O sapateiro e a poeta
*Por Artigas Osores (Para minha querida poeta e amiga Cristina Diaz) Eu tinha entre oito e dez anos quando as letras me adotaram para me proteger da pobreza, para me levar a viver em um mundo que, embora eu suspeitasse de antemão que era fantasia, desejava que esse mundo de ingenuidade e alegria fosse verdade. Na volta da minha casa, em uma garagem escura e úmida, vivia Alfredo "o caolho" Camino, um sapateiro solitário e pobre que gostava de dançar tangos. Em sua oficina de conserto de sapatos, ele também fazia troca e venda de revistas usadas. Nas vezes em que eu ganhava uns vinténs fazendo favores aos vizinhos, eu os gastava alugando revistas para lê-las ali, sentado no meio-fio da rua Giménez, lendo o que me afastava daquela realidade de casa pobre, roupas gastas e pão escasso. E nas vezes em que não tinha moeda alguma, eu ia revistar as edições para ver se tinham chegado a...