande vista que enchia seus olhos e o coração bem na frente do portão de
entrada do rancho. Depois lançou um olhar para os três cães, que o retribuíram
com as caudas balançantes, procurando se lembrar se havia dado comida a eles
por volta do meio-dia.
Dali onde estava
fazendo esse “servicinho corriqueiro” na entrada do rancho, podia vislumbrar o
centro de Porto Alegre com inúmeros prédios acinzentados em desnível, a cúpula
da catedral metropolitana e toda uma gama de construções assimétricas que se
estendiam pela zona norte e leste; um pouco mais no meio deste cenário dava pra
ver partes do aeroporto Salgado Filho, a estrutura anelar da Arena do Grêmio,
algumas casas que configuram bairros residenciais e uma grande zona verde, por
onde passa a BR-290 que separa Porto Alegre de Canoas, Cachoeirinha e Gravataí.
Ao fundo de tudo isso se podia enxergar nesgas reluzentes em tons alaranjados
do Guaíba refletindo o sol, sendo cortado pela grande ponte que se estende pela
Ilha das Flores até Eldorado do Sul. Partes deste cenário eram eclipsadas por
tufos de capim, pedras e alguns pinus que também davam sua contribuição de
beleza para o conjunto da vista, mas que acabavam escondendo parte de alguns
bairros da zona norte.
Como a cidade havia
mudado desde o tempo de Jerônimo de Ornelas até o século XXI! As construções
humanas tomaram praticamente todo o território, solapando os espaços de matas e
rios. Mesmo crescendo de forma desordenada e perigosa, tais construções
formatavam uma vista com sua beleza peculiar.
O embrutecimento de uma
vida campeira em cima do morro transmutava-se, inevitavelmente, em calos nas
mãos, dores nas costas e numa segunda pele que era uma autêntica casca grossa,
dada não só pelo trabalho árduo, mas pela vida. No entanto, contemplar esta
vista, metade natureza, metade construção humana, não deixava de enternecer Dom
Horácio. A beleza disso tudo falava diretamente à sua alma e fazia a vida valer
a pena.
À noite, o cenário se transformava ainda mais: diversos pontos luminosos
brancos, amarelos e laranjas se espalhavam por todos os lados, uns em linha
reta, como as ruas e avenidas; os outros de forma concêntrica ou irregular.
Volta e meia subiam sons de carros, buzinas ou músicas a todo volume; e a cada
instante podia-se sentir uma intensa vibração, como se fosse a aura pulsante da
cidade.
Incontáveis foram as noites em que Dom Horácio colocou sua cadeira de
praia nas pedras de fronte ao seu rancho e ficou observando o tilintar das
estrelas e o nascer da Lua ou do Sol, seja na companhia da ex-mulher, de um dos
filhos, dos cachorros ou mesmo sozinho.
As noites de Lua cheia eram um espetáculo à parte.
Seus tons prateados primeiro se escondiam atrás dos pinus, para depois
emergirem majestosos no céu, iluminando parte do terreno do rancho de Dom
Horácio e dando um tom poético para a vista do pico mais alto da cidade.
Ele sabia exatamente onde estava o sul, o norte, o leste e o oeste a
partir das construções do seu rancho. A janela do seu quarto dava para o oeste.
A porta da cozinha, que ficava nos fundos, para o sul. Ele também aprendeu a
reconhecer os tipos de vento e as nuvens de chuva. Tudo de forma natural e
empírica. Seria capaz de acertar a previsão do tempo mais do que o noticiário
da TV, com quem mantinha bons diálogos, brigas e troças em razão dos
recorrentes erros.
Já passavam das 4h da
tarde. Logo a noite começaria a cair e, então, a estrada principal ou a trilha
da pedreira ficariam muito escuras e perigosas. A que horas esse rapaz maluco
chegaria?
Porto Alegre tinha se
transformado em uma grande cidade. Mas a que preço? Passou por diversos
aterros, sufocando e adoecendo seus rios e córregos, o que redundou em
dramáticas inundações. Tinha desmatado também boa parte de sua mata nativa,
transformando a cidade numa ilha de calor insuportável nos meses de verão. As
matas que ainda sobrevivem estavam na mira insaciável das grandes empresas,
construtoras e supermercados. Em cima do morro podia-se perceber a diferença de
uma área que ainda mantinha-se cercada por florestas que concentram umidade.
Ali podia-se sentir uma diferença de 2 ou 3 graus centígrados a menos do que no
asfalto.
Como parte de um
movimento de preservação, Ramiro Albuquerque era um jovem universitário
preocupado com o aquecimento global e os sintomas de esgotamento que a natureza
já dava mostras em Porto Alegre. Ficou sabendo da existência de Dom Horácio por
uma de suas filhas, que conheceu nos movimentos sociais da universidade. Certa
vez conversou com ele num evento de uma rádio comunitária do bairro e
milagrosamente tinha conseguido cair nas graças do velho, que gosta da
companhia dos bichos, mas desconfia de todo e qualquer ser humano de fora do
seu círculo familiar.
Com Ramiro talvez tenha acontecido essa história que a sua ex-mulher
tanto falava de o “santo bater”.
O “santo” de Dom Horácio tinha batido, por alguma razão ignorada, com o
“santo” do rapaz. Quando este solicitou um encontro para uma entrevista ao
jornal do movimento, apesar da hesitação inicial, Dom Horácio cedeu.
É claro… não sem a decisiva interferência da filha.
Jornal do Movimento em Defesa das Matas Nativas de Porto Alegre
Preservar a flora e a fauna do Morro Santana é preservar a vida na
cidade de Porto Alegre
Professora Maria Thereza de Assis Meier
O Morro Santana tem uma área aproximada de 1000 hectares, das quais
cerca de 600 hectares pertencem à universidade. Atualmente vivemos o drama da
pressão exercida pelo crescimento urbano regular e irregular, o que ameaça a
integridade do seu ambiente natural com grande diversidade biológica
(ocorrência de espécies de animais e de vegetais provenientes de diferentes
partes da América do Sul). A paisagem é moldada pela complexidade
geomorfológica, o que cria diversas situações microclimáticas diferentes. Esta
grande diversidade, em escala de paisagem, sustenta a multiplicidade biológica
e proporciona um cenário fértil para investigações técnicas, científicas e
humanas.
O Morro Santana é o morro mais alto de Porto Alegre, com 311 m, e está
situado a uma distância de 12 km do centro urbano da capital do Rio Grande do
Sul. É um importante depósito da biodiversidade, tendo em vista que a cobertura
vegetal nativa integra os Biomas Mata Atlântica e Pampa. Abriga representantes
da flora, ameaçados de extinção como a canela-preta, o butiá e a figueira, além
de outras espécies de campo, bem como representantes de fauna nativa ainda
pouco estudados, sendo alguns ameaçados de extinção, como o graxaim-do-mato, o
mão-pelada, o ouriço-caxeiro e o sabiá-cica. O Morro Santana também é
território para aves migratórias e limite de distribuição norte de espécies da
flora dos campos sulinos. Inúmeras espécies existentes no morro podem ser
interessantes para estudos genéticos, bioquímicos e de biologia molecular,
sendo um excelente ambiente para desenvolver atividades de Educação Ambiental.
Seria muito importante que o poder público e a universidade, em comum
acordo, transformassem o Morro Santana em uma Unidade de Conservação (UC)
permanente.
Ao se criar uma UC, procurar-se-ia preservar a natureza, recuperar
ambientes naturais, restabelecer benefícios às atuais e futuras gerações,
mantendo a integridade ecológica, o potencial de satisfazer as necessidades
humanas fundamentais e a sobrevivência dos seres vivos em geral. Essas áreas
naturais dentro de zonas urbanas formam ilhas de frescor que auxiliam na
manutenção da umidade relativa do ar e contribuem para o desenvolvimento
urbano, através de uma melhor qualidade do ar e de vida para a população,
principalmente, aos moradores do entorno. Estabelecem refúgios e corredores
naturais para a fauna e flora nativas, permitindo a manutenção da
biodiversidade dos organismos.
Destruir esta UC
indiscriminadamente em nome da especulação imobiliária, tal como tem feito a
prefeitura de Porto Alegre ao longo dos anos, não é apenas um crime, mas um
genocídio ecológico, dado que tais espaços biológicos são insubstituíveis,
ainda mais em uma cidade que tem tido verões cada vez mais severos, seguido por
enchentes e alagamentos. É por isso que devemos saudar calorosamente o
surgimento e a atuação de movimentos ecológicos como o que publica este jornal.
Vida longa ao Movimento
em Defesa das Matas Nativas de Porto Alegre!
O defensor da última floresta da cidade
Ao chegar no rancho de Dom Horácio, Ramiro ficou observando o ancião de
cabelos e barbas brancas abrir o portão de ferro, com grossas camadas de
ferrugem na barra que unia uma ponta à outra. Não fazia frio naquele dia, por
isso Ramiro usava bermuda e uma camiseta branca de algodão que estampava o
logotipo do movimento em que militava.
— Que demora, rapaz, por onde você subiu? — perguntou de forma quase
inaudível Dom Horácio em razão dos latidos incessantes dos cães para o
forasteiro.
— Pela trilha da
pedreira — respondeu Ramiro.
— Você não bate muito
bem da cabeça. Sabia que quando o dia é quente, como hoje, as cobras e as
aranhas saem dos ninhos?
Ramiro pareceu não dar
muita bola e observou logo a grande construção de 2 andares de tijolos à vista
que desponta assim que se passa a porteira e o corredor verde de pinus da parte
interior do rancho. Ao perceber que o jovem contemplava a construção, com um
misto de espanto e admiração, Dom Horácio declarou:
— Eu e minha família
construímos.
— Nossa! — exclamou
Ramiro, boquiaberto.
O terreno do rancho de Dom Horácio era grande para uma família; isto é,
se o compararmos à realidade das famílias brasileiras em geral. Situado bem no
topo do morro, próximo ao ponto mais alto da cidade, era delimitado por uma
cerca de arame farpado, unidas por troncos cortados de pinus. Também tinha sido
construída por Dom Horácio e seus filhos, com a decisiva ajuda da ex-esposa.
A cerca dava a volta na metade do terreno, que, mesmo incompleta,
acabava sendo complementada e guarnecida a leste e a sul pela natureza
selvagem. À leste, por uma pequena floresta de pinus de muito difícil acesso a
pé; ao sul, por uma floresta de diversos tipos de árvores, com uma vegetação
rasteira de cactus e plantas de espinho que foram crescendo ao sabor do próprio
acaso, além da limitação natural de um pequeno lago que se forma no inverno e
escoa durante todo o verão até secar, se transformando em uma pequena sanga que
deságua na vila próxima à avenida Antônio de Carvalho.
O rancho de Dom Horácio tinha um pouco menos de 1 hectare. Era grande o
suficiente para ter 3 construções: todas casas que ele foi construindo e
abandonando na medida que ia conseguindo reunir material para construções
melhores e “mais modernas”. A primeira casa, que foi erguida por ele e a
mulher, terminou abandonada por ser pequena à medida que os filhos nasciam,
transformando-se numa pequena oficina onde Dom Horácio preparava os materiais,
soldava, cortava madeiras, guardava a grande betoneira e a maioria dos seus
instrumentos de trabalho. A segunda era uma casa de madeira, erguida ao sul do
terreno, próximo à pequena floresta natural, tinha 3 quartos e foi aumentada
anos mais tarde para abrigar os caçulas. Com o passar do tempo se deteriorou e,
embora ainda estivesse em bom estado, foi abandonada em prol da sua utilização
como depósito e armazém de água, comida, mantimentos e lenha. Entre a primeira
e a segunda casa, a oeste, ficava a pequena casinha utilizada por Dom Horácio
como Apiário, onde produzia sozinho — e de forma admirável — um mel preto de
formidável qualidade.
A terceira e última casa era a que Ramiro tinha se admirado. De concreto
e tijolo à vista, era firme e compacta. Mais parecia uma pequena fortaleza
militar, quadrangular, capaz até mesmo de resistir ao ataque de hordas
medievais.
Dom Horácio além de metalúrgico, pedreiro, apicultor, engenheiro e
arquiteto — todas exercidas de maneira informal, mas não menos profissional —,
era também perito em segurança. Já havia trabalhado como agente de banco e de
pequenas empresas. Possuía em casa duas armas com que pretendia defender a si
mesmo e a sua família, já que considerava, com razão, a segurança pública
brasileira caótica e repleta de agentes policiais envolvidos nos mais diversos
tipos de maracutaias. Do alto da casa de dois andares tinha uma vista
privilegiada de todo o terreno, com nesgas da cidade de Porto Alegre nos vãos
entre os pinus, além da entrada do rancho e do telhado das outras duas casas.
Era um ponto privilegiado para atirar e resistir, se necessário fosse.
— Aqui em cima temos
que estar preparados pra tudo — ele sempre dizia para os poucos visitantes que
eram autorizados a entrar no seu rancho.
