O tapa na cara que deveria ser dado nos donos das empresas de ônibus e na prefeitura de Porto Alegre

 

*Por Lucas Berton

12h30min. 

Sol de 35º do final de verão porto alegrense.

Numa parada da Avenida Protásio Alves um amontoado humano aguarda a aparição de qualquer ônibus das 5 linhas que vão para o centro histórico da cidade.

Nada!

Provavelmente faltaram motoristas naquela fatídica segunda-feira, talvez por motivos de saúde, o que reduziu drasticamente o número de ônibus em circulação. O aplicativo de celular não acertava nenhum horário. Só zerava e mostrava nova contagem de mais 5 minutos sem que nenhum ônibus despontasse no horizonte. A impaciência das pessoas aumentava, tal como o calor.

Eis que, enfim, um verdinho aparece na lomba vindo do caminho do meio trazendo algum alento. Quando finalmente chegou na parada, a massa humana se espremeu para subir os degraus, tipo sardinha sendo enlatada em um veículo já atrolhado de gente e, pra variar, sem ar condicionado. Pra piorar, ia tipo pinga-pinga, parando em todas as paradas para pegar mais passageiros, que iam se espremendo.

Além disso, o trânsito trancava nos cruzamentos fazendo com o que o ônibus fosse mais devagar, parando e arrancando, numa verdadeira tortura coletiva.

Eis que uma mulher de meia idade com um filho autista adentra o ônibus. Passam a roleta com muita dificuldade e devido à total falta de espaço — algo que, sem dúvida, rasga quaisquer dos autoproclamados “direitos humanos” — começa a se estranhar com uma dupla de amigas que já tinha esbravejando em voz baixa algumas paradas atrás contra a sorte daquela condução suburbana superlotada.

Somado ao atrolho de gente e ao arranca-para incessante do engarrafamento, se inicia uma troca de insultos em voz alta que todo ônibus escuta meio estarrecido, sentindo na pele como se fosse para nós.

Enquanto isso, eu pensava no dono da empresa de ônibus andando no seu carro particular, com ar-condicionado; e o prefeito de Porto Alegre, em algum evento ou “agenda oficial”, também com ar-condicionado, dando tapinha nas costas e esbanjando aqueles seus sorrisinhos cínicos. Também não podia deixar de pensar nos inúmeros bancos e shoppings muito bem equipados e guarnecidos dos extremos do calor, enquanto nós, povo brasileiro e porto alegrense, íamos tipo rãs cozidas em fogo baixo.

Reza a lenda que se um sapo for colocado repentinamente em água fervente, ele pulará para fora da panela, mas se for colocado em água morna que é então fervida lentamente, ele não perceberá o perigo e morrerá aos poucos. Parece que a maior parte do povo brasileiro vive como estes anfíbios fervidos lentamente, com requintes de sadismo em quase todas as esferas sociais.

Ali, naquele ônibus lotado de uma segunda-feira de final de verão porto alegrense, não era diferente.

Os insultos, então, chegaram ao auge. A mãe dispara: “olha aqui guria, só não te meto a mão na cara porque eu tô aqui com o meu filho, que é autista”. A guria retruca no mesmo tom agressivo e fica alfinetando por mais algumas paradas, inclusive questionando “o belo exemplo dado ao próprio filho!”.

Por um instante o silêncio se faz dentro do ônibus, apesar do mau-humor generalizado de quase todos os passageiros e das rusgas entre a mãe e a guria, que fica latejando eletricamente entre todo mundo, prestes a se descarregar. O ônibus estanca mais uma vez diante de uma sinaleira, que parece ficar fechada por uma eternidade. A guria retoma, conversando com a amiga para que todo ônibus escute sobre a “má educação de certas pessoas”. Mas a mãe não tarda a responder: “mas ainda tá falando de mim? Não vai parar mesmo?”.

