A liberdade em pombas
Naquele início de uma tarde fria
e ensolarada de inverno, enquanto a irmã de meu pai trançava meus cabelos, eu
ouvia o farfalhar das árvores. Os dedos acariciando minha cabeça, o sol aquecendo minha pele fria pelo vento, o rádio ligado e o cheiro da comida no
fogo, todo aquele instante, como um todo, me fizeram pertencente ao espaço do
tempo que chamamos de presente. Fechei os olhos na tentativa de saborear cada
sensação, principalmente o senso de completude que me atingiu como um relâmpago
descido do céu.
Eu já havia sentido completudes como aquela, mas sempre duravam meio momento e logo desapareciam, quase como se nunca tivessem existido. E essa rapidez me fazia acreditar que todos os infinitos eram precoces e passavam velozes demais diante dos olhos pelos quais enxergamos a vida.
Agora eu vejo as pombas cantando mais adiante. Não as vejo com os olhos, embora suas vozes me levem a vê-las nitidamente através do que consigo imaginar sobre elas. Imagino o assunto que conversam através de suas melodias. Lembro das vezes que julguei as pombas do Centro Histórico por andarem na sujeira e na muvuca. Entretanto, um dia desses, enquanto eu olhava por uma janela para os telhados dos prédios do Centro, eu vi para onde as pombas iam quando não tinham para onde voltar. Eu vi as penas reluzindo uma luz azulada no contraste das telhas de barro vermelho. Eu vi a paz que aqueles ratos com asas encontram quando sobem para o topo dos prédios abandonados da cidade. As pessoas se acham melhores que as pombas. Tenho o pão inteiro enquanto elas, as pombas, apenas as migalhas. Mas no fim, elas são as privilegiadas, pois possuem asas que as levam para longe do caos das ruas movimentadas do Centro.
E o sol que eu sentia batendo nas asas imaginárias que me foram dadas, naquele breve momento infinito, aquecia o azul rarefeito da liberdade que eu sentia possuir. Eu era miseravelmente livre no seio de uma família que não era a minha, embora os laços sanguíneos dissessem o contrário. A liberdade não me dizia o que fazer, e eu nem mesmo possuía a receita de um instinto primitivo que me orientasse nos meus dias vividos. O corpo das pombas era presenteado com uma fisionomia que as permitia fugir quando ameaçadas, mas e eu? Meu corpo de menina crescida não possui a força de asas que sabem voar. E como eu ansiava alçar voo…
Quando saí da rotina, percebi a existência do livre arbítrio. Eu levantei da cama e não me vesti de imediato, com a pressa de sair de casa. Corri para o relógio, checando se já tinha me atrasado, e me aliviei por ter perdido a hora. Aquela hora da manhã me era estranha. Eu estava em casa e não sabia para onde ir ou o que fazer com aquelas horas que roubei. O tempo ia passando e a indecisão causada pela vontade de não desperdiçar aquelas horas roubava essas mesmas horas que escorriam, como areia por entre os dedos. O pensar demais roubava o tempo de vida tanto quanto as consequências vindas por agir sem pensar. Correr atrás do tempo perdido era tão inútil quanto pular sem asas para voar. Mas mesmo assim eu corri e pulei. Te garanto que voei por um meio segundo, ou até mesmo um segundo inteiro. O relógio, no entanto, não voltou seus ponteiros.
Fui de ônibus até o parque onde me encontrei, há muito tempo, com um amor que me fugiu assim como o tempo-areia. Lembro que esse homem nunca me fazia esperar. E embora eu tentasse chegar antes do horário marcado, sempre ocorria de encontrá-lo lá, sentado e cansado de esperar, debaixo das árvores do parque. Agora quem espera no parque em reforma, já sem os antigos bancos nos quais se poderia esperar, sou eu. Quem espera, horas cheias de vários minutos, pelos atrasados que hão de chegar sou eu. Contudo não espero pelo homem que amei. Não tenho a dádiva de esperá-lo, já que sei que ele não vem. Eu o fiz esperar por tempo demais. Não me aguentava dentro da infinita espera. Eu queria crescer, me ver no espelho como alguém madura e conhecedora da vida. A cada dia crescido a minha insignificância perante a grandeza do mundo me tranquilizava de tudo que eu pudesse temer. Mas crescer significava gastar tempo. E gastar tempo não é o mesmo que perder tempo.
Eu perdia meu tempo com pessoas que não me geravam certezas, com livros ruins que eram premiados por uma gentinha burra, com entrevistas de empregos escravizantes, com rapazes frouxos que não sabem escolher batatas para fazer purê e com um cacto artificial que eu reguei por meses. Entretanto o gasto de tempo sempre foi bem investido, seja entre às 11:35 e às 14:20 quando o sol entrava pela janela do meu quarto mal iluminado e eu brincava com minha gata, ou quando eu tocava novamente uma música de 9 minutos e 35 segundos somente porque a melhor parte passou e eu não a senti como deveria. O tempo bem gasto é aquele que não nos doemos por inteiro querendo que ele volte. Já o tempo perdido vem atrelado com uma ânsia arquejante por diferença.
Após o passeio pelo parque, voltei para minha casa, já no fim da tarde luminosa, e dormi o sono dos desinteressados. A noite se emendou na tarde e foi quando eu tive um sonho. Do alto de um edifício com telhas de barro, eu estava na beira. Via, pequenas e distantes lá embaixo, as moleiras das pessoas que passavam. Do alto, eu tinha o impulso de pular. Tinham outros comigo, mas esses já eram bons voadores. E a cada salto o medo tomava conta e eu sentia como se fosse o fim. A plenitude estampada no rosto de cada homem-pomba e mulher-pomba que saltava, como se abraçassem o ar nebuloso. Era a promessa de liberdade eterna. Quando chegou minha vez, perdi a coragem. Então acordei.
Para onde eu fugisse ou o que eu fizesse, não mudava a escolha que meu consciente mais vulnerável e sincero havia feito naquelas horas dormidas da tarde anoitecida. O sonho me assombrou pelo resto dos meus dias, mesmo aqueles onde eu já me via madura demais perante o espelho, como uma fruta mal comida e esquecida. Havia escolhido viver aprisionada a morrer livre.
E meu aprisionamento era a covardia de não ousar viver uma vida onde não havia tempo a ser medido, cabelos e tias, amores a serem perdoados, pombas imundas a voar pelas ruas já inexistentes do mundo. Minha prisão era ansiar uma beatitude da qual eu fugia com todas as forças.
Foi no dia que me entreguei à eternidade, como em uma simbiose, assim como as pombas se entregam ao ar, que me vi livre. Os ponteiros haviam congelado e já não havia espera. Não havia ânsia nem expectativa. Não havia nada. Nada era a paz que eu costumava confundir com o nome liberdade.
No fim, havia a liberdade.

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