— Olhe o caso do
vizinho aqui do lado — dizia Dom Horácio para Ramiro apontando para o oeste, enquanto
juntava duas cadeiras de praia para que pudessem se sentar na entrada da casa
de tijolo à vista e iniciar a entrevista —, foram atacados por gente que vem lá
de baixo e sabe-se lá o que querem aqui em cima. Só bandalheira e coisa ruim!
Temos que estar prontos para nos defender, nossa casa, nossa família e, também,
o morro. Se deixar, eles tomam conta e destroem tudo.
O rancho de Dom Horácio
tinha apenas dois vizinhos: os chamados “Pedros”. Um, que também possuía um
pequeno rancho a cerca de 500 metros seguindo pela estrada principal de chão
batido e morava lá com a família; e o outro, que era o caseiro da sede
campestre de uma associação de pais e mestres de uma escola particular,
localizada um pouco mais acima da pedreira. Fora esses dois vizinhos, Dom
Horácio vivia num silêncio quase absoluto, ouvindo o canto dos pássaros e o
farfalhar das árvores como trilha sonora do seu cotidiano. Uma ou duas vezes
nos finais de semana explodia o ruído das motos que subiam e desciam pela
estrada principal praticando motocross, além dos aventureiros, que aproveitando
o domingo, subiam para fazer trilhas e contemplar a vista mais bonita da
cidade, mas que, segundo Dom Horácio, “infelizmente emporcalhavam tudo”, se
referindo a quantidade de lixo que deixavam atrás de si.
Os três cachorros de
Dom Horácio, que se sentaram aos pés do entrevistado, eram a campainha do
rancho. Hera, uma cadela preta e sarnenta que fora adotada pela família, ao
ouvir o menor ruído, saía correndo para o portão, latindo atrás das motos ou de
qualquer trilheiro que passasse caminhando pela estrada principal, no que era
seguida por Orum e Pimentinha. Nas noites frias de inverno, em que a casa é
tomada por uma terrível umidade, Orum passava horas latindo para o nada, como
se quisesse proteger a casa e os seus donos de algo desconhecido. Dom Horácio e
os filhos não entendiam bem os motivos caninos, mas se alertavam para que algo
poderia estar acontecendo no entorno do rancho. Pensavam ainda que os cães
faziam isso, em última análise, para se esquentar do frio nas noites úmidas de
inverno. Quem, na verdade, sabe porque eles latem tanto?
Até que percebessem que
Ramiro era um estranho autorizado por Dom Horácio, os três cachorros foram
latindo desde o portão até o momento em que os dois finalmente se sentaram na
varanda de entrada da casa de tijolos à vista.
Na calada da noite
Hera se atirou num
canto debaixo da escada que dava para o segundo andar da casa de Dom Horácio e
começou a se coçar. Ela estava com uma grande parte do seu lombo tomado pela
sarna. Orum ficou próximo dela, lambendo suas feridas e dando pequenas
mordiscadas no seu pescoço. Ele já era um veterano; um autêntico sobrevivente
de várias gerações de cachorros que haviam passado pelo rancho.
Orum conhecia bem os passos da morte e sentia um frio na espinha quando
ela se aproximava — talvez por isso fosse tão longevo. O focinho repleto de
pelos brancos, que também apareciam aos tufos nas pontas das patas, denunciava,
de certo modo, a sua “idade avançada”, embora isso não preocupe tanto os cães
quanto aos humanos. Podia-se facilmente confundi-lo com uma raposa — uma raposa
velha!
No início do outono daquele ano, algumas semanas antes da entrevista com
Ramiro, os cães intuíam que alguma coisa ruim poderia acontecer novamente, por
isso estavam empolvorosos e mais atentos do que nunca.
Pimentinha recém tinha voltado da sua guarda noturna no portão de
entrada, quando também aproveitava para fazer cocô sossegadamente. Enquanto
Hera se coçava e Orum lhe lambia, nem deu pelos dois. Foi direto nas cumbucas
procurar alguma comida, mas não encontrou nem sinal dos restos de ração. Acabou
se contentando com o pote de água. Bebeu com vontade, molhando a terra ao redor
e se lambendo como quem se entrega com pureza às pequenas necessidades da vida.
Aquele inverno estava
prometendo ser severo. Orum sabia que não tardaria para que ela voltasse a
aparecer e tentasse levar mais alguém da família. Certamente rondaria o dono,
que já caminhava mais devagar que o de costume e também exalava um cheiro diferente.
Como guardiões que eram, deveriam redobrar a vigilância.
Escutaram um ruído
vindo da floresta de pinus, a leste.
Pimentinha começou a
rosnar de leve. Hera parou de se coçar, levantou as orelhas e perguntou para
Orum:
— É ela?
— Acho que não — respondeu
o cão se pondo de pé, com o focinho preparado para captar algum cheiro pelo ar.
Do segundo andar da
casa ouviam-se passos leves e um pequeno chiado da televisão que estava quase
sempre ligada naquele horário.
De repente, Hera escuta
algum barulho estranho próximo à porteira e sai correndo latindo. Orum e
Pimentinha não perdem tempo e vão atrás. Nessas ocasiões, Dom Horácio sempre
ficava de sobreaviso e se colocava de espreita na janela dianteira, fumê e bem
posicionada, procurando observar o possível movimento estranho. Foi o que ele
fez durante alguns minutos. Ao não perceber nada, voltou para o sofá e para a
sua televisão.
Orum ainda sentia que
da última vez que relaxaram na vigília, a morte levou a filhote, a fiel
escudeira de Hera, que ficou insepulta, ao léu, em algum rincão perdido desse
morro. Não poderiam vacilar novamente, pois ela era implacável. Começaram a
latir sem parar por alguns minutos, já que ela sempre aparecia na calada da
noite e em silêncio, por isso era tão importante ladrar para todo mundo
ouvir.
Como nada se manifestou, pararam.
— Pior ainda se não
percebermos e ela levar o nosso dono — disse Orum, um pouco abatido.
Sabe-se lá se encontrariam um novo dono. O mais provável é que sofreriam
com muitas misérias novamente, como pontapés, sede e fome. Ao menor ruído,
voltavam a rosnar, sem saber ao certo para que lado deveriam latir.
— Ela está insaciável —
lamentou-se Hera através de um choro fininho e tortuoso — Há um tempo atrás ela
levou a moça e o moço que nos davam comida e agora há pouco tempo levou também
a mulher, que sempre cuidou de nós.
— Não foi ela —
respondeu Orum.
— Não?
— Não. Estão todos
vivos em algum lugar, longe daqui.
Como a noite seguia
misteriosamente silenciosa e calma, apesar de um pouco fria, decidiram ir para
junto da escada por onde o dono subia todas as noites, como que querendo
resguardá-lo. Por hora conseguiram deitar na palha meio úmida, bem embaixo da
escada, e descansar por um breve momento.
Um bom tempo passou
onde só se podia ouvir o farfalhar das folhas nas copas dos pinus e o leve
chiado da televisão ligada de Dom Horácio.
De repente Orum se
colocou de pé e começou a correr rosnando em direção à cerca que dava para a
floresta de pinus. Latiu sem parar.
As duas cadelas
seguiram-no e também começaram a latir. Já era alta madrugada e a Lua prateada
iluminava o céu, junto com a fraca luz que vinha da porta de entrada da
cozinha, na parte dos fundos.
— O que foi? É ela? —
perguntou Hera, preocupada.
— Sim! — respondeu
Orum, com os pelos eriçados — Não há dúvidas!
Os cachorros sentiram,
então, com mais intensidade a possibilidade real de mudança de dono. No exato
local em que estavam começaram a chorar em coro, como se um contagiasse o
outro. Depois de uns 10 minutos deste coro tortuoso, Orum parou de ganir
fininho e começou a rosnar grosso, puxando do fundo do peito o máximo de
coragem de que ainda era capaz. Se pôs de prontidão e saiu correndo, sendo seguido
pelas cadelas.
Transpuseram a porteira
de ferro pelo canto da cerca de arame farpado e tomaram a estrada de chão
batido. Correram por alguns metros e pararam em cima de uma das pedras que dava
uma possibilidade esplêndida de cheirar o vento.
— Está sentindo? —
perguntou Hera.
— Sim! — respondeu Orum
— É sangue. Ela está levando alguém não muito longe daqui. Acho que é um homem.
Não! São dois…
Pimentinha e Hera se
puseram a latir. Orum parou. Ficou com a patinha arqueada, em prontidão para o
ataque.
O vento parou de soprar
e tudo caiu no mais profundo silêncio novamente. Só o breu da escuridão,
iluminado parcamente pela Lua que agora estava um pouco embrenhada em nuvens
cinzas. Grilos cricrilavam um pouco mais abaixo da estrada de terra.
— Ela nos enganou para
nos pegar pelas costas — rosnou Orum. E se pôs a correr de volta para o rancho.
Passaram como uma flecha por debaixo da cerca, venceram o pequeno corredor de
pinus e atingiram o pátio de dentro, que dava para a floresta e a vegetação bem
ao lado do rancho. Pimentinha ainda teve tempo de dar mais alguns latidos.
Orum parou com as
orelhas em pé, fungando o que vinha de dentro da pequena floresta. A duas
cadelas também levantaram as orelhas e os respectivos focinhos para tentar
entender o que se passava naquele breu. Uma batalha se processava ali, sem
sombra de dúvidas. Todos entenderam instantaneamente. Os cães se arquearam, com
os pelos eriçados e se puseram a latir, enfurecidos, para a morte, que se
aproximava.
Estava logo ali, determinada a buscar alguém. Dava para sentir.
— Ela pegou algo! —
disse Orum mais para si mesmo do que para as cadelas. Pimentinha latia,
ensandecidamente.
De repente o silêncio se fez novamente. Só se ouviam grilos no mato da
estrada de terra e o vento. Os três cachorros começaram a fungar o ar e
aguçaram ao máximo os ouvidos arqueados, tentando entender o que se passava no
interior da relva. Subitamente as orelhas de Orum baixaram.
— Foi uma caranguejeira — anunciou o cão para as outras duas — Ela pegou
um rato!
Hera bufou, aliviada. Imediatamente se pôs sentada e começou a coçar as
estrias sarnentas, que pediam atenção já há algum tempo.
Daquele momento em diante os cães ficaram levemente aliviados. Voltaram
para baixo da escada e se empoleiraram um sobre os outros para se esquentar. A
morte, que devia procurar o dono ou um deles, haveria de se contentar naquela
noite com aqueles dois homens distantes e o rato.
A partir dali conseguiram dormir e se esquentar, quietos, até os
primeiros raios de sol da manhã seguinte.
Jornal do Movimento em Defesa das Matas Nativas de Porto Alegre
A retomada Guarani-Charrua no Morro Santana
Por Ramiro Albuquerque
Nesta edição número 7
do nosso jornal, dedicado especialmente ao Morro Santana, não poderíamos deixar
de fazer um debate especial sobre um movimento de suma importância desta
região. Trata-se de um justo reconhecimento aos habitantes ancestrais deste país:
os indígenas!
Eles são os verdadeiros
donos dessas terras, não apenas porque já estavam aqui antes da invasão
europeia, mas porque eles são os verdadeiros guardiões da natureza. A sua
existência social não está em contradição com a preservação do meio ambiente,
como é o caso do homem branco europeu, que o ameaça a cada passo que dá para a
manutenção e desenvolvimento de sua “civilização”.
Ninguém melhor do que
os índios para nos ensinar como entrar em harmonia com a natureza. Eles são
como as células saudáveis, que mantêm o tecido da ecologia em uma vida
harmoniosa; a maioria dos homens brancos tem agido como células cancerígenas,
que adoecem e matam o meio ambiente na medida que os empreendimentos econômicos
de sua civilização avançam descontroladamente. Talvez pudéssemos vivenciar uma
cura se as células cancerígenas parassem de se proliferar egoisticamente e
procurassem sinceramente aprender com as células saudáveis, retomando as boas
práticas das origens.
Eis que em meio ao
avanço desordenado da urbanização de Porto Alegre, geralmente amparado pelos
poderes públicos, dando guarida e justificativa para os piores crimes
ambientais em nome do “progresso”, surge a voz dos Guarani-Charrua, que
reclamam o seu território ancestral no Morro Santana. Ainda é um aldeamento
pequeno, mas o seu grito troante se faz sentir num momento em que vemos o
aquecimento global redundar em aumento da temperatura do planeta, dos vendavais
e das enchentes que destroem a vida de inúmeras pessoas comuns.
Os Guarani-Charrua
reclamam uma terra que é sua; um verdadeiro ato de justiça histórica que todos
os portoalegrenses precisam apoiar! Uma reparação que tem consequências
positivas não apenas para a sua cultura ancestral, mas para toda a sociedade
gaúcha, uma vez que podem contribuir decisivamente para a preservação ambiental
e a regeneração de todo um ecossistema ameaçado de extinção.
