Contra a grande mãe
"Fonte de Cibeles" em Madrid, na Espanha, construída entre 1777 e 1782 por ordem do rei Carlos III
*Por Camille Paglia
A decadência romana foi a escaramuça [pequeno combate] final entre os elementos apolíneos e dionisíacos da cultura pagã. A força e o vigor da República romana vieram de sua síntese de um culto apolíneo do Estado com o arcaico rito ctônico. Os grandes deuses da Roma primitiva eram homens, com deusas da fertilidade submissas. Embora a adoração da Grande Mãe tivesse sido introduzida em 204 a. C., e sempre fosse uma opção da aristocracia, a popularidade dela durante o Império foi um significativo afastamento dos primeiros princípios de Roma. Ela vinha do Mediterrâneo oriental, onde a natureza é menos hospitaleira e mais absoluta. Foi essa virada para a divindade feminina um avanço ou um recuo cultural? Então como agora, a adoração da Grande Mãe numa era urbana é decadente. Os romanos imperiais não viviam mais no e pelo ciclo da natureza. A Grande Mãe passou de fértil força vital a persona sexual sadomasoquista. Foi a dominadora final. No fim de Roma, os homens eram passivos diante da história. Decadência é justaposição de primitivismo e sofisticação, um rodopio para trás da própria história. A Grande Mãe romana, com seus múltiplos nomes e símbolos, estava prenhe de passado. Sua gravidez era curatorial, outro museu alexandrino.
A Grande Mãe foi o foco de novas ansiedades e anseios espirituais, que só seriam satisfeitos com a consolidação do cristianismo. Os Padres da Igreja reconheceram a Grande Mãe como a inimiga da Igreja. Santo Agostinho, escrevendo numa virada da cultura ocidental (c. 415 d. C.), chama o rito de Cibele de “obsceno”, “vergonhoso”, “imundo”, “louca e abominável farra de efeminados e homens mutilados”: “Se esses são ritos sagrados, que é sacrilégio? Se isso é purificação, que é poluição? (...) A Grande Mãe ultrapassou todos os seus filhos, não em grandeza de divindade, mas de crime”. Cibele é um monstro, impondo uma “deformidade cruel” a seus sacerdotes castrados. Até Júpiter pecou menos: “Ele, com toda a sua sedução de mulheres, só desgraçou o céu com um Ganimedes: ela, com tantos efeminados confessos e públicos, conspurcou a terra e ofendeu o céu”. A Grande Mãe, como a própria Roma, é a Prostituta da Babilônia.
O cristianismo não podia tolerar a integraçao pagã de sexo, crueldade e divindade. Lançou a natureza ctônica no reino inferior, que seria infestado de bruxas medievais. O daimonismo tornou-se demonismo, uma conspiração contra Deus. Amor, ternura, piedade tornaram-se as novas virtudes, suaves qualidades do mártir palestino. A veneração pagã da força transformara a política num banho de sangue. A Roma do fim oscilava entre a fadiga e a brutalidade. Flagelação e castração nos cultos da mãe eram um símbolo sacrificial da dependência humana em relação à natureza. No Império, porém, a flagelação tornou-se uma perversão, e os castrados uma profissão. Bandos deles, de perucas, maquiagem e trajes femininos berrantes, percorriam as cidades e estradas tocando címbalos e pedindo esmolas. Apuleio descreve-os “guinchando de prazer com suas ásperas vozes femininas rachadas”. Os eunucos eram bastante conspícuos no Império. Os chefes da Igreja os desprezavam. A severidade cristã em relação aos papéis sexuais data desse período de persona grosseiras, exuberantes. Os devotos castrados da Grande Mãe, transformando a orgia ritual em carnaval de rua, deram permanente má reputação ao efeminado ou homossexual masculino. Quando a mulher ressurge no panteão cristão, será a branda Virgem sem mácula animal. Banida por Agostinho, a Grande Mãe desaparece por mais de mil anos. Mas retorna em toda a sua glória no romantismo, essa onda histórica do arquétipo.
Embora destruísse as formas externas do paganismo, o cristianismo jamais interrompeu a continuidade pagã das personas sexuais, latente em nossa língua, ideias e imagens. O cristianismo herdou a suspeita judaica em relação à feiura de imagens, mas em seus séculos de expansão começou a usá-las como instrumentos didáticos. Os primeiros cristãos eram uma classe analfabeta. As imagens cristãs foram a princípio riscos rudimentares, uma nova arte rupestre nas catacumbas romanas; depois subiram para os domos bizantinos, onde copiaram a postura icônica grega e o estilo de forte contorno apolíneo. Os santos cristãos são personas pagãs renascidas. Martinho Lutero diagnosticou corretamente uma perda do cristianismo original na Igreja italiana. O romanismo no cristianismo é esplendidamente, duradouramente pagão, transbordando no Renascimento, na Contra-Reforma e além.
Paganismo é pictorialismo mais vontade de poder. É ritualismo, grandiosidade, colossalismo, sensacionalismo. Todo teatro é exibicionismo pagão, a despudorada pompa das personas sexuais. A campanha do judaísmo para tornar invisível a divindade jamais teve pleno êxito. As imagens sempre fogem ao controle moral, criando a brilhante tradição da arte ocidental. A idolatria é o fascismo do olho. O olho ocidental será satisfeito, com ou sem o consentimento da consciência. As imagens são uma projeção arcaica, anterior a palavras e moral. A própria personalidade greco-romana é uma imagem visual, bem-feita e concreta. As deficiências sexuais e psicológicas do judaico-cristianismo tornaram-se gritantes em nosso tempo. A cultura popular é a nova Babilônia, na qual agora fluem tanta arte e intelecto. É nosso teatro de sexo imperial, templo supremo do olho ocidental. Vivemos na idade dos ídolos. O passado pagão, jamais morto, fulgura de novo em nossas místicas hierarquias de estrelato.

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