O sadismo é fascinante

 

*Por Lucas Berton


A perversão é fascinante!

        Na pior das hipóteses o prazer sádico é contagioso. Por isso, ler as obras do Marquês de Sade ou vivenciar um prazer supostamente sem limites da luxúria são perseguidos e reprimidos, chegando a serem proibidos. Quanto mais se proíbem, mais eles retornam por outros meios.

         Nesse e noutros sentidos, as obras de Sade — que são verdadeiros manifestos do prazer hedonista — tornam-se reveladoras e, até certo ponto, “libertadoras”. No entanto, exageram e tensionam para o polo oposto da repressão moralista feita através de séculos em nome dos valores católicos e dos “bons costumes” — e quanto mais se fala da moral e dos “bons costumes” publicamente,  mais se pratica uma vida pornográfica nas profundezas.

         A importância está, então, em reconhecer a necessidade de descarregar a tensão perversa e sádica, vinda, geralmente, em forma de luxúria e ódio incontido. A grande questão é que Sade passa rindo de muitos limites e desequilibra a balança humana do polo moralista para o outro extremo.

         Certamente precisamos de leis sociais onde o Eros, os impulsos dionisíacos e ctônicos sejam considerados sem moralismos e repressões permanentes. As vazões sadianas são necessárias, porém, profundamente perigosas. Elas também podem tirar a poesia da vida em muitos momentos, uma vez que não podemos resumir tudo à satisfação da luxúria e da crueldade em orgias sem fim.

         Certamente Sade quis chocar ao exagerar tais pontos que eram e são tabus públicos (embora praticados secretamente), contudo,  este processo joga fora ou reduz drasticamente todas as outras dimensões humanas — tão importantes quanto o prazer. Além disso, ignora que a dor e o sofrimento vem na esteira do prazer. Quanto maior este último, na mesma proporção será o vazio trazido pelas primeiras.

         Cabe perguntar: é algo realmente humano nos tornarmos uma máquina insaciável de sexo, luxúria e orgias, que dimimuem ou arruinam outras dimensões do nosso ser? Que perigos para a espécie humana podem advir do fato de não haver crime em quase nada? O fio da “fraternidade” foi inventado e mantido apenas pelos cristãos, ou seria uma expressão da própria humanidade que entra em conflito ético com o prazer desenfreado? A “fraternidade” enquanto sentimento não existiria também na natureza e nas outras espécies?

 

***

 

         Retomando, em parte, o debate proposto por Heidegger e Dugin acerca do racional versus o caótico, e de como o primeiro termo se transformou na base da civilização Ocidental, negando e reprimindo o segundo, deve haver dentro de nós um pequeno “buraco negro” onde o caótico se expressa, apesar de toda a repressão e negação que pode haver em relação a ele.

         O seu peso gravitacional dentro do nosso universo interior distorce a razão, levando-a para algum tipo de descontrole. É neste pequeno caos dentro de nós que o racional muitas vezes precisa se impor — ou, então, pelo menos acabamos por tensionar em prol de algumas justificativas forçadas que pendem para um lado ou para o outro, não encontrando nenhum tipo de apoio fora de nós, na “civilização racional” que nos rodeia. Certamente esta nossa pequena zona “caótica” interior se localiza no inconsciente individual e vaza para o inconsciente coletivo.

         Quando alguém sente tensionamentos da vida, dos instintos, dos desejos profundos, das exigências sociais, profissionais ou existenciais, mas não há razão para tal, é certamente neste interior caótico que deve se gestar certas propensões que não vemos — literalmente — razão de ser.

         O sadismo é, talvez, um dos maiores porta-vozes desse buraco negro caótico interior dentro da espécie humana, que grita e agita cada um de nós de diversas maneiras e quando menos esperamos.


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