Garantir que eles
tenham acesso às suas terras e o reconhecimento dos governos é a nossa chance
de futuro. Eles têm muito a nos ensinar e nós, a aprender…
Palavras finais do defensor da última floresta da cidade
Dom Horácio tinha recém
sido deixado pela mulher, que foi o último bastião antes de sua solidão total e
completa em cima do morro. Se adaptar a uma vida rural e rústica, em meio à
cidade, e cheia de privações, foi realmente muito difícil para ela, que
conseguiu suportá-la enquanto tinham filhos para criar em comum e, também,
enquanto a ansiedade juvenil de ter rompido prematuramente com os pais
encontrava guarida no casamento com um homem muito mais velho. Mas, como tudo
muda nessa roda da vida em que estamos, a situação inescapavelmente mudou…
Os filhos cresceram e
foram saindo, um a um, às vezes brigados, às vezes em paz.
Quando a filha caçula conseguiu um emprego e criou as condições para ir
embora, finalmente Dom Horácio e a esposa ficaram totalmente sozinhos. Frente a
frente, então, tiveram que encarar a difícil situação em que o matrimônio de
décadas se encontrava. Dom Horácio, totalmente absorvido pelo trabalho diário e
a obsessão com a defesa do rancho — às vezes real, às vezes imaginária —, não
tinha se apercebido do quão desgastado e carente de medidas positivas o
casamento estava; nem o quanto ambos tinham deixado de cumprir ao longo desta
jornada.
A fonte havia secado!
Em toda a vida conjugal ele nunca recebeu uma única visita — das poucas
que frequentavam o rancho — sem que a sua mulher estivesse em casa, portanto,
não criaram relações independentes e saudáveis com outras pessoas. Não podemos
considerá-lo um homem machista, apesar de que muito dessa “cultura” vivia um
pouco nele. O fato é que Dom Horácio não sabia como proceder com outras pessoas
sem o escudo da presença de sua ex-esposa.
— Sabe como é, a mulher
não está mais em casa e os dias têm sido mais longos para mim — justificou-se a
Ramiro, sem que este lhe tivesse perguntado qualquer coisa e, também, sem que o
jovem entendesse nada sobre aquela explicação aparentemente gratuita, enquanto
ambos se acomodavam nas cadeiras de praia que ele tinha deixado na frente de
casa.
Sim, Dom Horácio se referia à esposa como “mulher”, aos filhos como
“filho” ou “filha” e aos cachorros como “cães”, como se nenhum deles tivesse
nome próprio — um típico personagem quiroguiano, em plena vida real, ali,
diante dos olhos de Ramiro, só que ao invés da selva pampeana argentina, ele
estava na relva do Morro Santana, onde o pampa e a mata Atlântica se encontram.
— Tenho vivido sozinho desde então e não tenho o costume de receber visitas.
Mas um bom chimarrão não se pode negar a ninguém! — levantou-se e foi até a
cozinha buscar cuia e térmica sob o olhar atento dos cachorros, que o seguiram.
Voltou depois de alguns
instantes, chupando a bomba, imersa na cuia.
Sentaram-se e ficaram
um tempo em silêncio, ouvindo o canto dos pássaros e o soprar do vento na copa
dos pinus. De repente, a cuia roncou.
— Pois bem, comecemos
para acabar logo com isso! — disse Dom Horácio sem cerimônia, já passando a
cuia para Ramiro depois de enchê-la — Em que posso lhe ser útil?
— Sua filha me disse
que vocês… — percebendo a mancada, tentou corrigir rapidamente, embora Dom
Horácio tenha reparado — bem… que o senhor mora aqui em cima há mais de 30
anos. E como o senhor sabe, tenho um jornal de um movimento de preservação
ambiental. Queremos conscientizar a população de Porto Alegre e os estudantes
da universidade sobre a importância da natureza, das matas nativas e do
ecossistema da nossa cidade. A próxima edição que lançaremos vai abordar
especificamente a importância da preservação do Morro Santana, então, nada
melhor do que entrevistar um morador nativo daqui, como o senhor.
— Essas coisas de
“conscientizar” sobre a importância da natureza me soa estranha — respondeu Dom
Horácio — Todo mundo deveria cultivar uma consciência básica que preserve a
própria vida, não é isso? Mas sim… Moramos aqui em cima há mais de 30 anos.
Quando chegamos aqui, este morro era careca. Não tinha quase nada de vegetação.
Era metade areião e metade capim. Nós que plantamos grande parte disso tudo que
tu está vendo — e apontava para as árvores ao redor — Também construímos tudo o
que se vê aqui, porque sabe como é, por aqui praticamente não se pode contar
com ajuda do governo, da prefeitura, do Estado, nem do que quer que seja — Dom
Horácio hesitou um pouco e depois retomou com um sorriso condescendente — …
bem, na realidade, acho que lá embaixo também não.
— O que vocês plantaram
aqui, especificamente?
— Ora, meu bom rapaz,
absolutamente tudo. Desde os pinus, que ajudaram a captar a umidade necessária
para verdejar e florescer o morro, mas que hoje são injustamente demonizados
pela universidade porque esta não cumpre seu papel de ajudar na preservação do
morro, de cuidá-lo, de vivenciá-lo, de ouvi-lo, mesmo dispondo de um corpo especializado
de professores, pesquisadores e biólogos. Veja o caso da China: estão
reflorestando os desertos do oeste do país a partir da prática de plantação de
pinus. Estão fazendo o que eu sempre falei. Como, então, esta árvore pode ser
amaldiçoada? Além disso, todas as frutíferas que você vê aqui e além da cerca
e, também, diversos tipos de plantas, fui eu e a mulher que plantamos. No meu
rancho praticamente não precisamos comprar limão, laranja, mamão e abacate.
Tiro tudo daqui. Não é à toa que muitos bichos são obrigados a vir até a minha
janela pedir comida, porque destroem tudo nas outras áreas, seja através dos
seguranças privados da universidade ou mesmo a gurizada que sobe pra caçar e
fazer mal pros bichos que tão soltos por aí. Outras espécies de árvores e de
vegetação que existem nas redondezas provavelmente foram os pássaros, que são
grandes semeadores naturais, sabia disso?
— Sim… — respondeu
Ramiro de forma meio hesitante e confusa, tentando processar tudo o que ouvia.
Depois de chiar o chimarrão
de Ramiro, Dom Horácio se pôs a pensar enquanto enchia a cuia novamente.
Alguns instantes se passaram.
— A vida aqui em cima
não é nada fácil — retomou ele — sobrevivemos a alguns ataques contra a nossa
família, provavelmente de gente que tem interesse neste pequeno paraíso em que
vivemos, mas conseguimos sobreviver. Infelizmente a polícia nada faz porque no
mais das vezes é cúmplice direta ou indireta, fazendo vistas grossas. E como se
tudo isso não bastasse, já bati muito fogo nesse morro. Muita gente maldosa e
desocupada vem colocar fogo aqui sabe-se lá por qual razão desalmada.
Provavelmente porque querem abrir empreendimentos aqui em cima e tomar as
nossas terras, o que vai significar, na prática, a destruição da última
floresta da cidade, da qual fui um guarda florestal informal desta
universidade, que não me pagou um único centavo por isso. Ao contrário, só
dificultou a minha vida…
Ramiro ouvia meio
boquiaberto, com o gravador do celular apontado para o ancião.
De súbito lembrou:
— Por falar nisso,
estamos pensando em criar brigadas de fogo pra instruir a comunidade local a
apagar incêndios florestais no morro. Sabemos dos vários focos de incêndio que
tiveram aqui durante o verão e que não puderam contar com o apoio do corpo de bombeiros,
que ou chegou muito atrasado ou atolou o caminhão quando tentava subir pela
estrada principal. O senhor não gostaria de compor essa brigada com a gente?
Dom Horácio deu uma
risada longa e desaforada. Fez um gesto de desdém com a mão, enquanto se preparava
para tomar uma nova rodada de mate.
— Meu rapaz, é mais
fácil vocês entrarem na minha brigada de incêndio do que eu na de vocês. Como
já te falei, bato fogo neste morro há mais de 30 anos. Não há consciência
ambiental nesse povo; muito menos na universidade. Eu mesmo desenvolvi
batedores próprios, feitos dos pneus e dos tapetes de borracha dos meus carros
antigos, porque nunca tive amparo da universidade, da prefeitura, do Estado, do
corpo de bombeiros ou de quem quer que seja. Se não tivesse feito isso pelas
minhas próprias mãos, provavelmente tudo o que tu está vendo aqui já teria
virado cinzas.
O estudante vivia um
misto de espanto e admiração. Não podia conceber que este ancião tinha feito
tudo isso e vivia há mais de 30 anos em meio a relva. E o pior: vivia sozinho
já a algum tempo. De certa forma, Dom Horácio já estava virando seu herói
pessoal, pois fazia na prática cotidiana tudo o que ele pensava fazer através
do seu movimento e do seu jornal.
— O que o senhor acha
da retomada Guarani-Charrua e de outros movimentos indígenas, que montaram
acampamento no sopé do morro para retomar suas terras ancestrais?
— Ora, o que que eu
tenho que achar? Eu não acho nada! Acho que os índios têm o direito. Eles
sempre viveram aqui e foram expulsos, difamados, mortos, esquecidos. Só peço
que me deixem em paz porque além de não fazer mal pra ninguém, muito menos para
os índios, ainda sou um protetor de tudo isso aqui, tal como eles são.
— O senhor está sabendo
do projeto do vereador José Sangallo?
— José do quê? Que
projeto? — indagou meio indignado Dom Horácio, para, em seguida, voltar a
sorver o seu chimarrão.
— É um vereador da
extrema direita, que diz ser “conservador de verdade”. Parece que ele quer
transformar a pedreira num grande lixão. Toda a campanha e atuação política
dele gira em torno do morro. Provavelmente quer ganhar mais dinheiro abrindo
espaços pro setor privado imobiliário, construindo grandes condomínios de luxo,
cercando e privatizando cada vez mais o acesso popular ao morro.
— Mas rapaz do céu,
esse cidadão só pode ter titica de galinha na cabeça, que nem o prefeito e os
seus correligionários, um bando de filhos da puta. Os interésses dessa
gente — Dom Horácio forçava o acento da palavra “interesses” para lembrar da
dicção do velho Brizola, de quem era um admirador — vão arrebentar com tudo. É
tudo maracutaia! Que eles queiram fazer empreendimentos no entorno do morro eu
não me oponho, desde que eles não expulsem ninguém e que também revertam os
lucros de tais condomínios numa forma de preservação ambiental pra natureza de
todo o morro. Este é o meu sonho!
— Seu sonho? —
perguntou meio estupefato Ramiro, sem conseguir raciocinar que um homem tão
rústico pudesse ter sonhos.
— Sim! Pensa comigo: a
pedreira desse morro construiu essa cidade — Dom Horácio falava apontando para
a porteira de entrada, de onde podia se ver uma nesga de prédios e, logo mais
abaixo, naquela direção, estava a pedreira — Foram as pedras dela que
construíram Porto Alegre. Ela merece, no mínimo, respeito, e não vir um
descerebrado como esse tal de Gallo? … Sangallo? … propor a ocupação dela com
um lixão. É o fim da picada! De todo o ecossistema desta cidade praticamente só
sobrou essa floresta aqui de cima, que é sempre dois ou três graus mais
agradável do que lá embaixo. Então, meu sonho é transformar tudo isso aqui em
cima num jardim botânico e encher de árvores frutíferas pros bichos terem o que
comer e não precisarem mais vir aqui pedir nada, nem ter que descer pra aquele
inferno de concreto e asfalto para serem judiados e mortos por gente sem
coração. Tudo isso é possível. Basta querer! Poderíamos usar o setor privado
que tem loja, comércio e condomínio, paga imposto, lá do sopé do morro, pra
juntar fundos e fazer um parque temático aqui em cima, conseguir cercar tudo
pra impedir que gente ignorante venha colocar fogo ou emporcalhar o mato com
garrafa de plástico, bituca de cigarro e todo o tipo de lixo e porcaria que
deixam por aí. É uma vergonha!
— Sim — concordou
mecanicamente Ramiro.
— Ao invés de lixão, a
pedreira tinha que se transformar num grande teatro a céu aberto. Já pensou?
Algo parecido com aqueles teatros gregos de antigamente, só que agora com show
de luzes e sombras, além de um som qualificado para aquele espaço, que deve ter
uma boa acústica e poderia servir pra representar várias peças, concertos de
música e tudo o mais. Os ingressos também poderiam ser revertidos pra ajudar a
manter o jardim botânico aqui de cima. Mas são tudo sonhos… a prefeitura não
tem cérebro pra fazer isso. Nem vontade. Se alguém pagar mais pra desmatar
tudo, rapidinho eles se vergam.
Sem saber muito o que
perguntar, porque Ramiro ficou surpreso e admirado com tudo o que viu e ouviu,
perguntou de novo, irrefletidamente, enquanto parecia hipnotizado com as
árvores, as construções, os sons, os cheiros:
— É difícil morar aqui,
seu Horácio?
