Sobre os pés da alma na cidade

*James Hillman em A cidade como morada (1980)

"Andar acalma. Prisioneiros circulam no pátio; animais andam de um lado para outro em suas jaulas; a pessoa ansiosa mede o chão com seus passos: esperando o bebê nascer ou as notícias da sala da diretoria. 

Heidegger recomendava o caminho na floresta para filosofar; a escola de Aristóteles era chamada 'Peripatética' — pensar e discursar enquanto se caminha; os monges andam em seus jardins fechados. Nietzsche disse que só tinham valor as ideias que ocorriam ao caminhar, ideias 'laufenden' — ideias correntes, não ideias sentadas.

Saímos para caminhar para dar um ritmo orgânico aos estados mentais depressivos, embotados, com suas agitações reverberantes, e esse ritmo orgânico do caminhar vai ganhando significado simbólico ao colocarmos um pé depois do outro, direito-esquerdo, direito-esquerdo, num compasso ritmado. Compasso. Medida. Passear. 

A linguagem do caminhar acalma a alma, e as agitações da mente começam a tomar um rumo. Caminhando, estamos no mundo, encontramo-nos num lugar específico... uma moradia... uma habitação com um nome... Se não podemos caminhar, para onde irá a mente? Será que ela não sairá correndo, ou ficará paralisada, movimentando-se apenas no ritmo da farmacologia: estimulantes e calmantes, relaxantes e excitantes. 

Uma cidade que não permite caminhar não é também uma cidade que nega uma moradia para a mente? Podemos estar nos dirigindo, literalmente dirigindo-nos [com carros], para o [mal-estar] simplesmente por não cuidar dessa necessidade humana fundamental de caminhar.

Há provavelmente uma cura arquetípica ocorrendo no caminhar, algo que afeta profundamente o [aspecto mental]. Quando estamos nas garras da ansiedade, como nos pesadelos, ficamos quase sempre incapazes de mover as pernas. Há uma grande associação entre pavor e o movimento dos pés — por exemplo, em alemão a palavra para pavor é 'salto' ou 'pulo'. 

Será que, quanto menos movimentamos as pernas, mais sujeitos estamos à ansiedade; que só por não nos movimentarmos já estamos vivendo um pesadelo inconsciente?

No Egito antigo uma das principais convenções hieroglíficas para 'Bá', a alma, era a barriga da perna e os pés, a parte inferior das pernas como que dando um passo. A alma caminhava. Quando não mais caminhamos, o que acontece com a alma?

Andar também me põe em contato com minha natureza animal. Sou como me movimento: como um gato, ágil e furtivo; obstinado como um touro; altivo como uma cegonha; desengonçado como um pato; empertigado e saltitante como um coelhinho. Há um aspecto animal em nosso movimento pelo qual somos reconhecidos. 

Quando essa natureza animal é rejeitada, ela procura compensação em aparatos externos: em carros (puma, corcel) [ou motos], times esportivos (tigers, birds, lions [aqui no Brasil os Urubus são os flamenguistas, o Porco é o Palmeiras, a Raposa são aqueles do Cruzeiro etc.]), penteados, jóias, etiquetas de roupas (o jacaré ou o canguru, agora aplicados na frente). 

Esses emblemas estáticos são desenhados para pessoas sentadas num carro, numa mesa de reunião, num restaurante, onde apenas metade do corpo aparece. Na televisão só o que vemos são cabeças-que-falam ou movimentos acelerados. O caminhar não entra na televisão: podemos ver violência, pulos para todos os lados, pessoas fugindo ou trombando umas nas outras, esportes, dança, exercícios, mas onde estão as pessoas passeando pelas ruas? Deitamo-nos ou sentamo-nos para ver televisão, e sua magia reflexiva transforma-nos em cabeças-que-falam, bonecos assistindo a bonecos".

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

Murmúrios do Morro Santana

Humphry Morice

A liberdade em pombas