A brasa reacende e começa um novo pequeno incêndio. A proximidade das duas não causava bons augúrios. Novos insultos e acusações recomeçam entre elas que mal se conhecem e nem sabem quem realmente são. 

A parada da mãe finalmente chega. 

Quando ela vai descer junto com o filho autista, na passagem entre as duas amigas, enche a mão e senta um tapa na cara da guria que estala por todo o ônibus e chega a doer na minha alma. Explodem impropérios por parte da guria, que tenta agarrar os cabelos da mãe e chutar suas costas e costelas enquanto ela descia. Tudo acontece meio de raspão, mas a mãe escapa ilesa.

Muitos passageiros, como eu, uns de frente, outros de costas, ficam estarrecidos sem saber o que dizer. Alguns olhares sádicos se satisfazem com a cena, que alivia a sua própria condição de miserabilidade existencial, sem perceberem o rebaixamento geral da espécie humana com este tipo de cena. 

A guria manda o motorista abrir a porta do ônibus porque aparenta querer descer pra brigar, mas no fim, quando a porta reabre, tal cão que só ladra, apenas xinga a mãe, que fica na parada, virada para o ônibus, devolvendo todos os xingamentos, mandando ela descer pra encarar ela, sob o olhar atônito do filho.

A porta fecha novamente e o ônibus se põe em movimento. 

O lado esquerdo do rosto da guria brilha num avermelhado latejante. Uma mulher negra que estava próxima da roleta vem para o lado dela lhe “prestar solidariedade” (ou meter mais lenha na fogueira?): “não dá pra aceitar essas coisas, que absurdo!”

A guria se retorce: “eu não aceitei. Eu peguei ela, chutei as costas dela; mas ela vai ver só…”. Triste declaração, tão miserável quanto impotente perante a mais uma das injustiças do mundo. 

A mulher negra retruca em voz alta: “mas a culpa mesmo é do motorista. Ele tá vendo que o ônibus tá atrolhado e continua pegando gente”.

O mal-estar geral se intensifica e o ônibus segue o seu caminho. Ninguém ousa concordar ou discordar. Nem mesmo o motorista.

Eu desço na minha parada, mortificado por dentro.

A prefeitura e os empresários absolutamente tranquilos, sendo acobertados pela grande mídia e por toda a estrutura oficial, vendidos como “empreendedores” e vencedores, enquanto o povo se estapeia e se odeia sem bem saber o porquê, mais como o resultado de um descaso que vem em efeito cascata desde cima e não é corretamente percebido, do que por uma razão compreensível e justa.

O episódio fez eu lembrar da frase da grande abolicionista norte-americana, Sojourner Truth (1797-1883): “os ricos roubam os pobres e os pobres roubam uns aos outros”.

Aquele tapa da mãe na cara da guria não foi só nela. Foi algo mais: foi como se o prefeito e os empresários do transporte “público” dessem um tapa em mim, nos passageiros, no povo porto-alegrense e brasileiro em geral.

E os tapas na cara não só nos usuários do transporte público, mas nas comunidades escolares com as interferências autoritárias dos secretários de educação neoliberais, com salas superlotadas sem a menor infraestrutura para enfrentar o calor extremo que tem feito nos últimos anos; a falta de condições para um atendimento digno nas escolas e mesmo nos postos de saúde; a ausência de planejamento para revitalizar as bombas de contenção visando evitar novas enchentes; a inexistência de consulta e a não-escuta de usuários nos bairros mais remotos sobre rotas, linhas e horários no transporte público; e a lista certamente não para aqui…

Quantas cenas como essa — de irmã contra irmã — se repetem Brasil afora? 

Infelizmente não temos visto um revide à altura. Sequer uma compreensão exata do que se passa. Ao invés de estapearmos quem realmente merece, temos estapeado a nós mesmos… esta talvez seja a nossa pior miséria!

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

Murmúrios do Morro Santana

Humphry Morice

A queda do muro de Berlim na sala de casa