O velho franziu o
cenho. Ficou um pouco incomodado, mas tentou não demonstrar, afinal de contas a
prosa estava lhe dando uma ponta de alegria e esperança no meio de suas últimas
amarguras. De forma serena, retomou:
— Rapaz, não é um
passeio no parque. Tem suas dificuldades. Precisamos captar água da chuva e do
solo, muitas vezes falta luz e ficam dias sem nos dar a menor satisfação,
apesar das reclamações, mas eu não posso me queixar. É o meu pequeno paraíso.
Viver no meio da natureza compensa essas agruras.
De repente o velho
hesitou novamente. Ficou um pouco em silêncio. Um frio cortou-lhe o coração e a
espinha. Lembrou subitamente do tempo. Já começavam a despontar no céu os primeiros
sinais de escuridão. Ramiro precisava começar a pensar em como ir embora, senão
ficaria muito tarde e Dom Horácio não estava disposto a levá-lo no seu
fusquinha azul, tão judiado por muitas subidas e descidas numa estrada
miserável e cheia de valetas, até a porteira da avenida Protásio Alves.
— O senhor já visitou
as ruínas da casa do tal do Jerônimo de Ornelas? Um professor meu do Ensino
Médio me disse que ficava por estas bandas daqui; e que embaixo devia ter um
tesouro enterrado.
Dom Horácio deu uma
grande gargalhada pela ingenuidade do moço, que lhe soou autêntica.
— Ah, eu sei qual professor te falou isso — e riu novamente — Não, nunca
fui procurar não. O que sei é que deve ficar lá para os lados da faculdade de
agronomia, próximo da avenida Bento Gonçalves. Isso fica lá do outro lado — Dom
Horácio apontava para trás com o polegar — Mas certamente esta história de
tesouro é bobagem. A vida aqui em cima naqueles tempos devia ser muito dura.
Não havia tempo para acumular e enterrar tesouros. Eu tenho uma ideia de como é
dura esta vida, com o agravante que apenas eu e minha família construímos e
lutamos por manter tudo isso aqui sem tropeiros, sem peões, sem escravos.
Ficaram um pouco em silêncio. Só se podia ouvir a sinfonia de coaxar que
vinha do banhado ao sul do rancho, com destaque gutural de primeira linha para
o sapo-martelo.
Depois de alguns minutos ouvindo tão encantadora manifestação da
natureza, Dom Horácio retomou:
— Bom, já é tarde. Acho que é melhor começar a se preparar para descer,
senão fica muito escuro e é fácil de se perder nesta trilha.
Ramiro prontamente levantou da cadeira e disse:
— Muito obrigado, seu Horácio. Assim que sair o nosso jornal com a nossa
entrevista eu dou um jeito de enviar um exemplar para o senhor pela sua filha.
Antes de sair, Ramiro tirou algumas fotos de Dom Horácio, fez algumas selfies
com ele, com os cachorros e, depois, fotografou a vegetação e a floresta do
entorno do rancho para ilustrar a entrevista. O velho homem, por fim, agradeceu
o estudante. Apertaram-se as mãos. Foram caminhando em direção ao portão de
ferro. Os cachorros saíram em disparada na frente para abrir o caminho, latindo
e balançando o rabo.
Quando estava cruzando o portão, Dom Horácio subitamente parou. Ramiro
reparou que algo tinha se passado.
Dom Horácio disse de chofre:
— Tenho mais um sonho… na verdade, um desejo!
— Qual?
— Quando eu morrer gostaria de ser cremado e depois jogado em cima destas
terras.
Ramiro não soube o que lhe dizer porque ficou profundamente comovido.
Quase podia sentir aquela dor. Toda a sua preocupação ambiental não chegava
próximo à dedicação do velho homem para com a preservação daquele morro.
Um pouco atordoado ele se despediu finalmente e saiu caminhando, com a
tarde já transformando-se em noite nas tonalidades vermelha, amarela e laranja,
todas mesclando-se e refletindo-se no calmo espelho d’água do Guaíba.
Ramiro ouvia seus passos na terra da estrada de chão batido, sem se
preocupar ou sentir medo com a chegada da noite. Estava distraído e levemente
alegre. Enquanto olhava para as primeiras estrelas no céu e as luzes da cidade
que se acendiam aos poucos, só pensava em como deveria ter sido a saga dessas
pessoas que povoaram e ergueram a cidade que tinha diante dos olhos, dentre as
quais, o pobre e nobre Dom Horácio, que, mesmo com tão pouco e anonimamente,
fez muito mais junto da sua família pela preservação daquela natureza do que a
maioria dos pioneiros e “autoridades” que nomeiam ruas e avenidas.
De Estância Grande à Viamão
Os anos passam para
todos os seres vivos e regiões do planeta, embora não da mesma forma.
A Estância Grande de
Francisco Carvalho da Cunha, que serviu de ponto de apoio para que Jerônimo de
Ornelas se estabelecesse no Morro Santana, cresceu, se povoou e tornou-se uma
cidade.
Por causa da invasão castelhana de 1763, a capital do continente de São
Pedro do Rio Grande do Sul recuou e foi obrigada a subir geograficamente,
deixando de ser Rio Grande e assentando-se, justamente, em Viamão.
As primeiras pedras e
vigas da capelinha de Nossa Senhora da Conceição, que foram juntadas e erguidas
pelos peões e escravos, com os humildes esforços de Luíz Henrique e negro
Custódio, tornaram-se a Igreja Matriz de mesmo nome, que, bem no centro da
Viamão, demarca com seus traços coloniais a arquitetura de época da ex-capital
provincial.
A capelinha tornou-se
oficialmente igreja só em 1767. Para erguê-la, foram utilizadas pedras da região,
areia e conchas do litoral, além das água das bicas que abasteciam o povoado na
época da construção. Durante o período imperial, ela foi visitada por nada
mais, nada menos, do que Dom Pedro I e Dom Pedro II.
Que outra igreja do Brasil, fora do Rio de Janeiro, teve essa atenção?
No entanto, apesar de
uma história extensa e rica, Viamão parece ter parado no tempo. Dominada por
uma oligarquia de partidos conservadores, que mais se assemelham a privilégios
feudais ou dos tempos do café com leite, Viamão é um dos maiores municípios em
extensão territorial do Estado do Rio Grande do Sul — em todos os casos, é
muito maior do que o território do município de Porto Alegre. A ex-capital se
estende do Morro Santana até o litoral, “abraçando” Porto Alegre e atingindo
Itapuã e a Lagoa dos Patos pelo Sul.
Seu território se constitui de vários núcleos urbanos de povoamento,
separados por largos campos e coxilhas que compõem extensos bairros, havendo
grandes hiatos verdes e de campos distantes entre estes núcleos — fazendo jus
ao seu nome primitivo —, muito bem explorado pelas monopolísticas empresas de
ônibus. Nenhum político e empresário fala em trem ou metrô, o que poderia
fomentar um pouco o seu desenvolvimento e integração. Mas, para esses
“empreendedores”, tudo o que contrarie os seus lucros mais imediatos sempre é
“utopia”.
Na divisa entre Porto
Alegre e Viamão está o Morro Santana, que do seu ponto sudeste possibilita uma
belíssima vista da ex-capital provincial, com destaque especial para os
espelhados reservatórios de água da represa da lomba do sabão no parque
Saint-Hilaire.
Este ilustre viajante
francês que nomeia o parque, profeticamente, descreveu a tendência à estagnação
da “evolução” urbana de Viamão quando da sua épica aventura por terras
brasileiras, lá pelos idos de 1820-1821. Ele escreveu: “Viamão demora-se em
uma colina de onde se descortina vasta extensão de campos ligeiramente
ondulados, no meio dos quais veem-se grupos de matas. Apesar da agradável
posição do arraial, ele apresenta-se quase em completo abandono desde a
fundação de Porto Alegre, melhor situada sob o ponto de vista comercial. O
arraial compõem-se principalmente de duas praças contíguas e de formato
irregular, em uma das quais se ergue a igreja. Depois de São Paulo, ainda não
tinha visto nenhuma comparável a essa, possuindo duas torres bem conservadas,
extremamente asseada, clara e ornamentada com gosto”.
Desde a visita de
Saint-Hilaire à Viamão, o que de fato mudou nesta cidade?
Se o leitor ou a
leitora respondeu “nada”, então, impreterivelmente, outras perguntas são
necessárias.
Por que a República
Velha ainda vive tão descaradamente em Viamão, a poucos quilômetros de Porto
Alegre? Por que o espírito oligárquico se encarna nesta cidade tal qual uma
luva, reproduzindo a opressão e o clientelismo sobre o seu funcionalismo
público? Seria o seu espaço verde, agrícola e os longos descampados, somados ao
modelo colonial brasileiro, os responsáveis naturais?
São perguntas difíceis
de responder, mas necessárias de se formular para entender a história que
estamos a narrar e o país no qual vivemos…
Os caçadores do tesouro perdido I
Após a entrevista com
Dom Horácio, a imaginação de Ramiro Albuquerque ganhou rédeas soltas para voar,
refugiando-se numa espécie de obsessão: encontrar o suposto tesouro enterrado
debaixo das ruínas da estância de Jerônimo de Ornelas!
Nas infindáveis festas
universitárias que existem no campus que fica no sopé do outro lado do morro,
Ramiro pôde inflamar a imaginação, a curiosidade acadêmica e a ganância de
colegas dos mais distintos cursos: história, geologia, geografia, arqueologia.
Com todos que conversava e para aqueles que demonstravam o mínimo interesse por
suas estórias malucas, ele dizia:
— Saibam vocês que aqui
atrás — e apontava para os fundos do campus, onde os prédios faziam fronteira
com a mata fechada que se estende até o alto do morro — existe um tesouro
escondido nas ruínas perdidas do colonizador que é considerado um dos
fundadores de Porto Alegre, o tal Jerônimo de Ornelas.
Onde não haviam provas e o conhecimento era insuficiente — ou mesmo
inexistente —, Ramiro excitava a imaginação e instigava a ganância:
— Imaginem nós,
vestidos tipo Indiana Jones, com chicote e tudo o mais,
indo atrás de grandes aventuras, desenterrando tesouros e até ganhando
algumas láureas acadêmicas, com possibilidade de artigos, trabalhos de
conclusão de curso, premiações! Que tal? Vamos organizar essa expedição,
gurizada? Que que vocês acham? — falava tudo isso, meio brincando, meio falando
sério — No mínimo será divertido — concluía, dando risada e emborcando outro
copo de cerveja.
Os colegas se entreolhavam, meio incrédulos; outros riam e debochavam:
“deve tá bêbado!”.
Foram tantas as festas universitárias e as ocasiões em que Ramiro ia
espalhando essas ideias que, ao fim e ao cabo, alguns estudantes de geografia,
geologia e arqueologia começaram a ficar seduzidos pelo imaginário criado com
tanta insistência e criatividade, decidindo, por fim, procurá-lo para firmar um
trato.
— As grandes descobertas são sempre guiadas por grandes sonhadores —
apontava ele na reunião que ocorreu no bar do Antônio com a finalidade de
organizar os preparativos para a grande expedição, num último esforço que
acabava ficando gravado nas mentes que ainda eram capazes de sonhar.
Chega o momento na vida de um homem…
Ando em Porto Alegre na
busca do xis perfeito.
Existem mil bares e lancherias com a chapa engraxada de gordura,
perfeita para prensar esta iguaria típica de Porto Alegre e do Rio Grande do
Sul, que não se encontra em tamanho e sabor em nenhum outro lugar do Brasil.
Foi o que me restou depois que terminou o meu relacionamento de mais de
1 década e os meus pais morreram, prenunciando a chegada da crise de meia
idade.
Não!
Na verdade, não foi só isso que me restou! Ainda há vida em mim — e isto
é o que deveria importar! Nós, os terráqueos da porção Ocidental deste planeta,
sempre tentamos dramatizar a existência e nos martirizar.
Deixemos as crises de meia idade de lado e tentemos olhar a realidade
com um pouco mais de sobriedade. Chega o momento na vida de um homem em que
isso se faz necessário.
O que cabe perguntar neste momento em que me encontro sentado num boteco
“morte lenta”, situado na fronteira entre a Avenida do Forte e a Saturnino de
Brito, na zona norte de Porto Alegre, esperando o meu xis salada, pensamentos
idiotas se misturam com aqueles que buscam a verdade do universo, tipo este
aqui: quando o xis gaúcho se tornará patrimônio gastronômico da UNESCO?
Meu amigo carioca que o diga!
Desde que veio aqui lá pelos idos de 2008 e experimentou um xis coração,
jamais esqueceu. Disse que nunca viu nada igual no Rio de Janeiro; e sempre
pede, em tom de brincadeira — e às vezes meio sério —, que eu envie um pra ele
pelo correio. Descobriu, recentemente, que existe um típico xis gaúcho
encravado na baixada fluminense, mas ainda não teve tempo de ir lá
experimentar.
Outro amigo meu do “centro do país”, mais especificamente da maior
cidade Ocidental, São Paulo, viveu muitos anos em Porto Alegre, mas que voltou
para a sua terra natal para estudar enfermagem na USP, sempre me fala com
saudades dessa nossa cidadezinha que já não é mais tão alegre assim: “gosto de
caminhar aqui, porque tudo é plano. Em São Paulo tem morro e ladeira pra tudo o
quanto é lado”.
