Bajuladores
| François Marot, "A Criação dos Cavaleiros da Ordem de São Luís por Luís XIV" (c. 1710). |
*Por Camille Paglia
Os bajuladores da corte não tem gênero porque não tem verdadeiro ego nem substância moral. A bajulação que envenena o mundo da corte de Hamlet é uma das causas da náusea crônica do herói. O mais doloroso para Hamlet é a traição de seus amigos de infância, Rosencrantz e Guildenstern, que se tornam espiões do rei. Hamlet chama Rosencrantz de “esponja… que se embebe do favor do rei, suas recompensas, suas autoridades”.
Bajulação é subordinação sexual. Hierarquia é erotismo conceitualizado, que é o motivo pelo qual, como disse o grosso Henry Kissinger, o poder é o afrodisíaco último.
O bajulador hermafrodita [conforme veremos,] é uma deformação do cortesão de Castiglione: a auto-escultura do cortesão torna-se servil plasticidade ao capricho e vontade do governante. [No bajulador hermafrodita] a identidade evacua-se a si mesma. O bajulador abre-se como uma luva para a mão real.
A paixão do Renascimento pelas “personas sexuais” reflete-se no Livro do cortesão (1528), de Castiglione, que teve enorme influência em toda Europa. É um manual de teatralidade. O homem de talento, diz Castiglione, deve “buscar habilmente ocasião para demonstrá-lo”. A vida social é um palco, e todo homem um dramaturgo.
Castiglione estabelece altos padrões de gosto para trajes e posturas. O cortesão é um artefato, uma obra de auto-escultura. É também um andrógino: tem uma “doçura especial”, uma “graça”, e “beleza”. Duas de suas qualidades básicas, sprezzatura (despreocupação) e disinvoltura (desembaraço) são hermafroditizantes. Quer dizer, fazendo o falar e o mover-se parecer sem esforço, disfarçam ou apagam a ação masculina.
A mulher é fundamental para o Livro do cortesão: o diálogo se trava nos aposentos da duquesa de Mântua, enquanto o duque dorme, e a mulher tem literalmente a última palavra. A mulher de Castiglione é puramente feminina. Ele opões-se ao modelo de feminilidade bissexuada de Petrarca, com sua frieza altiva, mortal. O cortesão de Castiglione impregna-se de doçura e graça pelo contato com as mulheres.
A educação masculina é o tema de Castiglione, como o de Platão, mas a mulher conquistou agora o eminente terreno simbólico do valor espiritual. Nele, toda mulher é uma Diotima.
O cortesão de Castiglioni busca uma persona sexual que equilibre inteiramente masculino e feminino. Castiglione adverte contra o efeminamento, a efeminação excessiva. O rosto do cortesão deve ter “alguma coisa viril”:
“Eu gostaria que o rosto de nosso cortesão fosse assim, não tão suave e feminino como tentam ser muitos, que não apenas cacheiam os cabelos e depilam as sobrancelhas, mas aformoseiam-se de todas aquelas maneiras que adotam as mulheres mais impudicas e dissolutas do mundo; e no andar, na postura e em todos os atos, se mostram tão ternos e lânguidos que os membros parecem na iminência de desmontar-se; e dizem suas palavras de modo tão mole que parece que vão expirar ali mesmo; e quanto mais se vêem em companhia de homens de categoria, mais fazem de tais modos um espetáculo. Estes, já que a natureza não os fez mulheres como visivelmente desejam parecer e ser, devem ser tratados não como boas mulheres, mas como ‘marafonas’ [bonecas de trapos] públicas, e expulsos não só das cortes dos grandes senhores, mas da sociedade de todo homem nobre.”
Será isso um ataque ao homossexualismo ostensivo? Castiglione sugere que o efeminamento é de algum modo inspirado pela presença de figuras de autoridade. Aborda a questão do bem-estar moral da corte e do soberano.
A alta cultura renascentista organizou-se em torno de cortes de duques e reis, dos quais os artistas e intelectuais dependiam para obter patrocínio. A arte era um instrumento de exibição competitiva, pela qual um governante mantinha o seu prestígio. O poder sempre gera bajulação.
Enid Welsford diz: ‘A blasfêmia bajulação dos príncipes, que foi uma característica tão desagradável da literatura e das festas renascentistas, não era uma simples moda no falar, mas um sinal de que se encarava o Estado como um fim em si’. O príncipe, a um passo de Deus, reproduzia a grande cadeia do ser na hierarquia de sua corte.
A bajulação era a prece secular, adoração da ordem sagrada. Mas o bajulador insincero era sanguessuga e oportunista, um poluidor da linguagem. Na antipatia de Castiglione pelo tipo, vemos o perigo moral da teatralidade renascentista.
Chegamos agora ao mais repelente andrógino da história, completamente ignorado pelas defensoras feministas da androginia. Eu o chamo de “hermafrodita da corte”. Essa persona sexual aparece sempre que há riqueza, poder e fama. Está em governos, corporações, departamentos universitários, e no mundo do livro e da arte.
Conhecemos o bajulador profissional pelo relações públicas ou yes-man de Hollywood. É o cabeleireiro da celebridade, o confidente e o rato de salão, o vistoso acompanhante.
Ava Gardner disse de um colunista de mexericos: “Ele ou está aos pés ou na garganta da gente”. Bajulação e malícia vêm da mesma língua bifurcada. O bajulador é um andrógino, por sua maleabilidade e servilismo.
{{{O bajulador hermafrodita [conforme vimos,] é uma deformação do cortesão de Castiglione: a auto-escultura do cortesão torna-se servil plasticidade ao capricho e vontade do governante. [No bajulador hermafrodita] a identidade evacua-se a si mesma. O bajulador abre-se como uma luva para a mão real. }}}
As ‘marafonas’ [bonecas de trapos] masculinas de Castiglione são ou parecem ser homossexuais porque bajulação é sodomia política. Chamamos o bajulador de xereta, puxa-saco, sanguessuga, rasteiro, abjeto. Seu desavergonhado auto-rebaixamento não é coisa de homem, elevando o rabo acima da cabeça.
Lloyd George disse que lorde Derby era ‘uma almofada que sempre trazia a impressão do último homem que se sentara nele’. Como o Satanás ‘adulador’ de Milton, o bajulador escorregadio arrasta-se no chão, contorcendo-se e mudando de acordo com as circunstâncias. É puramente reativo, uma paródia da feminilidade, cada palavra e gesto uma nauseante imitação do desejo do governante. Esse fenômeno pode ser uma perversão da aliança masculina, um espetáculo social de domínio e submissão.
Comentários
Postar um comentário