O sadismo é fascinante
A perversão é fascinante!
Na pior das hipóteses
o prazer sádico é contagioso. Por isso, ler as obras do Marquês de Sade ou
vivenciar um prazer supostamente sem limites da luxúria são perseguidos e
reprimidos, chegando a serem proibidos. Quanto mais se proíbem, mais eles
retornam por outros meios.
Nesse e noutros
sentidos, as obras de Sade — que são verdadeiros manifestos do prazer hedonista
— tornam-se reveladoras e, até certo ponto, “libertadoras”. No entanto,
exageram e tensionam para o polo oposto da repressão moralista feita através de
séculos em nome dos valores católicos e dos “bons costumes” — e quanto mais se
fala da moral e dos “bons costumes” publicamente, mais se pratica uma
vida pornográfica nas profundezas.
A importância está,
então, em reconhecer a necessidade de descarregar a tensão perversa e sádica,
vinda, geralmente, em forma de luxúria e ódio incontido. A grande questão é que
Sade passa rindo de muitos limites e desequilibra a balança humana do polo
moralista para o outro extremo.
Certamente precisamos
de leis sociais onde o Eros, os impulsos dionisíacos e ctônicos sejam
considerados sem moralismos e repressões permanentes. As vazões sadianas são
necessárias, porém, profundamente perigosas. Elas também podem tirar a poesia
da vida em muitos momentos, uma vez que não podemos resumir tudo à satisfação
da luxúria e da crueldade em orgias sem fim.
Certamente Sade quis
chocar ao exagerar tais pontos que eram e são tabus públicos (embora praticados
secretamente), contudo, este processo joga fora ou reduz drasticamente
todas as outras dimensões humanas — tão importantes quanto o prazer. Além
disso, ignora que a dor e o sofrimento vem na esteira do prazer. Quanto maior
este último, na mesma proporção será o vazio trazido pelas primeiras.
Cabe perguntar: é
algo realmente humano nos tornarmos uma máquina insaciável de sexo, luxúria e
orgias, que dimimuem ou arruinam outras dimensões do nosso ser? Que perigos
para a espécie humana podem advir do fato de não haver crime em quase nada? O
fio da “fraternidade” foi inventado e mantido apenas pelos cristãos, ou seria
uma expressão da própria humanidade que entra em conflito ético com o prazer
desenfreado? A “fraternidade” enquanto sentimento não existiria também na
natureza e nas outras espécies?
***
Retomando, em parte,
o debate proposto por Heidegger e Dugin acerca do racional versus o caótico, e
de como o primeiro termo se transformou na base da civilização Ocidental,
negando e reprimindo o segundo, deve haver dentro de nós um pequeno “buraco
negro” onde o caótico se expressa, apesar de toda a repressão e negação que
pode haver em relação a ele.
O seu peso
gravitacional dentro do nosso universo interior distorce a razão, levando-a
para algum tipo de descontrole. É neste pequeno caos dentro de nós que o
racional muitas vezes precisa se impor — ou, então, pelo menos acabamos por
tensionar em prol de algumas justificativas forçadas que pendem para um lado ou
para o outro, não encontrando nenhum tipo de apoio fora de nós, na “civilização
racional” que nos rodeia. Certamente esta nossa pequena zona “caótica” interior
se localiza no inconsciente individual e vaza para o inconsciente coletivo.
Quando alguém sente
tensionamentos da vida, dos instintos, dos desejos profundos, das exigências
sociais, profissionais ou existenciais, mas não há razão para tal, é certamente
neste interior caótico que deve se gestar certas propensões que não vemos —
literalmente — razão de ser.
O sadismo é, talvez,
um dos maiores porta-vozes desse buraco negro caótico interior dentro da
espécie humana, que grita e agita cada um de nós de diversas maneiras e quando
menos esperamos.

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