Não sei porque a vida me reservou esse papel: me tornar um filósofo
portoalegrense de boteco. Mas estes pensamentos brotam dentro de mim enquanto
fico sentado nesta pocilga, esperando a chegada do meu xis salada e da minha
dose dupla de uísque, observando o fluxo de pedestres e de carros nesta
sinaleira sem fim.
Aqui, neste interregno entre um trampo e outro, sinto um indescritível
bem estar na alma; posso, então, respirar um pouco e voltar a ser eu mesmo. As
ideias param de ser incômodos ecos do meio em que vivemos, voltam a fazer
sentido e a retomar a originalidade perdida.
1743
Amanhã um punhado de
negros e peões vão descer o morro até a Estância Grande pra buscar farinha de
trigo, carne e erva mate. Ouvi por detrás da porta que vão enviar Zinha junto.
Quando ela veio me trazer a bandeja lhe entreguei um bilhete para que
procure Luíz e lhe diga que estou prenha. A pobre negra pegou o bilhete
tremendo, com um verdadeiro terror de ser descoberta traficando mensagens entre
nós…
[...]
Nestes dias cinzas e
chuvosos tenho vivido profundamente aflita.
Não sei a
profundidade dos infortúnios que causei na vida deste homem apenas por
desejá-lo.
Hoje ele está
foragido e é procurado pelos peões de papai, José Raimundo e da Estância
Grande.
Por que o mundo se
desenha de forma tão cruel para os seres desejantes? — e, em especial, para nós,
mulheres?
[...]
Um céu nublado
significa uma cerração terrível que pode durar dias sem que eu possa sair de
casa. Mamãe não me deixa em paz e coloca as mucamas da cozinha pra me vigiar.
Ouvi rumores de que o
teriam encontrado pela Estância Grande, mas Zinha me disse que preto Custódio
não lhe confirmou o fato. Há dias que eu não posso sair do quarto sequer para
conversar com Zinha.
A aflição em minha
alma só aumenta… Quando isso acabará, meu Deus?
[...]
Papai e José Raimundo gritaram comigo e me humilharam perante mamãe,
Fabiana, Antônia e Zinha. Disseram que minhas condutas desonram o nome da
família e que eu me porto como uma meretriz.
José Raimundo disse, gritando, que eu deveria ser internada em um
convento na Colônia do Sacramento. Sei que exageram e pretendem me assustar,
mas mesmo assim não consegui suportar e me desmanchei em lágrimas na frente de
todo mundo.
Depois, me trancafiaram no quarto. Assim, os dias demoram muito mais a
passar…
[...]
… pegaram o pobre preto Custódio e o açoitaram na frente de toda a
negrada, bem no meio da estância, para que sirva de exemplo. Zinha me confirmou
depois, em confidência rápida enquanto me trazia a bandeja de desjejum, que era
uma punição por ter ajudado Luíz Henrique a fugir e a nos acobertar durante
meses.
Da janela pude ouvir as chicotadas e os seus gemidos, que invadiram meus
sonhos, tornando-os pesadelos, e não me deixaram dormir por dias…
Os caçadores do tesouro perdido II
Depois de meses de
preparação, com reuniões e estudos prévios, o grupo expedicionário enfim estava
formado: Ramiro, estudante de biologia; Raquel e Priscila, estudantes de
arqueologia; Bernardo e Ian, estudantes de geografia e história,
respectivamente.
Ramiro e Bernardo
manjavam da tecnologia dos satélites, para ajudar a mapear o território a ser
explorado. Raquel, Priscila e Ian cuidavam da parte técnica da possível
escavação que fariam. Só de pensar se viam tomados por uma euforia juvenil, mas
que era possível perceber pelos seus olhos e gesticulações rápidas que suas
mãos faziam quando começavam a falar sobre o assunto.
— Vai ser demais! —
dizia Priscila, com os olhos iluminados por um fogo próprio.
— Vamos escrever muitos
artigos, ganhar reconhecimento, virar correspondente de revistas científicas —
completava Raquel, dando pequenas risadinhas de regozijo.
Enquanto ouvia tudo isso, Ian ordenava as pás, colheres de pedreiro,
espátulas, pincéis, trenas, níveis, balizas, cordéis, peneiras e baldes em cima
da grande mesa da sala do departamento de arqueologia. Além de todos esses
instrumentos, separados e guardados cuidadosamente em mochilas, bolsas de pano
e pequenas maletas, o grupo separou instrumentos de medição, como bússolas e
fitas métricas, para registrar com precisão a localização e profundidade dos
possíveis achados.
Ramiro colocou seu celular em cima da mesa e abriu o mapa do satélite:
— Vamos começar por
este quadrante, gurizada. Na medida que formos vencendo eles e não encontrarmos
nada, passamos para este outro e assim por diante, até cobrir todo este
território.
— Por que o norte e o
nordeste do morro foram excluídos? — perguntou Raquel.
— Pelo que li no livro
do professor Clóvis da Silveira, a estância de Jerônimo de Ornelas devia se
encontrar na subida que fica pelas bandas detrás da faculdade de agronomia.
Além do que, do outro lado do morro existem muitos ranchos, como o do Dom
Horácio, e pequenas propriedades com moradores, que caso tivessem encontrado
alguma coisa, certamente já teriam nos reportado — respondeu Ramiro, começando
a se arrumar para dar início à grande expedição.
— Se a gente não
encontrar nada neste território selecionado pelo Ramiro, vamos continuar
subindo até o outro lado. Mas comecemos por esse plano que vai dar boa! — disse
Ian, confiante.
— Não podemos esquecer
disso aqui — falou Priscila, pegando a sua garrafa de água.
— Sim! Vamos precisar
de muita água… e de cerveja também! — concordou Raquel, dando gargalhada.
Chega o momento na vida de um homem…
Entre uma e outra
escola nas quais eu leciono, me sento neste bar na Estrada do Forte pra comer,
beber e escrever. É um dos poucos momentos do meu dia em que posso expressar o
que realmente penso e sinto. A que ponto chegamos nesta loucura moderna?
De onde estou sentado
agora posso vislumbrar por entre prédios e casas um pedaço do Morro Santana,
que tudo olha e tudo vê nesta região da cidade e parece me perseguir por onde
eu ando. Uma de minhas escolas fica no sopé deste morrão. Dando asas soltas ao
meu misticismo reprimido, talvez este fato tenha me levado a escrever sobre
ele.
Roma tem 7
colinas.
Ainda que seja uma cidade relativamente plana, Porto Alegre tem, pelo
menos, 20 grandes morros, cada qual com sua micro floresta que possui grande
potencial energético. Muitas já desmatadas, embora alguns morros ainda
conservem sua flora natural. A mata mais extensa, sem dúvida, é a do Morro
Santana, a qual, podemos condescender que seja chamada de a “última floresta da
cidade”. Os inúmeros processos naturais, biológicos e geológicos que ocorrem no
alto de cada um desses morros, dentro dessas micro florestas, não podem deixar
de ter seus efeitos sobre os outros seres vivos e a própria vida da cidade para
muito além do clima e das mudanças atmosféricas.
Eu sei. Ando meio
místico…
Talvez tudo isso seja conversa mole… mas talvez não…
Uma força estranha
dentro de mim, que já apareceu em diversos outros momentos da minha vida, me
leva a escrever uma história da cidade sob a ótica deste morrão. Estaria eu
ficando louco?
A minha atividade vital
— o que realmente aquece meu coração — é escrever, mas infelizmente não posso
viver disso nesta cidade e neste país. É por isso que preciso trabalhar como
professor de filosofia e história na rede pública, para conseguir fazer o que
eu gosto: escrever nas horas vagas!
Enquanto penso e
escrevo tudo isso, Dona Miriam, uma mulher negra, aparentemente sofrida, mas
ainda galante, no alto dos seus 50 e tantos anos, me entrega em mãos o xis
salada, fumegando, como só ela sabe fazer nestas bandas da cidade. Me obriga a
parar de escrever para devorá-lo, enquanto contemplo o movimento da avenida, os
carros indo e vindo, parando no sinal bem na minha frente; e o morro, que nos
contempla a todos, majestoso, do alto das suas imponentes dimensões, entre
Porto Alegre e Viamão.
O povo comum deste
bairro frequenta o boteco onde estou. Gente pobre, humilde, desdentada, que
fica sentada nas mesas de plástico na rua, observando o movimento sem muita
perspectiva de vida, conversando e procurando um passatempo ou um ombro amigo.
Um homem negro sentado quase ao meu lado, vê outro homem negro, desdentado, um
amigo e antigo frequentador do bar que não vê a tempos, passando bem na nossa
frente, segurando um grande saco de lixo na mão e procurando material
reciclável na lixeirinha laranja das ruas de Porto Alegre, “cortesia” da
prefeitura da cidade.
O primeiro lhe questiona: “então tu te aposentou, é?”.
O segundo responde: “me aposentei há dez anos, mas sigo trabalhando para
fazer uma renda extra, sabe como é, né?”, e lançou ao amigo um grande sorriso
desdentado. Se cumprimentaram brevemente e o primeiro some na calçada por entre
os outros pedestres.
Os contatos imediatos de terceiro grau não param por aí.
Cada bar tem seu bêbado de estimação. Eles são como profetas urbanos.
Preveem desgraças, dão conselhos que ninguém pediu, disseminam seu ódio social
mal digerido com terríveis admoestações aos governantes, aos políticos em
geral, aos motoristas que abusam dos seus motores. O bêbado de estimação do bar
da Dona Miriam grita contra cada um deles que passam acelerando exageradamente
na sinaleira de fronte do bar — “vão tomá no cu seus filho da puta, tem que
mandar matar tudo isso daí, tá louco!” — ou, então, subitamente se volta contra
a santa madre Igreja Católica e seu principal mártir: “eta Jesus, desgraçado!
Deixa as pessoa tudo na mão”.
Todas as terças-feiras, religiosamente, ele está ali esbravejando suas
profecias, enquanto eu bebo meu uísque e tento escrever o que me foi solicitado
no meu parco tempo livre. É por isso que seus gritos incontornavelmente
penetram nesta narrativa.
Penso como foi a vida dos miseráveis de Porto Alegre nos anos da sua
fundação: escravos, peões, sem-terras. Tudo gente boa, mas desmerecida,
humilhada, ofendida e espancada a troco de nada.
Nem amar ou ser amados direito podiam… talvez ainda hoje não possam.
1742
… sinto calafrios que
não consigo descrever quando ele me olha.
Sei que às vezes
passa horas sentado no estábulo, mirando a janela do meu quarto, esperando que
eu apareça.
Então, passo de um
lado para o outro, tentando ser espontânea. Paro, finjo estar distraída, baixo
a alça do meu vestido quase até o cotovelo, respiro fundo para encher os seios,
solto o cabelo para parecer mais natural. Dissimulo procurar linhas de costura
na mesa ao lado da janela. De repente, olho rapidamente para fora e por poucos
instantes nossos olhares se cruzam. Por fim, baixo o rosto para a atividade que
aparento estar fazendo e depois desapareço, com o rosto todo afogueado.
Desfaleço de desejo e
sobe uma ardência em brasa por todo o meu corpo. Consigo sentir que o mesmo se
passa com ele. Tranco-me no meu quarto, enfio-me embaixo das cobertas e me toco
até derreter.
[...]
… conversei durante
longas horas da festa de São João com Ana Fogaça, uma cigana que compõe as
tropas dos lagunenses que aportaram na estância de papai por estes dias
terrivelmente frios e chuvosos.
Ela me ensinou sobre
a relação que existe entre os nossos ciclos de mulher, as fases da Lua e a
natureza. É o poder que temos, que os homens não têm.
Também disse que não
era cristã, o que me criou inúmeras dúvidas interiores, mas, também, um alívio
por saber que existem pessoas assim. A etnia de Ana cultua a grande mãe, tal
qual os índios das terras castelhanas do norte do continente. Fala que nos
rituais campestres pode sentir o seu poder divino e atemporal fluir pelo seu
corpo e me convidou para acompanhar um.
Quis muito ir, mas
mamãe não condescendeu porque não confia em ciganos. Me exortou a fazer o
mesmo, afirmando que eles mexem com forças diabólicas. Só que comigo não é
assim. Estabeleci laços de afeição e profundo interesse por Ana.
No dia da festa, ela
me levou para o interior de sua tenda. Ao adentrar, senti um perfume de incenso
que me inebriou e causou-me um êxtase. Nunca senti aroma semelhante.
Sentamos em sua esteira e ela puxou um baú de madeira, de onde tirou
cartas, livros, seus vestidos e lenços de seda. Me presenteou com um, de tom
azul escuro. Mostrou-me também suas castanholas vermelhas e chegou a ensaiar
alguns toques. Seu olhar me enfeitiçava e senti grande atração por esta postura
desinibida, ousada, de um espírito livre que não deve nada a ninguém. Enquanto
tocava castanholas, ela cantou uma belíssima canção em castelhano, de que agora
só posso me recordar do refrão.
