Como a burocracia mata a vida

 


*Por Erich Fromm  in "Ter ou ser?

A maioria de nós ainda acredita que todo tipo de administração em larga escala deva exigir inevitavelmente uma "burocracia", isto é, uma forma alienada de administração. E a maioria das pessoas ignora o quanto é fatal o espirito burocrático e quanto ele invade todas as esferas da vida, mesmo onde não parece tão evidente, como no relacionamento entre médico e cliente, marido e mulher.

O método burocrático pode ser definido como aquele que: (a) administra os seres humanos como se fossem coisas, e (b) administra as coisas em termos mais quantitativos do que qualitativos, a fim de tornar a quantificação e controle mais fáceis e baratos.

O método burocrático apoia-se em dados estatísticos: os burocratas fundamentam suas decisões em regras fixas obtidas mediante dados estatísticos, em vez de responder a seres vivos que se postam diante deles; resolvem os problemas de acordo com o que for estatisticamente mais provável, e correm o risco de prejudicar os 5 ou 10% daqueles que não se enquadram no esquema.

Os burocratas têm medo da responsabilidade pessoal e procuram refúgio atrás das regras; sua segurança e orgulho jazem em sua lealdade às normas, e não em lealdade às leis do sentimento humano.

Eichmann era um perfeito exemplo de burocrata. Ele não mandou centenas de milhares de judeus para as câmaras de gás porque os odiasse; ele não amava nem odiava ninguém. Eichmann "cumpria o seu dever". [...] Tudo o que lhe importava era obedecer às regras; ele só se sentia culpado quando lhe desobedeciam.

Isso não implica que não houvesse um elemento de sadismo em Eichmann e em muitos outros burocratas, isto é, satisfação de ter sob controle outros seres humanos. Mas esse traço sádico é apenas secundário em relação aos traços marcantes dos burocratas: sua falta de reação humana e sua adoração das regras.

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