Não mais que de
repente, Ana atirou as castanholas para cima de sua esteira, puxou-me para
junto de si pela cintura e beijou-me suavemente, penetrando sua língua em minha
boca. Não pude resistir. Desfaleci em seus braços.
Suas mãos penetraram
sob o meu vestido e começaram a subir. Parecia que um fogo sem fim iria nos
consumir e que nos amaríamos loucamente, mas neste exato momento Zinha entrou
na tenda me procurando a mando de mamãe. Vi nos seus olhos que ela percebeu o
que se passava, mas, como sempre, nada expressou…
[...]
Papai e mamãe queriam
casar-me com Maurício, filho do tropeiro lagunense Manuel de Aguiar. Não posso
suportar a presença deste homem, que me dá náuseas. Ele só sabe falar de armas
e dos índios que degolou. Quando se embriaga torna-se ainda mais estúpido e
desprezível…
Desde o convento de
São Paulo e da casa de titia que não posso pensar em casamento. Sei que uma
moça de minha condição não tem escolha e precisa casar-se sob a tutela dos
pais, mas lutarei com todas as minhas forças para que este casamento com
Maurício não prospere.
Ainda não cometi
todas as loucuras que o chamado que vem de dentro de mim me impele a fazer.
Ontem à noite sonhei
com um lobo branco, que uivava na ponta de um abismo, como esses grandes
desfiladeiros que existem por aqui, pisando sobre uma ossada espalhada ao longo
de uma grande pedra. Este sinal da alma ficou gravado na minha mente por
semanas…
[...]
… nos encontramos
pela primeira vez, finalmente! Aproveitei que papai, José Raimundo, junto de
alguns peões e escravos, desceram para Estância Grande, onde passaram a noite
para negociar e buscar mantimentos. Nos entregamos sem limites de moral ou
medo.
Foi tão bom!
Como me senti viva!
O meu corpo estremece
ao sentir o seu toque. As sensações à distância estavam certas quanto aos
olhares e sorrisos.
Se amar nesta relva tem um sabor especial. Facilmente esquecemo-nos de
nós mesmos e nos tornamos um só com a outra pessoa, em meio ao breu, em meio
aos aromas que só encontramos no meio da mata. Nem mesmo o frio foi capaz de
nos intimidar.
Para evitar a gravidez segui os conselhos de minhas amigas de São Paulo:
recebi o seu licor sobre meu corpo. Nos lambuzamos a noite toda e depois ainda
ficamos um longo tempo nos olhando, para depois conversarmos sobre a vida. O
luar estava divino e foi a nossa principal testemunha a nos brindar com sua luz
quando a fogueira tornou-se brasa.
Disse-lhe que ninguém pode sonhar que nos encontramos e que estou
proibida de ver sozinha qualquer homem da estância ou de fora dela sem alguém
da minha família ou sem minha mucama…
Luíz é poeta.
Confessou-me após muito hesitar que escreve a meu respeito… e sobre o
nosso amor. Eu também disse-lhe que escrevia um diário, o qual despertou-lhe
profunda curiosidade e interesse. Cheguei a cometer a estultícia de lhe
prometer um empréstimo, mas que não o farei jamais… nele jazem profundos
segredos que eu não posso revelar nem a mim mesma.
Chega o momento na vida de um homem…
É neste boteco, em
plena terça-feira, que coloco meus pensamentos e sentimentos em ordem, entre um
xis salada e uma dose dupla de uísque. Afogo neste copo minhas mágoas,
problemas do trabalho, carências pessoais.
Chega a ser até engraçado.
Como podemos viver
fugindo tão desesperadamente de nós mesmos? De nossas insuficiências e vazios,
nos escondendo em qualquer vão da existência: trabalho, família, rotinas,
passatempos vulgares, bares, sexo, álcool, drogas. Assim vamos preenchendo os
dias sem nos dar conta — ou mesmo nos dando conta e passando a nos enganar
conscientemente.
Eis que, de repente, sentado aqui neste boteco sujo, brota dentro de mim
um poema, um conto, um romance.
Mas entre estas boas
inspirações, quando surgem em mim, e a intenção da escrita no papel, existe um
abismo. É como diz o meu amigo uruguaio, José Battle: quando sentamos para
escrever parece que sempre sai tudo diferente daquilo que a gente interiormente
aspirava escrever. A caneta não nos obedece e passa a ter vontade própria. Talvez
a nossa própria vida seja um pouco assim: teima em não nos obedecer.
Mentalizamos,
planejamos, criamos expectativas e… então? Tudo sai errado… ou melhor,
diferente! Eis aí a matriz incontrolável do nosso destino…
Com uma sincronicidade
incrível, durante essas semanas chuvosas portoalegrenses que se passaram, um
ex-aluno que hoje cursa biologia na Universidade Federal, me procurou para
entregar a cópia de um manuscrito mofado e carcomido pelo tempo, encontrado em
um baú antigo, enterrado no que foram as ruínas da estância de Jerônimo de
Ornelas. Ele me relatou que tornou-se obsessivo em organizar uma expedição
arqueológica para descobrir as raízes da fundação de Porto Alegre, fruto de uma
aula minha em que lhe garanti que debaixo das ruínas da estância de Jerônimo de
Ornelas haveria um grande tesouro.
Confesso que quando falei deste suposto tesouro enterrado foi uma troça…
um troça intuitiva! Não poderia imaginar que alguém levaria esse absurdo tão a
sério. Temos que cuidar o que dizemos, pois existem muitos malucos nesse mundão
velho sem porteira.
Conforme ele me relatou, passou meses envolvido em tal projeto junto com
outros estudantes, como se disso dependesse a fortuna de sua vida. Exploraram e
prospectaram o território sul e sudeste do Morro Santana almejando encontrar as
ditas ruínas e eis que, quando estavam quase desistindo, algo inesperado
aconteceu.
Por muito tempo
mantiveram o projeto no mais profundo sigilo e foram trabalhando minuciosamente
na preparação e na possível escavação. Mas esse ex-aluno maluco não se conteve
e veio atrás de mim para me comunicar do ocorrido (ou pra me cobrar?).
Foi deste reencontro inesperado que brotou a inspiração para a escrita
destas linhas. Um dia vou ter que relatá-lo como ele merece…
Os caçadores do tesouro perdido III
O desejo juvenil do
grupo liderado por Ramiro prevaleceu e se transformou numa expedição
universitária acompanhada de perto pela “boca pequena” dos bares e festas do
campus e do seu entorno.
Parece que a vida
universitária faz renascer uma certa capacidade infantil de sonhar,
interrompida pela rigidez do período escolar, quando as crianças ingressam na
instituição escolar cheias de criatividade e vigor, mas são enquadradas numa
vida em sociedade que não brinca mais e que mata a capacidade de sonhar — todas
estas atividades infantis são vistas de forma preconceituosa por adultos
frustrados e infelizes.
Depois de “renascidas” no período universitário, acabam por chocar-se
várias vezes com os novos limites impostos pela vida acadêmica, que trabalha
para enquadrar tudo outra vez, só que agora em um novo molde. Ao invés da
formatação escolar, vemos a submissão deste nobre sentimento através do
puxasaquismo para conseguir bolsas ou a simples participação em projetos de
professores vaidosos e pobres de espírito.
Por sorte, Ramiro não
deixou arrefecer os sentimentos infantis que ressurgiram com força total nesta
nova fase da sua vida, expressando-se num idealismo juvenil revigorado. Foi
nesse sentimento que a expedição de Ramiro se fundou para, enfim, conseguir
sair do mundo das ideias para o mundo real e assim, finalmente, atingir os fins
a que se propunha: encontrar o tesouro escondido nas ruínas do que teria sido a
estância de Jerônimo de Ornelas.
Foram semanas de
buscas, por vezes cansativas e frustrantes, que encontravam certo consolo nas
pequenas festinhas que o grupo realizava no meio da relva em seus acampamentos
improvisados sob a luz do luar. Bernardo e Priscila tinham barracas que
passaram a ser cada vez mais requisitadas pelo grupo. E a estas foram se
agregando outras, improvisadas com lonas. Viraram profissionais em erguer e
desmanchar acampamentos, além de acender fogueiras e conservá-las em meio à
umidade da relva.
Muitos casais e cópulas
sensuais se formavam com a rapidez de uma estrela cadente entre os intervalos
dessas expedições. Ramiro ficou com Raquel, que no outro final de semana ficava
com Ian; Priscila oscilava entre Bernardo, que tinha namorada, mas nada dizia,
e Ian, que era pouco versado com as mulheres, mas teve, então, suas primeiras
experiências sexuais bem no meio do mato. Deste modo acabavam encontrando
muitos motivos alternativos para seguir alimentando a loucura da empreitada na
qual tinham se metido, num misto de seriedade, lascívia e brincadeira.
O tempo ia passando e
já começavam a ser estigmatizados e comentados pela boca pequena do campus:
“vão pro meio do mato trepar com a desculpa de encontrar a ‘história da cidade’
— aham, sei… putaria agora tem outro nome”.
Apesar da desconfiança
geral, o grupo não desanimou.
Finalmente, após idas e vindas, altos e baixos, e muitas posições do
Kama Sutra, quando o grupo já pensava em desistir quase admitindo que
embarcaram em uma aventura tola de um bêbado desmiolado, Raquel estava
distraída olhando um fragmento estranho, que não era pedra, nem carvão, mas,
sim, o que ela identificou como sendo um pequeno pedaço de porcelana, nem se
dando por conta de que o grupo se distanciava dela.
Entretida neste exame, percebeu-se distante do grupo. No momento que
levantou a vista procurando os demais, ela reparou que bem na sua frente havia
algo que destoava de uma forma natural e parecia ser obra de intervenção
humana: uma parede de pedras milimetricamente encaixadas, tão cobertas de musgo
e tufos de capim que mal podiam ser reparadas por olhares desatentos.
— É aqui! — gritou
Raquel tão convictamente quanto só a intuição feminina pode ser.
Os outros pararam sua
marcha e voltaram-se para trás.
— É aqui gente,
encontramos! — ela reforçou, convictamente, e se pôs a dançar, alegre.
Os outros riram, incrédulos.
— Deve estar chapada! —
debocharam.
Sem esperar pelos
outros, Raquel largou sua mochila no chão e foi logo puxando a pá e pegando o
estojo com o material para escavar.
1752
… papai, mamãe e José
Raimundo andam com um mau humor em razão da chegada daquele povo, que é
praticamente impossível ficar em paz por aqui. É cada vez mais difícil
encontrar um pouco de tolerância e de sossego, mesmo estando no meio dessa
floresta isolada do mundo. Qualquer pequena rusga vira motivo para uma briga
generalizada.
Papai já fala em ir embora e tenta negociar na Estância Grande um novo
lugar para nos alojar.
[…]
Ontem à noite sonhei
novamente com ele e com o nosso bebê. Não queria ser mãe, mas preciso
reconhecer que depois do incidente que vivi mudei profundamente. Minha alma foi
violada porque fui obrigada a fazer o que não queria.
Não bastasse uma morte desnecessária, precisavam duas?
Que mundo cruel
dominado por interesses comerciais inúteis, onde só grassa a dor e o
sofrimento. Pensava que as feridas haviam cicatrizado, mas me enganei. Ainda
estão pulsantes. Posso senti-las sangrar quase que diariamente.
Quando fui obrigada
por papai a interromper a gravidez, não pude raciocinar, nem sentir a
profundidade desse crime. Lembro-me como se fosse hoje a entrada forçada na
alcova daquela feiticeira, que morava nos rincões distantes da Estância Grande,
realizando todos os tipos de feitiçarias, mas também realizava trabalhos de
parto ou de interrupção de prenhice. Vivi através de suas mãos justo o trabalho
sombrio de interrupção… talvez pelo fato de termos cometidos inúmeros pecados
da carne, para os quais não há perdão.
O cheiro da sua choça recendia a sebo, sangue e madeira queimada. Até hoje
sinto náuseas só de lembrar.
Fui obrigada a beber um chá amargo e terrivelmente quente, que me desceu
queimando as entranhas; depois, fui apalpada com força por ela diversas vezes,
por dentro e por fora… apalpadelas que tornavam-se pequenos e grandes socos e
murros… rios de sangue corriam de dentro de mim e com eles, parte de mim mesma
iam junto. Eu já não era mais eu…
… enquanto via seus olhos vidrados, como se estivesse possuída, rezei
para Nossa Senhora todas as orações que sabia; e também as que não sabia, as
que intuía, as que inventava. Mamãe me disse que isso era o preço de meu desdém
pelas coisas da Igreja, que tudo o que eu vinha fazendo era cultuar o pecado e
o diabo… agora, por fim, estava pagando o preço.
[...]
Por meses fiquei
trancada no meu quarto, sem vontade de nada, como se estivesse morta em vida.
Zinha e mamãe tentavam me animar, trazendo comidas, doces, frutas ou me
prometendo descidas à Estância Grande ou, até mesmo, a volta para São Paulo,
mas nada disso podia me remover do pântano onde eu estava. Duas mortes sobre
mim eram-me insuportáveis. E o pior: eu não podia falar nada sobre isso com
ninguém da minha família de sangue, nem mesmo com mamãe, apenas com Zinha, que
procurava me consolar.
O luto foi vivido no
mais profundo silêncio, sufocando e matando dentro de mim qualquer vontade de
viver, por anos. A minha solidão foi total; o deserto em minha alma, absoluto…
o barulho do vento na copa das árvores era ensurdecedor. Eles gritavam o nome
dos meus finados. Nada podia me tirar deste completo estado de torpor. Nem
mesmo a visita do cura da Estância Grande pôde exercer qualquer efeito sobre o
meu espírito.
Era, enfim, uma morte
em vida…
Chega o momento na vida de um homem…
Certa vez, quando estava bêbado com um amigo num dos bares da Cidade
Baixa, este meu ex-aluno maluco apareceu tal qual uma assombração, me relatando
a “grande expedição” arqueológica liderada por ele.
Quando o meu amigo pediu licença para ir ao banheiro e eu olhava
distraído pela janela para as figuras exóticas que habitavam aquele cenário da
Rua da República com a João Alfredo, uma voz adentrou em minha mente
misturando-se com o frenético zumzumzum do bar:
— Professor Lúcio! Que
coincidência! Estava justamente falando no senhor. Tenho algo pra ti — tomei um
susto que me custou 30 segundos.
Perguntou ainda se eu
me lembrava dele.
Era claro que eu lembrava dele.
Não me recordo dos nomes de todos os meus alunos porque nunca fui muito
bom em guardá-los, mas todas as feições e tons de vozes deles eu consigo
recordar, de uma forma ou de outra.
— Te lembra que tu nos
falou um dia numa aula sobre haver ruínas no Morro Santana, com um tesouro
enterrado a sete palmos do chão?
Eu não me lembrava de
ter dito exatamente aquilo, mas disse que “sim” porque estava bêbado e queria
me livrar dele o mais rápido possível, mas, também, porque não sei muito bem
como reagir quando sou pego de surpresa.
Percebendo minha bebedeira, ele se apresentou novamente e revelou o seu
nome: Ramiro Albuquerque; disse ainda que atualmente escrevia para um jornal de
preservação ambiental e que militava neste mesmo movimento. Toda essa ideia
louca de procurar as ruínas começou depois de uma entrevista que fez com Dom
Horácio por intermédio de Manoela, a filha dele e minha ex-noiva, lá no alto do
Morro Santana.
— Pois acredite se
quiser: nós as encontramos! Infelizmente não havia um tesouro debaixo delas. O
senhor nos enganou! Deste tempo parece não ter sobrado muita coisa: só uma
espada carcomida pela ferrugem, restos de vasos, pratos de cerâmica e um baú de
madeira, enterrado próximo às ruínas da parede de pedra que ainda tá de pé.
Nada de moedas de ouro ou diamantes, como o senhor me fez sonhar! Dentro do baú
estava um terço, um tinteiro e os restos do que deve ter sido uma boneca de
madeira e pano. Todos esses objetos jaziam em cima de um chumaço de folhas
amareladas, mofadas e grudadas, de um manuscrito carcomido pelo tempo que
acreditamos ter sido escrito por uma das filhas de Jerônimo de Ornelas. Grande
parte dele se perdeu em razão da umidade e do tempo. O manuscrito foi levado
para análise nos laboratórios da universidade para uma possível restauração e,
posteriormente, vai ser entregue ao Arquivo Histórico Moysés Vellinho, que é
onde se guardam os documentos referentes à sesmaria de Jerônimo de Ornelas e os
documentos fundacionais de Porto Alegre. Fiquei um pouco desapontado, porque
queria mesmo era encontrar um tesouro perdido. Mas só conseguimos um manuscrito
de uma das filhas dele relatando o que deve ter sido uma terrível história de
amor.
Me lembro que quanto
mais empolgado ele falava, mais tonto e confuso eu ficava. Ele não tinha dó e
prosseguia:
— O relato de uma desilusão amorosa, só que agora dos tempos coloniais:
que graça existe nisso? Como sei que o senhor já escreveu sobre Porto Alegre
num futuro distópico e sobre as guerras de gangues daqui, quem sabe tu não
utiliza ele pra escrever algum romance… tipo um romance histórico? Ia ser
nasque! Tu tem esse dom, eu não tenho. Podes fazer das tripas coração. Algo de
bom com esse achado inútil. Além disso, tu viveu pessoalmente a realidade lá de
cima junto com…
Mesmo estando bêbado eu
senti a fisgada, interrompendo Ramiro com um gesto brusco, quase um murro.
Depois me arrependi e me recompus. Tentei lhe dizer que no momento estava
fechado para balanço, pois meu relacionamento com Manoela tinha terminado e
estava passando por uma estafante crise da qual não queria falar nada pra
ninguém, muito menos para um ex-aluno. Ele ficou um pouco constrangido,
surpreso com o término, mas tentou remendar dizendo que poderia ser uma forma
de sublimar a dor do término, pois escrever sempre ajuda.
Naquele momento eu só sentia vontade de mandá-lo às favas e sair
correndo, mas, mesmo contrariado e com um nó na garganta, mais querendo me
livrar dele do que qualquer outra vontade literária nobre, disse que olharia a
bendita cópia do tal manuscrito um dia. Neste meio tempo o amigo com quem
estava voltou do banheiro e se sentou na mesa. Ramiro começou a recontar toda a
história, repisando nas minhas feridas.
Quando eu já estava zonzo e hermeticamente quieto, visivelmente
aborrecido, ele se flagrou e foi embora, mas prometeu me levar o manuscrito.
E eis que dois ou três
dias depois lá estava ele, na porta do meu apartamento, com uma cópia do
referido manuscrito e muitas fotos das escavações para me mostrar. Preferiria
ter recebido por e-mail, mas ele disse que estava me entregando “por fora” do
projeto, sem que os coordenadores soubessem. Nem mesmo ele tinha tido acesso ao
documento digitalizado. Disse ainda que conseguiu ficar com uma cópia, da qual
tirou outra cópia impressa que, naquele instante, me entregava em mãos. Depois
de muito falar e contar as “novidades”, ele finalmente se foi.
Passaram-se meses sem
que tivesse coragem e tempo de olhá-lo. Toda vez que batia os olhos nele, em
cima de uma pilha de livros, sentia uma terrível nostalgia que me paralisava
qualquer iniciativa. Um certo dia, sem saber bem por que, resolvi levá-lo para
o trabalho. Coloquei-o cuidadosamente na pasta e fui-me embora.
No intervalo entre um turno e outro, na minha parada obrigatória das
terças-feiras, no boteco da Dona Miriam, comecei a ler o texto e senti um misto
terrível de dor e lascívia. Tudo o que eu não gostaria de sentir. Meu primeiro
impulso foi ligar para o Ramiro e recusar a proposta de escrever qualquer coisa
e depois xingá-lo com todos os impropérios disponíveis na língua portuguesa.
Mas me contive de novo.
Imediatamente busquei os arquivos do Partenon Literário e encontrei um
paralelo possível com a história de um peão, que era o par amoroso da pobre
moça que vivenciou todo aquele drama e depois enterrou suas memórias, sabe-se
lá para quê, mas provavelmente para lhe fazerem justiça. Alguma coisa
interessante despertou dentro de mim e tudo o que vivi com Manoela e sua
família lá no alto do Morro Santana refloresceu em mim como uma nova
primavera.
De fato precisava escrever sobre isso — novamente sem saber bem o
porquê.
No exato momento em que
concluía esse trecho, Dona Miriam veio trazer os condimentos — mostarda,
catchup e maionese, que sempre são oferecidos pra quem degusta um bom xis
gaúcho no boteco ou no restaurante. Vendo meu copo quase vazio, ela me perguntou
se eu não queria mais uma dose de uísque. Muito eu gostaria, mas infelizmente
tinha que ir trabalhar e não poderia beber a terceira. Recusei com dor no
coração.
Depois de devorar o xis
me pus de pé, na parada, cambaleante, esperando o T4 e pensando, enfim, que
seria interessante escrever uma história de Porto Alegre a partir da
perspectiva do Morro Santana e do Partenon Literário. Foi uma grande associação
de escritores e intelectuais do século XIX, em sua maioria abolicionistas e
republicanos. Certamente devem conter inúmeros resquícios de pensamentos,
tendências e arquétipos da Porto Alegre profunda, tanto do século XIX quanto
dos séculos anteriores.
Mas quem em Porto
Alegre e no Brasil se interessa por uma história autêntica, contada pelo nosso próprio
ponto de vista, se a nossa mente colonial diz que tudo o que é bom vem de fora?
Já nesta altura,
involuntariamente meu cérebro e meu coração criavam ligações entre a triste
história do peão Luíz Henrique e da filha de Ornelas, Rita, com o Partenon
Literário. A argamassa começava a ser preparada dentro de mim para assentar os
tijolos.
1757
… Como será o fim da
minha vida? Quanto tempo desperdicei trancafiada neste quarto em cima deste
morro? Converso sobre isso com a pobre Zinha, que já apresenta alguns fios de
cabelos brancos, testemunhas de seus sofrimentos e agruras da vida.
Estes pensamentos tem me consumido com a precipitação de acontecimentos
que levam papai a querer vender estas terras e se mudar. Após a chegada dos
açorianos ele tem ficado inquieto e qualquer coisa o aborrece profundamente.
Tudo vira motivo para gritarias e brigas com mamãe, com José Raimundo e com os
pobres peões da estância.
Até mesmo com Francisco Carvalho da Cunha tem se desentendido por
pequenas rusgas, coisa que antigamente dificilmente acontecia…
[...]
Zinha segue
adoecendo. Cada vez que lhe pergunto sobre sua saúde ela desconversa e finge um
bem-estar que visivelmente não tem.
Papai e José Raimundo
falam em se desfazer dela em troca de algumas cabeças de gado com estancieiros
do alto Jacuí ou mesmo no mercado de escravos da Estância Grande. Pra mim seria
o fim. Não teria com quem conversar e dividir as angústias da vida. Ela conhece
todos os segredos de minha alma. Seria como perder uma mãe querida…
[...]
Está
confirmado!
Vamos embora daqui no mês que vem. Papai decidiu vender esta sesmaria e
nos realocar em novas terras nas margens do rio Jacuí. Já falam em arranjar-me
casamento com um tal Francisco Xavier de Azambuja, dono de terras, escravos e
cabeças de gados.
Só de ouvir falar nisso sinto um terrível calafrio no peito…
[...]
Que seres estranhos
somos nós. Queremos nos ver livre das desgraças e tristezas que vivemos, mas,
ao mesmo tempo, nos sentimos presos a este mal que tanto queríamos nos ver
livres. Já sinto um misto de alívio, felicidade e saudades antecipadas por tudo
o que vivi aqui.
Não faz mais sentido
escrever sobre essas coisas. Tampouco faz sentido levar esta bagagem pesada
comigo. Tem momentos que precisamos aliviar o peso que nos verga. Para renascer
tenho que morrer em definitivo, sem olhar para trás. Não sei por que não queimo
tudo? Só me resta coragem de enterrar, para que algum dia se faça justiça, nem
que seja póstuma.
Que a mãe terra resolva e consuma com tudo da maneira que achar mais
conveniente. Da terra esses papéis vieram, para a terra voltarão… assim como
nós…
Chega o momento na vida de um homem…
Não sei o que fiz de errado no amor.
A fortuna nos dias atuais, marcados pela aflição, angústia e remédios de
tarja preta, parece ser encontrar-se no amor, constituir família e se sentir
integrado a algo maior. No passado, a glória eram as belas casas e mansões para
abrigar a família constituída, ostentar a imagem e angariar reconhecimento
social. Hoje, época dos relacionamentos “abertos” e “trans”, das imagens ocas
de redes sociais, parece ser conseguir a mera reciprocidade no amor, algo cada
vez mais improvável.
Sincera e humildemente devo confessar que eu não sei o que é o amor —
assim como eu, talvez todo mundo esteja tão confuso com as imposições, mudanças
sociais e receitas de coachs de internet que tudo resulte em uma
confusão generalizada.
Também não sei se alguém faz algo certo no amor sem as fórmulas e as
receitas sociais, como o casamento e os seus inúmeros mandamentos (nem sempre
seguidos), mas chega o momento na vida de um homem em que é preciso olhar para
o nosso próprio “eu” sem comparações, porque, afinal de contas, é o corpo que
habitamos e ninguém pode fazer isso por nós.
Precisamos nos resolver… ou pelo menos tentar, mesmo que isso custe
empregos, estabilidade, falsos relacionamentos e as nossas ilusões mais caras!
Procurando preservar o meu precário equilíbrio interior, rejeitei a
tirania familiar, com seus dogmas e pressões, visando criar o meu próprio
caminho. Talvez por isso tive muitos relacionamentos, embora nenhum deles tenha
me deixado tão marcado e sequelado quanto o que vivi com Manoela.
Em meio a escrita destes murmúrios, quando eles já completavam
meses de adiamento e reclamavam uma conclusão, o acaso embolou todo o meio de
campo, trazendo um passado remoto à tona: lutando com a crise pessoal que elas
reviveram em mim, num dia frio de agosto encontrei Amanda, uma ex-namorada de
muitos anos atrás, no elevador do hospital psiquiátrico do bairro Teresópolis,
onde o meu pai e a mãe dela, por uma coincidência infeliz, estavam
internados.
Que sina terrível, não?
Um verdadeiro Zeitgeist: ambos filhos de pais mentalmente doentes,
divorciados, com três ou quatro casamentos…
Pude sentir que minha situação piorou naqueles dias, me expondo feridas
que julgava cicatrizadas. É como se a vida e o universo nos obrigassem a olhar
para as dores incômodas que tentamos não ver.
Quando demos por conta, reparamos que havia uma presença conhecida no
elevador: no caso, eu e ela. Balbuciamos um “oi” e comentamos sobre nossos
pais. Os grandes olhos verdes de Amanda, que apesar de muito bem feitos,
continuavam com as feições assustadas diante da vida, exatamente como na nossa
juventude, quando éramos colegas de faculdade — mas, também, demonstravam medo
por um misto de preocupação envolvendo toda a situação daquele momento.
Na saída do elevador, no saguão de entrada, duas crianças e um homem de
cabelos grisalhos a aguardavam. Ela me olhou meio sem jeito, deu um sorriso
amarelo, nem sequer se dignou a me apresentar, pegou na mão das crianças e
partiu tão rápida quanto o vento que soprava pelas frestas da janela.
Como a vida nos muda e nos molda!
Tantas foram as juras e promessas de amor, para que tudo isso se
concretizasse no amor… com outro homem! É o meu receio de estar num eterno
retorno desta cena. E agora, com Manuela… eu sei! Isso pode ser um exagero ou
uma simples covardia de minha parte, mas não posso deixar de senti-lo.
Desde o dia deste encontro inesperado, fiquei transtornado comigo mesmo
e pensando sobre o casamento enquanto instituição humana. Para mim, ele está
falido há séculos. Talvez este seja o meu problema pessoal: não acreditar nele!
Algumas pessoas, como os meus familiares e amigos mais próximos, acreditam
religiosamente e obtêm excelentes resultados.
Seria ilusão deles… ou minha?
Não sei. Para mim, as raízes deste problema se estendem até o tempo de
Luíz Henrique e Rita. Eles servem como um triste exemplo histórico. Com o
advento da “civilização” o casamento tornou-se um negócio, uma empresa, onde o
amor tem contado muito pouco para manter a conexão entre duas almas e a imagem
torna-se tudo.
Quem sabe nós tenhamos chegado num limite em que se faz necessário
repensar não só a economia e a sociedade, mas todas as relações, os hábitos, as
culturas para ver se algo muda pra melhor? Ou então… bem… então, devemos
admitir que, se não houver melhora, a essência da questão está justamente em
consumir imagens de “felizes para sempre” que não correspondem à realidade.
Há tempos temos visto casamentos mantidos em nome de algo que não é o
amor ou a paixão, muitas vezes de forma não declarada: criação dos filhos,
patrimônio, renda, moradia, comodidade, medo do inferno que o pastor prega, do
que a família dirá, etc. Certamente existem muitos casais que se amam
autenticamente e mantém uma ligação verdadeira; no entanto, é importante
reconhecer que se chegou a um limite civilizacional e que novos tipos de
relacionamentos, esporádicos, em casas separadas, abertos ou, então, relacionamento
com ninguém, são tão importantes quanto casar e ter filhos.
É necessário saber construir novos tipos de pontes entre os arquipélagos
e, sobretudo, respeitar as diferenças e os tempos.
Escrevo tudo isso como um paladino da auto-resolução em assuntos
complexos onde a maioria aparentemente sucumbe. Não quero enganar o leitor ou a
leitora. Já fui rude, covarde, violento ou omisso em muitos momentos dos meus
relacionamentos anteriores; assim como já fui apaixonado e apaixonante. O breve
relato do encontro inesperado com Amanda teve a finalidade de relembrar-nos da
efemeridade dos encontros humanos.
Se acordei para estes fatos dolorosos de auto análise foi, sem dúvida,
em razão do fim do meu relacionamento, tão intenso e voluptuoso, com Manoela, a
quem tanto amei e — reconhecido erro crasso! — tantas esperanças, típicas da
civilização Ocidental, depositei.
Felizmente ou infelizmente, são sempre as crises existenciais que nos
despertam!
***
Meu horário de pausa e respiro existencial está quase no fim.
Preciso parar de sentir, de pensar, de escrever e começar a me organizar
para embarcar no T4 semi-lotado da primeira hora da tarde para ir trabalhar no
outro emprego… ah, o trabalho! … sempre este reino inóspito onde sentir, pensar
e escrever definitivamente não importa! Senão que atrapalha o bom desempenho
esperado pela “sociedade”.
Uma folha de relva me vem à memória:
Adeus minha Ilusão!
Adeus, querido amigo, querido amor!
Estou indo embora, não sei para onde…
Vivemos longamente, com alegria, juntos acariciados;
Delicioso! — agora a separação — Adeus, minha ilusão.
O que eu queria mesmo era poder ficar sentado aqui, bebendo este uísque
e curtindo esse friozinho com Sol e céu azul de final de inverno portoalegrense
até a desilusão existencial passar ou, pelo menos, diminuir; mas, infelizmente,
a loucura da vida industrial moderna se infiltra na minha mente e na minha
escrita, com suas infinitas exigências e demandas, transformando-se em
neuroses, ansiedades e cobranças de mim para mim mesmo, em nome do bom
desempenho para… a patronal!
Paro tudo e respiro fundo.
Penso que só deveria voltar para o emprego ou para casa, como dizia o
mestre Cartola, “quando me encontrasse”, mas infelizmente não tenho coragem
para tanto. Por isso, vou “me encontrando” aos trancos e barrancos, assim como
essa narrativa atesta.
Os mortos estão vivendo
Talvez sejam os únicos que vivem, os únicos reais
E eu, a aparição, o espectro.
O que há de bom em meio a tudo isso? Ó meu eu, ó vida?
Que estás aqui — que a vida existe
Que a poderosa peça continua e tu podes contribuir com um verso.
Qual será o meu verso? Qual será o teu verso, leitor?
Nestas linhas depositei a firme esperança de o ter escrito. Elas foram
regadas por doses semanais de uísque e embaladas ao fundo por pagodes dos anos
90, um gênero clássico da música popular brasileira, ainda não reconhecido.
Estas são as razões do porquê me sinto em casa no bar da Dona Miriam.
Criei e desenvolvi gosto musical a partir deste gênero tão apreciado nos longínquos
anos 90, que fizeram surgir nomes tão queridos, como: Katinguelê, Exaltasamba,
Molejo, Art Popular, Negritude Jr., Pagode do Dorinho.
Enquanto minha alma foi moldada por uma lírica musical que mais parecia
“os sofrimentos do jovem Werther” na versão brasileira do final do século XX, a
de Manoela foi cria dos anos 2000, onde o mel na cueca desses pagodes é
substituído pelas tendências pornográficas do funk proibidão, mais sádico do
que o Marquês de Sade poderia sonhar — porém, sem nenhuma filosofia. Assim
comecei a pagar meu karma com Manoela, filha de Dom Horácio; e, provavelmente,
devo ter feito ela pagar o dela.
Mesmo não querendo, ao escrever todas estas histórias de vida, eu tive
que olhar para as minhas feridas, as minhas sombras, as minhas fragilidades — e
como fugimos das nossas fragilidades!
Cometi muitos erros com Manoela, seja por receio de viver a vida e
enfrentar a tirania oculta da minha família; seja porque a própria Manoela não
soube enfrentar suas feridas, sombras e fragilidades. Ou por tudo isso junto e
misturado.
As histórias de amor aqui narradas não foram contos de fadas. Foram
passageiras e frágeis, como é a vida. Com a minha Manoela não foi diferente.
Talvez ela apenas tenha me ajudado com o Sol do alto do morro, que ela tanto amava
e que me apresentou com tanta generosidade, ter jogado luz sobre as minhas
próprias sombras, encarando-as, sem saber que tinha feito isso. Espero ter
feito o mesmo por ela. Ao fim e ao cabo, talvez o amor seja isso mesmo: entrar
na vida do outro para ajudá-lo a jogar luz sobre si mesmo na tentativa de nos
tornarmos seres humanos melhores.
Seja lá o que for, o nosso amor foi selvagem, como o vento que corta a
copa dos pinus espalhados pelo morro, adentrando indomavelmente o rancho de seu
pai, deslocando nuvens e nevoeiros para diminuir o breu noturno que traz as
corujas para os galhos do entorno; ou como o bando de macacos que volta e meia
batiam na janela da cozinha para pedir comida, pulando de um lado para o outro;
ou como o amor voluptuoso que fizemos e que ao mesmo tempo nos fez, em meio à
relva escura da pedreira, com seu cenário selvagem, assustador e
pitoresco.
Por Manoela subi a trilha da pedreira com o coração saindo pela boca,
querendo pedir perdão pelas mancadas que cometi ou simplesmente para vê-la; por
ela escrevi romances e contos, querendo eternizar o amor, que pela brevidade da
vida, talvez não possa, nem deva, ser eternizado.
Ela é fogo selvagem que tudo consome.
Lembro-me de caminhar com ela pelas ruas de Porto Alegre e, de repente,
vê-la pendurada em alguma grade tentando alcançar uma muda de planta ou galho
de árvore exótica para replantar no rancho de Dom Horácio. Aprendeu a fazer
isso com o pai e a mãe; e a ser selvagem vivendo livre como a vida viva no alto
do Morro Santana.
Eis que, em meio a estas descobertas profundas de mim mesmo, a crise de
meia idade me acometeu, tal como acomete a todos os seres humanos, obrigando-os
a encarar a sua noite arcaica. Este ocaso existencial chegou pra mim em meio a
uma das muitas idas e vindas do nosso relacionamento, que por erro de criação e
de crença, tentei eternizar com o formalismo matrimonial.
Criada como um potro selvagem indomável morro afora, assim como veio
Manoela se foi, pois chega um momento da vida de um homem em que é preciso aprender
a olhar a realidade de frente, por mais amarga que seja.
Não casei.
Não tive filhos.
Mas não citarei o clichê de Brás Cubas.
Talvez exista uma parte da humanidade cujo sentido da existência seja
reproduzir; e outra parte cujo sentido seja tentar “consertar” a
humanidade, a quem os filhos dos outros recorrem nos momentos de desespero ao
perceberem a inoperância narcisista dos próprios pais. Eu não me encaixo na
primeira e me sinto involuntariamente como parte da segunda. Se isso são apenas
devaneios de um bêbado amargurado, a quem o amor não se consumou em um outro
ser humano, não sei responder.
Só sei que Manoela não quis filhos. Sabiamente ela percebeu que isso a
prenderia de alguma forma. Até conhecê-la, eu também não queria; mas o
sentimento que nasceu de nossa união me fez mudar de ideia, infelizmente, tarde
demais…
A filha que eu e Manoela não fizemos, hoje seria uma mulher. Ela corre
na brisa do cume do Morro Santana, sem carne, sem nome. Às vezes a encontro
numa nuvem passageira, num pôr do sol alaranjado refletido no Guaíba, no pico
da meditação, em meio à mata da última floresta da cidade. Volta e meia ela
apoia o seu ombro inexistente no meu ombro e, então, choramos. A filha que não
fizemos, fez-se por si mesma, neste encontro louco entre o destino e o acaso, a
vida e a morte, a inocência e a malícia, o ser e o não-ser, o pampa e a mata
atlântica.
Estes devaneios sentimentais esfumaçam-se bem na minha frente com a
chegada de um ônibus Vila Jardim. Os pensamentos se desfazem para que a atenção
se volte à cinzenta realidade fluída.
Sobem e descem passageiros apressados.
O profeta do bar começa a brigar com um motorista parado na sinaleira ao
lado do ônibus, xingando-o com impropérios entremeados de um ódio que nem ele
entende. Quando o ônibus e o carro se vão, ele se acalma, olha pra mim
esperando uma aprovação, que não acontece.
Pausa súbita que marca o breve compasso entre a eternidade e o agora.
Dona Miriam vem buscar o copo e os condimentos do xis. Pergunta se eu
quero algo mais. Viro o rosto para disfarçar os olhos marejados e vislumbro uma
nesga do Morro Santana por entre os prédios e casas.
Digo simplesmente que não.
Agradeço.
“Semana que vem tô aí de novo”… murmuro pra Dona Miriam, que apenas
sorri, gentilmente, e me deseja uma “boa semana”.
Levanto, meio cambaleante com todo o peso da vida e das duas doses de
uísque, e vou pra parada do T4 por entre outros passageiros portoalegrenses que
esperam, tão consumidos pelas agruras dos sentimentos humanos universais e os
boletos que vão vencer nos próximos dias…





Comentários
Postar um comentário